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Com frequência se diz que a próxima Cimeira Europeia, reunião dos chefes de Estado e de governo da União Europeia (UE), seja ela qual for, é decisiva. Após a crise de 2008, cada Cimeira era a da última oportunidade e ou se tomavam medidas definitivas para vencer a crise e evitar o fim anunciado da zona euro e, em dominó, da União, ou o anúncio se confirmava.

Nunca foi assim. Nem as medidas foram definitivas, nem a União acabou. Mas isso foi há anos. Desta vez, a Cimeira das próximas quinta e sexta feiras é mesmo decisiva. Por três razões: a UE está cercada e em risco economicamente. Está cercada e em risco politicamente. Está cercada e em risco geoestrategicamente. O risco é grande, o cerco sério, as saídas escassas.

1. O cerco económico.

O advento de uma nova era de proteccionismo ameaça a economia europeia no seu todo e cada um dos seus membros em particular. Se para países como a Alemanha, a ameaça é maior, no fim todos sofrerão. O proteccionismo norte-americano, associado à vontade expressa de alguns em destruir a integração europeia e aos sinais de inversão do ciclo económico à escala global, são um cocktail explosivo e potencialmente letal para a coesão da integração europeia.

Mas não é só isso. O aumento das taxas de juro pelo FED, o fim anunciado do programa de compra de dívida pelo BCE, a fragmentação crescente da regulação global, enfraquecida pela contestação política e pelo enorme crescimento do mercado electrónico e da dívida a nível mundial, fazem do anúncio da crise um fácil exercício adivinhatório. A crise vai mesmo acontecer. Pode vir a ser mais dura do que a de 2008. A dívida global aumentou drasticamente nos últimos 10 anos (poderá ter uma ideia aqui), até na China, provando que a tão proclamada austeridade não foi assim tão austera. O Mundo está mais endividado do que nunca.

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Quando o mercado voltar a ser do urso , e sê-lo-á provavelmente mais cedo do que tarde, todos sofrerão, mas os países mais frágeis serão mais atingidos. A solução não é óbvia e muito menos fácil. Mas a Europa, fragilizada pela concorrência crescente, só sobreviverá unida.

2. O cerco político.

A crise económica, a imigração descontrolada, a crise das democracias liberais, são três dos alimentos do populismo na Europa.

Uma rápida definição de populismo salienta a oposição entre as elites e o povo proclamada pelo líder. As elites são más e corruptas, só a acção do povo, expressão da vontade geral – e da soberania popular -, é virtuosa.  Os populistas apelam ao povo contra as elites e as instituições. Na base está quase sempre uma versão tradicional do conceito da Nação como fonte de mobilização; em nome dela, do “povo” genuíno que a constitui, tanto quanto possível “etnicamente” homogéneo (pelo menos nos populismos de extrema direita, a legitimar um forte discurso anti-imigração e refugiados), se constroem as actuais fórmulas nacionalistas.

O populismo, em Itália, França, nos países de leste da Europa, em embrião um pouco por todo o lado (na Alemanha), alimenta-se da crise económica. Do cepticismo em relação às instituições da democracia e aos políticos. E cada vez mais, poderoso aliado dos populistas, da imigração massiva, alimento da xenofobia, gene principal do nacionalismo radical. É a imigração a fonte principal de alimento do discurso do presidente norte-americano, foi ela que em parte provocou o resultado do brexit, é ela que ameaça a Mãe de Todas as Cimeiras.

Sobre a imigração, em particular na Europa, repito o que escrevi um cento de vezes: ninguém na UE defende uma política de portas abertas sem restrições, pretende-se que as políticas europeias na matéria, que as há, sejam eficazes. Três requisitos: recursos adequados, vontade política dos governos nacionais, respeito pelas normas e regras preconizadas por essas políticas. O problema, como sempre, reside no facto de serem os mesmos que criticam a UE por não dar resposta ao problema a recusar-lhe recursos, a minar a vontade política (dos respectivos Estados) e a desrespeitar as normas europeias. É tão simples como isso, acreditem.

3. O cerco geoestratégico.

Com a falência do parceiro transatlântico, que ninguém pode asseverar seja um breve hiato, por um lado, e com a pressão russa, por outro, considerando o estado actual da margem sul do Mediterrâneo, pouco resta à Europa senão contar com os seus próprios meios.

É difícil. Os europeus vivem no paraíso kantiano criado à sombra do chapéu-de-chuva de segurança americana. Desabituaram-se de lutar, habituaram-se a uma vida fácil, de juros baixos e segurança ilimitada. Convenceram-se de que a História acabou mesmo e foram surpreendidos com a violência do seu regresso. Convivem bem com a ideia do seu continente ser o belo Museu do Mundo, e reconvertem-se à função de zeladores da memória daquela que foi sem dúvida uma das mais notáveis civilizações conhecidas da Humanidade.

Entre uma América envolta no manto de super-herói protecionista e as ambições pouco discretas do grande vizinho russo, que visão geoestratégica que não seja de mera sobrevivência a prazo, num lento e agónico inverno demográfico e a caminho do inferno da irrelevância e da decadência económica, sobra aos países europeus? Talvez unidos… pondo de lado as divergências, rejeitando a divisão quando só a união pode fazer a força.

4. A Cimeira da última oportunidade?

No palácio de Meseberg, Macron e Merkel esboçaram um plano para soldar as fissuras da União Monetária e Económica: a ideia de que a convergência económica, o investimento e a estabilização macroeconómica são fundamentais para o futuro da eurozona; um orçamento para a zona euro, financiado por recursos próprios, com uma linha de crédito para um seguro comum de desemprego, paralelo (logo, limitado) ao quadro financeiro plurianual; um Fundo Monetário Europeu, como reconversão do fundo de resgate. Falta muita coisa, por exemplo um Mecanismo de Segurança de Depósitos Europeu ou a mutualização da dívida. Como disse um analista, talvez o plano seja ambicioso onde se pode permitir ser vago e modesto sempre que tem de ser concreto. Ainda assim, é um passo em frente, por isso relevante.

Na Cimeira de Bruxelas dos próximos dias 28 e 29, contudo, é a imigração o pomo de todas as discórdias, podendo levar a uma das mais graves crises de sempre da UE. A mini Cimeira extraordinária de domingo passado, que reuniu apenas 16 dos 28 países europeus, limitou-se a proclamar ideias gerais como a de que os países de entrada (dos imigrantes) não podem ser deixados sozinhos ou indefinidas como a criação de centros de triagem (no território europeu, ou até nos países de origem, proposta aliás mais antiga). Quando nos EUA, o Presidente defende a expulsão imediata dos imigrantes ilegais sem necessidade de serem presentes a um juiz, quando a Itália se recusa a receber navios com imigrantes a bordo, quando o tema da imigração se faz central e decisivo, não pode a Europa deixar de lhe dar resposta.

São os dois pontos centrais da Mãe de Todas as Cimeiras. Conseguirá ela, conseguirão os líderes europeus, ultrapassar as suas divergências e dar de novo à Europa o músculo que as circunstâncias exigem? Sejamos capazes de esperança, nem sempre as nuvens negras sobre as nossas cabeças terminam em tempestade.