A minha aldeia ardeu. Ainda que se possa concluir que nenhuma casa tenha sido consumida pelo fogo ou que, num raio de 100 ou 200 metros, o incêndio não tocou os limites da aldeia, o que é certo é que a aldeia ardeu. Arderam todas as montanhas do longo horizonte, onde agora virá a sobressair o negro das cinzas. Arderam as almas de quem ali ainda vive e resiste, tamanha era a dimensão e o descontrolo da emergência. Arderam muitas poupanças, muitas horas de trabalho e projetos de quem, contra a racionalidade económica, ainda investia na terra.

Sou natural de Tropeço, em Arouca. Ali vivi quase metade da minha vida, até à altura em que tive de sair para a faculdade. Nas proximidades da nossa casa viviam, há pouco mais de uma década, umas 50 pessoas – sendo talvez metade crianças ou jovens. Hoje, continuam por lá a viver os pais dos jovens que foram saindo. Ainda que afetivamente o queira negar, talvez não volte a viver ali por igual período. Contudo, vivendo aí os meus pais e muitas das pessoas que fizeram o meu enquadramento mental e afetivo, sinto como meu o impacto desta tragédia.

O incêndio de 2025 não é um evento isolado. É a repetição (tristemente similar) de ocorrências anteriores – em particular 2016, mas também em 2005, 2015 e 2017. O incêndio veio com a mesma direção, pelos mesmos locais, pela mesma hora (final do dia) e com o mesmo descontrolo (e ausência de meios). Este ano não vivi o incêndio no local, mas sei que, tal como em 2016, o fogo chegou aos lugares de Folgosinho, Lomba do Meio e Tropeço sem que aí existisse retaguarda significativa.

Após estes eventos resta a sensação de impotência e a ausência de respostas estruturais. A floresta, essa, continua a crescer desordenadamente, os terrenos ficarão ainda mais ao abandono, e os incentivos para uma gestão sustentável continuam a ser irreais.

Portugal é um dos países europeus mais afetados por incêndios florestais. Os grandes incêndios, sendo menos de 1% do total de ocorrências, são responsáveis por dois terços da área ardida. Os relatórios técnicos das Comissões Técnicas Independentes, pós incêndios de junho e de outubro de 2017, são contundentes: a severidade dos incêndios está diretamente relacionada com a ausência de gestão do território (com a elevada acumulação de combustível e homogeneidade da paisagem, com áreas contínuas de floresta), a fragmentação da propriedade e a falta de coordenação entre entidades. Soma-se o abandono rural, consequência da falta de economia florestal e não necessariamente decorrente dos fenómenos de despovoação.

As recomendações técnicas para reduzir o número e a severidade dos incêndios, como bem resumido aqui, passam por (i) reduzir o número de ignições de origem humana, sensibilizando e fiscalizando; (ii) criar mosaicos de gestão de combustível, com faixas de proteção e descontinuidade da vegetação; (iii) promover a gestão ativa da floresta, com incentivos económicos para os pequenos proprietários, que hoje não têm meios nem retorno para manter os seus terrenos limpos; (iv) reforçar prevenção estrutural, com acessos florestais, pontos de água estratégicos e sistemas de informação; ou (v) diversificar a paisagem, com heterogeneidade de espécies e usos do solo diferenciados.

Soma-se, como referido neste artigo de Maria Eduarda Fernandes e Paula Simões, a necessidade de ter uma abordagem multiescalar, em diferentes níveis territoriais, a integração de conhecimento científico e conhecimento/capacitação local (como os ciclos da vegetação, caminhos do fogo e práticas de gestão locais) e de políticas adaptativas, de prevenção estrutural e planeamento a longo prazo.

Para isso é necessária uma economia florestal que envolva proprietários, municípios e Estado.  Custará dinheiro, é certo. Mas não investir esse dinheiro implica gastar muito mais na gestão dos incêndios (como os 638 milhões de euros de 2024, 284 milhões em combate), acumular prejuízos na floresta (67 milhões de euros também o ano passado), bem como aceitar a perda de habitações e, pior, de vidas humanas. Somam-se as elevadas emissões de gases de efeito estufa, cerca de 10 a 20 toneladas de CO2 equivalente por hectare (o equivalente às emissões de eletricidade e aquecimento de uma casa portuguesa em 4 a 8 anos) – multiplicados, só neste incêndio de Arouca, por 5000 hectares ardidos. As emissões, a seu tempo, resultam mais impactos ambientais, sociais e económicos. Assim, uma solução sustentável e duradoura terá necessariamente de ter investimento e de dinamizar a economia da floresta.

Se nada se fizer, e dado que o risco de um grande evento diminui nos próximos 3 ou 4 anos, teremos uma repetição cíclica dos incêndios nas mesmas áreas, como agora acontece em Arouca. Do ponto de vista da floresta, após um incêndio, toda a vegetação cresce em simultâneo, o que, trazendo homogeneidade do combustível, aumenta o risco de voltar a arder. Do ponto de vista dos (pequenos) proprietários, quando se perde o investimento, perde-se também a vontade de investir. No final resta a proliferação de espécies invasoras, como as acácias, que potenciam ainda mais o risco. Com tudo isto, como alerta Carlos Nolasco, há um risco de banalização da tragédia e de criar um ciclo sem fim, com incêndios, notícias, discursos políticos, promessas e, depois, indiferença e silêncio – até ao próximo verão.

Na verdade, o incêndio de 2025 em Arouca talvez fosse impossível de combater nestes dias em que deflagrou. Mas poderia ter sido combatido nestes últimos cinco ou dez anos. Com gestão florestal. Com viabilidade, sustentabilidade e memória. Temo que, sem apoios atuais ou planos futuros, se esqueçam as pessoas que estes dias viram arder uma parte de si.

A minha aldeia ardeu. Outra vez. E, nada mudando, temo que volte a arder.