Foi divulgado há pouco mais de uma semana o relatório da ENTSO-E (a associação europeia dos operadores dos sistemas de transmissão de eletricidade) sobre o apagão de 28 de abril na Península Ibérica. O relatório técnico detalhado, elaborado pela associação que reúne os operadores europeus homólogos da portuguesa REN, conclui que o evento – o maior apagão europeu em mais de 20 anos – teve origem num conjunto de oscilações locais e inter-áreas no sistema elétrico ibérico. Estas oscilações provocaram uma subida de tensão acima dos limites operacionais, a desconexão com o restante sistema europeu e levaram a perdas súbitas de geração renovável (mais de 2,5 GW em segundos) que agravaram ainda mais o fenómeno.

Gerir o sistema elétrico é como tocar um copo de cristal: é preciso manter constantemente a frequência, garantindo que o som é constante e que possa estar afinado com outros copos (sistemas elétricos vizinhos e interligados). Se existe um desvio na frequência, o copo deixa de vibrar corretamente deixando de tocar ou partindo-se. Nesses momentos de desvio (por oscilações que provocaram uma subida da tensão), a ligação entre copos é cortada propositadamente, para evitar que o erro se propague ou que vários copos entrem em ressonância (no sentido de amplificação de oscilações naturais mal amortecidas) e se partam.  No evento de abril, essa falha elétrica em cascata atingiu Portugal e Espanha e foi possível de evitar no restante sistema europeu.

E o que precisa o sistema elétrico para evitar estas oscilações? Insistindo na metáfora: precisa que a mão que toca o copo mantenha a velocidade. Isso é assegurado com inércia (uma espécie de mão firme que resiste a mudanças bruscas da velocidade de rotação), regulação de tensão (em que a mão, sendo menos firme, consegue responder muito rapidamente a qualquer desvio observado) ou controlo dinâmico (em que cada mão consegue atuar rapidamente para corrigir desvios ou isolar falhas, em caso de divergência). Tudo isto é o necessário para manter o som do copo de cristal constante. Foi por aqui que o sistema falhou em abril passado (baixa inércia, limitações de observação da rede e insuficiência de mecanismos de controlo dinâmico). Mas é também por aqui que o caminho deve ser feito, aprendendo com a vulnerabilidade e mantendo o caminho da maior penetração renovável – indispensável a uma maior independência energética e veículo de desenvolvimento económico.

O estudo conclui que é necessário garantir uma maior resiliência do sistema elétrico – na aceção original e física da palavra: a propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação. Entre as medidas necessárias a um sistema crescentemente renovável – uma meia causa do apagão – estão melhorias na regulação de tensão, coordenação entre intervenientes (produtores centralizados/ distribuídos e redes, em AC ou DC), aumento da capacidade de resposta dos sistemas de defesa e integração de tecnologias como armazenamento, controlo avançado de inversores e gestão preditiva.

É certo que tudo isto implica um custo grande para o sistema, em tecnologia ou infraestrutura, para reforço da malha de transporte, modernização de proteções, aumento da capacidade de reação dos operadores e remuneração adequada dos serviços de estabilidade e reserva. É certo que terá um custo que precisa ser incorporado, de forma justa, no valor da produção que não assegura robustez ao sistema. E é certo, como indicava João Galamba por estes dias, que um sistema interligado como o ibérico precisa garantir requisitos técnicos e incentivos de sistema iguais ou pelo menos compatíveis.

Assim, com uma elevada penetração de renováveis intermitentes, não podemos continuar a avaliar e comparar tecnologias de produção apenas pelo seu LCOE (o custo médio de produção de uma unidade de energia ao longo da vida útil, considerando custos e receitas). Este indicador não traduz o custo, real, de manter um sistema elétrico robusto ou mesmo outros custos avaliados numa perspetiva holística (como custos de redes, segurança de abastecimento ou custos ambientais – algo bem explorado neste artigo).

Contudo, tenho a certeza que nada fazer tem custos ainda mais elevados, seja por prolongar a histórica dependência e importação energética do país, por manter soluções ambientalmente menos favoráveis ou por comprometer a competitividade do país, negando uma oportunidade de desenvolvimento e afirmação. O Governo reconhece-o no seu programa (Eixo Prioritário VIII), indicando a competitividade e fiabilidade do sistema elétrico como “forma de sustentar a atração e instalação de novos investimentos empresariais”.

Ou seja, a transformação do sistema elétrico traz um custo que precisa ser tomado em consideração. Precisamos perceber as limitações e desafios tecnológicos na hora de definir incentivos ou mecanismos de remuneração. Precisamos conceber estratégias e opções (tecnologicamente agnósticas) que reflitam os ganhos e impactos sobre o sistema elétrico e, simultaneamente, sobre outros eixos sociais (como a criação de emprego), a salvaguarda ambiental, a resiliência hídrica ou outras externalidades positivas e negativas. E precisamos de saber que esta competitividade nos traz autonomia e capacidade para atrair investimentos em áreas chave como os centros de dados ou indústrias eletrointensivas (como as indústrias de defesa, aeronáutica, automóvel, combustíveis sintéticos ou aço verde).

Não podemos ficar agarrados a argumentos detratores da transição energética pois não transformar o setor terá custo bem maior. Uma recente afirmação de um partner da McKinsey constata que Portugal pode, à boleia da transição energética, ambicionar a duplicar o PIB em 15 anos – o que corresponde a um crescimento médio, em série, de 4,75%/ano (que contrasta com a taxa de aproximadamente 1% dos últimos 25 anos).

Queremos mesmo desperdiçar esta oportunidade?