1 Comecei a reflectir sobre a transitoriedade em 2010. Embora tenha focado a minha investigação nos efeitos e consequências do desenvolvimento tecnológico, não deixei de considerar como altamente provável um período de desorientação política e de mutação ideológica capaz de provocar reorientação de valores e princípios. E também receei o aumento dos extremos e a consequente polarização e intransigência entre partidos, pois já na altura começava a ser perceptível uma resistência ao pensamento e decisão de acordo com a consciência individual. Começava a não ser possível dizer o que pensávamos. Tínhamos de dizer o que os outros queriam ouvir. Hoje, como já várias vezes afirmei, vivemos nesse quotidiano. Hoje, verifica-se um permanente julgamento de intenções, onde o interlocutor com quem falamos assume que quem que não partilha das suas posições, seja de esquerda ou de direita, tem intuitos moralmente perversos e inaceitáveis para o país. Hoje, vivemos na democracia das claques, na vigência da hipocrisia e da relativização da verdade.

A esquerda foi a primeira a experimentar a inadaptação. A queda do marxismo-leninismo resultou da incapacidade de aplicação prática do seu modelo económico e político. Incapaz de reconhecer e de aprender com os erros, a esquerda passou a privilegiar a cultura como vertente de doutrinação oficial, recuperando Gramsci, Horkheimer, Marcuse, Foucault, entre outros – Raymond Aron, no ópio dos Intelectuais, desmontou magistralmente os equívocos da filosofia e da sociologia de Marx, assim como a dificuldade em compreender que os intelectuais [da esquerda] tenham aceitado com tanta facilidade todas as restrições que o comunismo representava, abandonando levianamente a crítica e o pensamento crítico em favor da divulgação doutrinária. Mas assim aconteceu, tendo o apregoar da superioridade moral proletária permanecido incólume e adquirido uma nova pujança: o wokismo e as políticas identitárias e de género passaram a ser o novo credo comunista. Ironicamente!

Há uma diferença substancial entre uma opção individual e a sua prática dentro dos limites da liberdade individual – que deve ser integralmente respeitada por todos – e querer impor (ou promover) essa opção aos outros como norma, diminuindo direitos e a liberdade. A opção de como vivo a minha realidade merece o mesmo respeito que é dado a qualquer outra. O mesmo é válido para a opções das outras pessoas, independentemente de serem, ou não, idênticas às minhas. Mas a esquerda nunca quis defender os direitos, muito menos os individuais. O que sempre fez foi impor regras, comportamentos e agendas políticas, colectivistas e posteriormente identitárias, contrárias à liberdade individual.

2 Depois de anos de complacência silenciosa, depois de anos sem perceber que a democracia também se faz na rua, só depois dos abusos legislativos da esquerda terem ultrapassado os limites do razoável é que a direita começou a reagir. Infelizmente, a reacção da direita foi a introdução do seu próprio populismo e superioridade moral, essencialmente religiosa. Não considero ser possível dizer que a superioridade da moral da direita é cristã. Não há fundamento para tal nas palavras de Cristo: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” – Mateus, 22:21. A leitura que faço desta passagem do Evangelho é que podemos cumprir com as nossas responsabilidades tanto na esfera civil quanto na religiosa, mas sem as misturar. Jesus Cristo foi lapidar na separação entre o Estado e a Religião.

3 Edmund Burke tinha razão. Governar, legislar [e aplicar a justiça] “são questões de razão e de julgamento e não de inclinação”. Como tal, não devem depender da vontade popular, nem da influência religiosa.

Num momento da história caracterizado pelo desassossego popular e fervor revolucionário, Burke foi uma voz firme no meio dos clamores por mudanças radicais. Estas palavras, proferidas aos eleitores de Bristol em 1774, demonstram uma crença inabalável na governação não como um mero reflexo da vontade [ou, acrescento, de favorecimento] popular, mas como um dever solene alicerçado no julgamento e deliberação fundamentados.

Vivia-se uma época de inquietude e excitação. As colónias americanas oscilavam entre a rebelião e a liberdade, e as ideias que desencadeariam a Revolução Francesa já fervilhavam. As reivindicações de liberdade e de autogoverno ribombavam nas praças públicas, nos panfletos e nos debates parlamentares. A questão da governação já não era académica – era urgente, controversa e até visceral. E muitas eram as vozes que procuravam substituir as estruturas sociais com declarações, inflamadas, de novas liberdades, frequentemente alimentadas pela paixão em vez da prudência.

Porém, Burke, permaneceu firme na sua convicção de que a liderança não se resumia ao canalizar dos desejos flutuantes das massas. Para ele, um Estadista não era um mero delegado enviado para fazer eco do sentimento público, mas antes um depositário de princípios superiores à gratificação imediata. E também pensava que a democracia devia ser temperada pela sabedoria, orientada pela experiência daqueles a quem era confiada a sua preservação – em vez de submissa e de ditada pelos impulsos populares e religiosos, ou por quem destes se aproveitava.

Os Pais Fundadores dos EUA também aprenderam com Burke. O consagrar da Separação entre o Estado e a Religião e do Estado de Direito na Constituição comprovam-no. Todavia, actualmente, o Supremo Tribunal dos EUA já não defende a separação entre Estado e Religião. As suas decisões priorizam a crença e a fé em detrimento da lei e dos princípios legais. Tenho saudades de Antonin Scalia, por quem ainda tenho uma enorme admiração. Conservador e católico devoto não deixou que as suas convicções religiosas diluíssem essa separação, nem que afectassem o Estado de Direito. É desanimador ver o legado dos Pais Fundadores desaparecer. Os EUA já não podem ser vistos como uma democracia plena.

4 Tivemos 80 anos de paz devido a governos moderados que foram capazes de criar e de estabelecer pontes de diálogo onde as diferenças de pensamento eram respeitadas. Este período pode ser caracterizado pelo respeito pela diversidade e pluralidade, base que serviu para o construir de consensos e de compromissos que permitiram o desenvolvimento global, apesar dos blocos de influência mundial e de outras circunstâncias. Este foi igualmente o tempo da democracia liberal, sustentada numa simples ideia: Liberdade é responsabilidade.

Apesar das suas particularidades e dos seus posicionamentos ideológicos, os líderes dos governos moderados eram pessoas de personalidade forte, de carácter e de honra. Tais características nunca os impediram de reconhecer as suas falhas, os seus erros e, sobretudo, os méritos das ideias e/ou projectos dos seus adversários. A Europa, por exemplo, foi construída por homens como, entre outros, François Mitterrand e Helmut Kohl. Se um compromisso era necessário, era exigido que fosse alcançado no respeito pelas posições distintas.

É provável que o facto de terem vivenciado os horrores dos conflitos mundiais os tenha ajudado a compreender tanto os perigos das posições intransigentes como as benesses do diálogo. Ora, a geração de políticos que os sucedeu não experimentou a guerra. A grande maioria dos políticos já nasceu sob a protecção do manto da paz que lhes foi deixada (não uso aqui o termo legado propositadamente). Como tudo era mais fácil, mais fácil foi prescindir, gradualmente, dos princípios em favor do politicamente correcto, procurando agradar a gregos e a troianos. Quando alguém lhes perguntava pelos persas, mais cedências avulsas foram feitas. Foi aqui que a democracia liberal começou a erodir e que o populismo ressurgiu.

5 Infelizmente, em vez de se olhar para o futuro, regressar ao passado tem sido a resposta para crise existencial e ideológica em que a sociedade ocidental contemporânea vive.

Sabemos que ninguém pode beneficiar de liberdade ilimitada. Contudo, quer a extrema-esquerda, quer a extrema-direita, promovem a diminuição dos direitos, das liberdades e das opções individuais através da imposição de comportamentos. E fazem-no através da defesa da superioridade moral.

Como o passado demonstra, sejam de esquerda ou de direita, os intolerantes, os fanáticos, os extremistas, os autocratas e os ditadores, jamais permitirão, nem respeitarão, a liberdade expressão e o pluralismo. E serão impiedosos com quem pensar de maneira diferente deles.

O tempo é de afirmação da superioridade moral! Da esquerda e da direita. Por outras palavras: polarização, extremar e confronto de posições. Quando os populismos (re)emergem deixa de haver espaço para o diálogo e os moderados são silenciados pelos ódios que se gladiam.

Que acontece quando as superioridades morais procuram prevalência e domínio?