Gostaria de fazer um ponto prévio: não se deve olhar para a viagem do presidente norte-americano como visitas-cimeiras distintas umas das outras, mas um todo indivisível. O mais importante não foi o que se disse nas conferências de imprensa. Foi a forma como a NATO e a Grã-Bretanha foram tratadas, como estados dependentes e pouco importantes para os Estados Unidos, enquanto a a Rússia foi alvo de todas as deferências.

A Cimeira de Bruxelas veio mostrar aquilo que já se suspeitava: acabou-se a aliança entre democracias, e deu-se início a uma nova organização que de semelhante com à anterior pouco mais tem o nome. Não houve propriamente nada de novo: os países reiteraram as suas promessas (feitas a Barack Obama na Cimeira de Gales de 2014) de aumentar paulatinamente a percentagem do seu PIB em gastos de defesa até 2024. Mas instalou-se uma espécie de drama diplomático em vários atos, com Tump a engasgar Merkel ao pequeno-almoço ao apontar a dependência energética alemã da Rússia, e a interromper as reuniões agendadas para voltar a falar do contributo dos aliados europeus.

Disse-se, inclusive, que o presidente americano terá ameaçado deixar a instituição. Mesmo que não tenham sido estas as palavras de Trump, o certo que houve “reunião de emergência”. Mas muito mais importante: não terá havido grandes debates sobre os temas regionais de segurança que estariam na agenda. E esta omissão acaba por ser a mais forte expressão de forma diminuída como os Estados Unidos da America vêm a Europa. Como um “foe” (prefiro a expressão em inglês, porque a tradução é dúbia, correspondendo mais ou menos a um entidade com a qual se está em competição) no qual não reconhece importância suficiente para discutir assuntos de defesa comum.

Esse papel coube à Rússia. Na primeira cimeira bilateral entre os dois países, Donald Trump e Vladimir Putin sentaram-se a debater todos os assuntos de segurança e economia que afetam a região. Do DAESH e da Síria à proliferação nuclear e à cooperação comercial. Ter-se-á até debatido a situação na Ucrânia. Ao contrário do que fez com os parceiros de sempre, o presidente americano tratou Putin como líder de uma grande potência com deveres e responsabilidades. Como parte da solução e não parte do problema. Mais significativo ainda, foram duas declarações que elucidam para onde querem que caminhe a relação bilateral: falaram de Xi Jinping e declaram estar no caminho da cooperação. E Trump ainda enalteceu a sua própria ousadia política em romper com a longa inimizade entre Washington e Moscovo.

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