A saída anunciada de Mariana Mortágua é apenas mais um momento na súbita descida ao esvaziamento do Bloco de Esquerda. De partido que condicionou uma grande parte do debate à esquerda – e, na cultura política e mediática em que vivemos nas últimas três décadas, isso significava o condicionamento de todo o espectro político – a partido insignificante, esta foi a viagem surpreendente de quem julgava ter o mundo na mão.
Convém dizer que não é Mortágua quem surpreende nesta história. Entrava pelos olhos adentro de quem os quisesse manter abertos que ela era destituída das mais vagas qualidades de liderança. Quando substituiu Catarina Martins, fora do partido, entre os bajuladores involuntários e os menos dotados em ver o que está à frente do nariz, muitos foram quem visse em Mariana Mortágua a consumação brilhante da missão política do Bloco de Esquerda.
Essa ilusão não vinha do nada. Durante anos a fio, os meios do costume saturaram o País com uma propaganda de adulação apresentando-a ao povo esperançoso uma heroína da classe trabalhadora oscilando entre a “intelectual” de excepção e a “activista” intrépida. Não era nem uma coisa, nem outra, mas isso não impediu as primeiras páginas encomendadas, os “perfis” jornalísticos em série que faziam as hagiografias medievais parecer registos de cepticismo e as reportagens televisivas que invariavelmente reproduziam os seus momentos de glória, sucederem-se sem fim.
Na realidade, os ditos momentos apoteóticos não eram muitos, e, quando era preciso puxar pelo propagandista de turno, lá vinha a recorrente invocação do desempenho na Comissão Parlamentar de Inquérito do BES em 2014. Não custaria muito verificar que, nas participações em comissões de inquérito, praticamente todos os partidos tinham deputados com desempenhos equivalentes na telegenia e no alcance político ao que coroou com louros mediáticos Mortágua. Mas isso agora parece ter sido noutra era e noutro País.
Com efeito, o problema do Bloco de Esquerda é mais profundo e porventura não tem solução. Como as eleições legislativas de 2025 mostraram, a renovação a que Mortágua se refere na mensagem de despedida publicada ontem não passou de uma ficção. Tiveram de ir buscar Louçã, Rosas e Luís Fazenda ao conforto das suas reformas para figurar como cabeças de lista em disputas eleitorais que perderam humilhantemente. Todos os partidos enfrentam dificuldades de recrutamento, mas no caso do Bloco esse fracasso é clamoroso.
Nos anos de ascensão, a corrida pela primazia na extrema-esquerda parecia mais do que ganha ao PCP. Chegados a 2025, porém, é certo que temos um PCP de morte anunciada, mas bem mais distante do que a do BE. Ao que parece, nada substitui uma base autárquica, coisa que o BE nunca conseguiu obter, para conservar força política por módica que seja. E na diferenciação “pós-moderna” nas franjas radicais da esquerda, o Livre liderado hoje por um antigo compagnon de route parece, senão mais fresco, pelo menos mais sintonizado com as posições de uma esquerda disponível para casar com a política da moderação em matrimónio que lhe dê alguma vantagem.
O Bloco também ansiou pela chegada ao poder em aliança com o PS, depois de anos a devorar os socialistas no plano ideológico e cultural. E acabou por consegui-lo com o arranjo da Geringonça, ainda que fosse um arranjo limitado que fez crescer a sede sem matá-la. O PCP não autorizou que se fosse mais longe.
Talvez, nunca o saberemos, tivesse havido uma escalada maior do BE se o PS tivesse, como na Grécia, ficado a executar o programa de austeridade que ele próprio preparou. Talvez o BE, nessas circunstâncias, tivesse sido o que o Syriza foi durante uns anos, substituindo o PASOK, chegando ao governo, sem que, no entanto, a mudança se tenha tornado duradoura. Nunca o saberemos, de facto. Mas esses foram os anos em que o BE, atrás da sua camuflagem não particularmente espessa, ainda suspirava pela revolução do futuro. Agora, intelectualmente falidos, com uma organização decrépita e deserta de gente com capacidades de liderança, o BE aproxima-se do fim que vaticinou aos comunistas. Desta vez, não houve encenações que salvassem os bloquistas da sua indisfarçável penúria.