Crónica

A visita ao bispo e outras histórias /premium

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Duas Europas que se olham com azeda desconfiança cada uma combatendo com as suas iradas tropas, em surdina ou com estrondo, o antagónico universo da outra. Um combate entre dois desastres.

1. Uma casa branca, no alto da paisagem, corredores, portas, silêncio. Esperamos.

“D. António costuma descansar um pouco após o almoço” mas logo o Bispo aparece na pequena sala de espera, imediatamente sorridente, coloquial, acolhedor. Alegre, diria eu. Quase iludindo o extenuante alarido que sobre ele se abateu – correio, computador e telefone a explodirem de felicitações — mal se conheceu a notícia: António Marto, Bispo de Leiria – Fátima era um dos 14 Cardeais nomeados este ano pelo Papa Francisco, uma escolha que será oficializada no final deste mês em Roma.

“Estava a paramentar-me para a cerimónia do Crisma, aqui na Sé de Leiria, senti o zumbido do telemóvel no bolso a anunciar nova mensagem. Tinha tempo, estava sozinho, resolvi olhar, era o Núncio Apostólico: “não sei sabe que o Papa hoje…”

O Bispo não sabia, ficou “aparvalhado”. Ocorreu-lhe a “emoção da surpresa” do mesmo modo que o “serviço”: em partes iguais. Guardou para si a notícia (“mas de vez em quando, na celebração, não podia deixar de me lembrar…”)

Nos dias seguintes agradeceu mil mensagens, escreveu outras e agora, aguarda. Servindo e oficiando como até aqui na sua diocese onde gostaria de poder permanecer mas o destino já não lhe pertence: após esta extraordinária prova de confiança pessoal e religiosa, o Papa Francisco dirá se o quer ou não perto de si no Vaticano, e ele, com a disponibilidade pronta que sempre lhe foi caminho, cumprirá. Amanhã vai a Roma “para provar as vestes de Cardeal” (suspiro resignado) enquanto no coração acalenta a vontade de meter na cabeça do Papa (a expressão é minha, como é óbvio) a “desnecessidade” de tais vestes e ornamentos. A seu tempo, bem entendido.

2. António Marto não pode – adivinhação também minha – ter deixado de voltar a impressionar (muito e bem) o Sumo Pontífice quando ele por cá passou no centenário de Fátima: o bispo de quem um distraído dirá muito superficialmente que é um “simplório”, tem o condão de tocar as pessoas com a fé do pastor, a fecunda sabedoria do teólogo (foi aluno de Bento XVI na Alemanha) e a jovial simplicidade do ser humano, transmitindo incansavelmente uma e outras com um agudo dom de comunicação. Tratando-se dele há ainda que evocar um singularíssimo sentido de humor carregado de poder de observação: nada parece escapar ao seu olhar cruzado de sagacidade. Homem de Deus operando no mundo, seguiu a questão da eutanásia espantado com a flagrante falta de “preparação” em tão delicado processo (“decisões apressadas sem ponderação do seu impacto e efeitos”; “equívoco de conceitos” como entre morte assistida e eutanásia; discussão que “não chegou ao país nem envolveu a sociedade”) como acompanha tudo o resto: com atenção e opinião. Falamos de Marcelo, ele estima Marcelo.

Uma grande história de vida a deste grande homem da Igreja (não sei se Deus já lhe agradeceu) que reencontrei há dias nesse preciso e talvez indefinível intervalo que separa a certeza do cardinalício, da expectativa “reformadora” com que ele pretende ocupá-lo.

3. Por vezes apetece demitir a “Europa”. Quantos mais sinais de borrasca se terão de acender no seu céu para além dos já acesos para estancar o curso dos erros e desdobrar o novelo da indecisão? Vista da janela do hoje parece quase impossível e certamente inverosímil que tudo tenha começado por ser uma história sedutora (ou assim me pareceu quando aqueles seis homens se sentaram a uma mesa e pensaram em nós, europeus, de outra maneira.)

Não podemos demiti-la porque as leis nos proíbem tal eventualidade mas por ser impossível exonerá-la – ou sequer reformá-la – por não haver gente para isso, nem capaz disso. E assim vamos ficando com duas Europas que se entreolham com azeda desconfiança, cada uma combatendo com as suas iradas tropas, em surdina ou com estrondo, o antagónico universo da outra. Duas Europas paralelas como aqueles caminhos que nunca se cruzam nem se entendem ou… o combate entre dois desastres.

4. Sporting. Uma história negra. O pior é continuar tudo igual: a degradação do espectáculo, o massacre televisivo, a falta de solução, a falta de vergonha. E vão semanas disto.

5. José Manuel de Melo tem uma história de vida que honra quem a testemunhou de mais perto ou de mais longe. Escrita com palavras quase banais mas que são afinal banalmente as essenciais: trabalho, mérito, desinstalação, energia criadora. Duvido que ele alguma vez tenha conseguido conjugar o verbo desistir e Deus sabe quanto a anti-desistência e a desinstalação podem, com algum suor á mistura, explicar quase tudo sobre a excelência.

Deu-me uma vez uma tão notável entrevista que a selecionei para surgir em livro ao lado de outras, mas sobretudo era alguém a quem sempre admirei, aprecio fazedores sobre quase todas as coisas. Era muito mais que um empresário, que um empreendedor, que um fazedor de empresas, que um “rico”: tinha centelha. E tinha visão, vontade, iniciativa, antecipava o futuro e amava Portugal. De vez em quando seduzia-se pela aventura, o que só foi bom. E o que ele fez com tudo isso, antes e depois de Abril de 74, foi servir bem o país. Por alguma razão Mário Soares, que nunca se distraía sobre coisas sérias, mal tomou posse do seu primeiro governo em Maio de 1976 convidou-o para almoçar em S. Bento com um recado muito simples: que voltasse para Portugal, fazia cá falta. E ele, veio.

Felizmente, alguém se lembrou do óbvio e o historiador Miguel Figueira de Faria concretizou o óbvio: uma biografia. Em Portugal há pouco registo e pouca vontade de o deixar. Entra-se em livrarias de outras capitais europeias e tropeça se em seis ou sete biografias de toda a gente, de secretários de estado a médias figuras da política, desporto ou show bizz. Em Portugal, não, é quase ferros mesmo para os indiscutíveis. José Manuel de Mello, que teve vida e deixou obra, tem agora biografia.

Eis a boa notícia que uma boa história reclamava.

6. Era cedo, não estava quase ninguém, sentei-me, olhei, lembrei: quanto lhe devo? Por entre o silêncio, vestindo a luz velada da imensa, perfeita geometria do Teatro Thalia, uma grande tela frente ao caixão de pinho, “é o auto-retrato dele”, sussurou alguém ao meu lado enquanto a vibração daquele jorro de cor me avivava a dúvida: terei dito a Júlio Pomar o quanto lhe agradeço?

Não terei. Nunca há pressa, não contamos com a morte, mesmo a anunciada, um dia destes havemos de conversar e de repente já não há mais “dias destes”.

E no entanto… se há alguém perante quem a minha condição tivesse sido sempre – nunca houve outra – a de um grato reconhecimento, foi Júlio Pomar. Aprendi com o sussurro inspirado com que me decifrava as suas telas e papeis, a mudez eloquente com que depois se quedava a contemplá-las, a mestria com que organizava o arrebatamento do seu próprio talento, a versatilidade vertiginosa que era capaz de projectar sobre o seu ofício, incessantemente aberto á experimentação. Tanta coisa e ainda essa a fulgurante intuição com que captava a natureza humana, a generosidade que praticava como um mandamento, o riso e o sorriso.

Disse-me “venha” de cada vez que lhe batia a porta para entrevistas, encontros, diálogos e eram momentos dulcíssimos; perdeu tempo comigo, jornalista ignorante sobre o pintar, nunca regateando detalhes e histórias e fazia tudo isto com o mesmo percutante brilhozinho de malícias e finas ironias no olhar sempre aceso.

Nunca consegui apurar o que me mais me ia interpelando neste Amigo-Pintor, se o sopro do génio com que foi abençoado pelas fadas do seu berço, se a sua cultíssima inteligência tingida por uma ironia quase torrencial, se afinal essa doçura silenciosa, porventura o seu mais tocante ex-libris.

Tinha que lhe dizer tudo isto, tinha que lhe dizer na solidão parada deste silêncio, antes que parta de vez, antes da despedida, antes da minha, nossa, saudade.

Tinha lhe dizer baixinho o quanto lhe devo por me ter tocado assim.

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