Sem grande surpresa, à medida que as eleições se aproximam, Pedro Nuno Santos vai tornando cada vez mais evidente que é um erro de casting na liderança do PS. Apesar dos esforços da equipa de marketing da campanha socialista para uma reconversão de última hora de Pedro Nuno Santos num moderado de centro-esquerda, a verdade é que o actual líder do PS actuou (e actua) vezes demais como se fosse líder do Bloco de Esquerda. De facto, o grande – e provavelmente inultrapassável – problema do PS nestas eleições é ter um líder que, tal como Mariana Mortágua, é mais discípulo ideológico de Francisco Louçã do que de Mário Soares. E ainda por cima num momento em que a decrepitude do Bloco de Esquerda é evidente para todos (será aliás interessante verificar o resultado que o próprio Louçã conseguirá em Braga).

A notória ineptitude de Pedro Nuno Santos, juntamente com a viragem sociológica do país à direita nos últimos anos, abrem caminho à AD, não obstante a fragilização de Montenegro e sua má gestão do caso que o envolveu. Mas a provável repetição da vitória da AD, ainda que possa ser claramente preferível a um PS radicalizado à esquerda, não constituirá, por si só, factor de esperança se a receita seguida na governação for a mesma do último ano. Sendo certo que recebeu um país em mau estado em muitas áreas cruciais, não é menos verdade que a AD demonstrou neste ano de governação uma notória falta de ímpeto reformista.

No último ano, o governo AD dedicou-se essencialmente a gerir a situação e a tentar conter e contrariar o crescimento do Chega que o PSD percepciona – e bem – como a sua principal ameaça existencial. Não foi uma governação catastrófica mas foi claramente pouco e insuficiente para reverter a situação de declínio nacional. A ausência de iniciativas de reforma estrutural foi compensada pela distribuição de benefícios para grupos específicos e pela manutenção do sistema rentista montado e gerido alternadamente (e por vezes colaborativamente) por PS e PSD ao longo das últimas décadas. Um sistema caracterizado por incentivos distorcidos e por políticas públicas que esmagam a classe média e em especial o segmento etário dos entalados entre os 35 anos e o horizonte da aposentação. Resta assim a muitos que querem “subir na vida” (ou simplesmente fazer pela vidinha) colar-se à situação e colaborar no saque e colonização do aparelho de Estado e instituições adjacentes, desde as autarquias até às empresas do regime, sem esquecer, claro, as entidades reguladoras, as fundações e os media.

Um novo governo AD nos moldes do anterior – tenha ou não maioria absoluta – dificilmente se desviará deste caminho de rentismo, estagnação e situacionismo. A opção de qualquer alinhamento do PSD com o Chega parece, com as actuais lideranças e orientações dos dois partidos, completamente posta de parte. Ainda que o Chega esteja a ser uma fonte de pressão relevante em temas como imigração ou segurança, não se vislumbram possibilidades de entendimento entre Montenegro e Ventura. Adicionalmente, o Chega continua a sofrer de inconsistência programática em áreas cruciais e a evidenciar uma dramática falta de quadros (que as listas de deputados nestas eleições infelizmente não dão sinais de atenuar). Resta assim como possível parceiro e condicionador de políticas a IL, que tem feito um caminho interessante sob a liderança do pouco carismático mas consistente e credível Rui Rocha. Depois de na última convenção ter finalmente condenado de forma inequívoca o wokismo e de ter adoptado posições mais robustas em matéria de imigração e nacionalidade, o grande trunfo da IL para crescer nesta eleições é apresentar-se como o único partido que pode efectivamente condicionar a AD no sentido de promover reformas estruturais que façam avançar Portugal – se os eleitores lhe derem força suficiente para tal.

A este propósito, a participação de Óscar Afonso, Director da Faculdade de Economia do Porto, na campanha da IL foi um sinal relevante. Não só por ter sido eleito deputado pela AD nas últimas legislativas, mas principalmente por ter sido um dos autores do próprio programa económico da AD em 2024. Como explicou o próprio Óscar Afonso num artigo de opinião, uma aliança pós-eleitoral entre AD e IL poderia proporcionar o impulso reformista de que o país necessita para estimular o crescimento económico:

“Destaco, em particular, a proposta de reforma do Estado apresentada pela IL, que prevê um rácio de uma entrada por cada duas saídas de funcionários públicos (por via da aposentação, não se tratando de despedimentos). Esta medida contrasta de forma clara com o rácio de 1 proposto pela AD, que apenas assegura a estabilização do número de funcionários. A concretização desta proposta da IL exigirá melhorias significativas na gestão pública e ganhos de eficiência na despesa, como tenho defendido. Assinalo ainda a proposta de revisão dos benefícios fiscais, com a eliminação dos que se revelem injustificados e a promoção de um sistema fiscal mais transparente e atrativo, potenciando a atração de investimento e a capacidade de elevar o potencial de crescimento da economia portuguesa. Esta abordagem poderá representar um contributo relevante da IL para reforçar o programa da AD, que se afigura pouco ambicioso nesta matéria. (…) Em suma, apenas uma coligação governativa que adote uma ambição reformista mais sólida do que a atualmente prevista no programa da AD permitirá tornar realista o seu cenário de crescimento à luz das previsões internacionais do FMI no seu cenário base, bem como assegurar a necessária capacidade de adaptação a cenários alternativos, sejam eles adversos ou otimistas. A ausência de reformas mais decisivas tornaria esse objetivo inatingível, mesmo num contexto externo favorável.”

Depois de ter optado inicialmente por enfatizar a “moderação” da IL (um discurso que só serve para empurrar eleitores para o voto útil na AD) Rui Rocha parece ter corrigido o rumo. Daqui até ao final da campanha, a IL precisa de vincar diferenças face à AD, assim como a diferença que a IL poderá fazer na governação caso os eleitores lhe dêem força suficiente para condicionar a AD. Perante a pressão do voto útil, cabe à IL persuadir os eleitores com inclinações liberais de que o voto na IL é o único que contribui simultaneamente para derrotar o PS e para um governo que promova as mudanças necessárias para reformar Portugal. Para tal, importa reforçar que do resultado eleitoral dependerá a capacidade da IL para exigir e promover reformas que a AD manifestamente nunca fará sozinha e sem ser pressionada a isso.

Tudo dependerá dos resultados eleitorais e, claro, não há qualquer garantia de que uma governação AD-IL possa efectivamente trazer as reformas necessárias. Mas já sabemos que a AD sozinha muito dificilmente as promoverá.

P.S.: As inscrições para o voto antecipado em mobilidade para as legislativas decorrem até 8 de Maio (Quinta-feira). Todos os eleitores recenseados no território nacional que optem por esta possibilidade irão depositar o seu voto nas urnas a 11 de Maio (Domingo). A inscrição para o voto antecipado pode ser feita aqui.