Na semana passada, desde o trágico acidente ocorrido em Lisboa, fiz questão de seguir todas as incidências do julgamento de José Sócrates. Até então, estava a acompanhar ao longe, à espera de ver a versão condensada no documentário que a Netflix já deve ter em pré-produção. José Sócrates merece o seu lugar no panteão do true crime, ao lado de Bernie Madoff e dos irmãos Menendez.

Só que, a partir da fatídica 4ª feira, passo horas a ver a cobertura do julgamento nos canais de notícias, na esperança de assistir a este diálogo entre um jornalista e o acinte socrático:

– Eng.º Sócrates, o que tem a dizer sobre a tragédia do Elevador da Glória?
– Tragédia do elevador? A parcialidade dessa questão mostra bem ao serviço de quem o sr. jornalista está. A minha ascensão ao cume da glória pode ter sido prejudicada por este julgamento fantoche, mas em breve retomará o seu trajecto vitorioso. Vão ver!

Infelizmente, até agora não houve esta troca de impressões e tive de me contentar com outras não tão divertidas, embora igualmente grosseiras.

José Sócrates queixa-se repetidamente de ser alvo da perseguição da comunicação social. Por trás da paranóia, às vezes Sócrates tem alguma razão nas reclamações que faz. Há dias, a imprensa foi rápida a notar que Sócrates se contradissera sobre o jantar em casa de Ricardo Salgado. O ex-PM tinha dito que não tinha jantado em casa do banqueiro, mas afinal prova-se que isso aconteceu. Ora, só por ignorância e julgamento apressado é que se pode acusar Sócrates de se contradizer ao afirmar que não jantou e que jantou. Não houve contradição. Sócrates não mentiu, disse foi duas verdades. Opostas, mas ainda assim verdadeiras.

O que sucede é que, tendo jantado à mesa com o casal Salgado, Sócrates considera que apenas petiscou. Os muito ricos são frugais. Provavelmente, os Salgado serviram uma sopinha e umas tostas com queijo. Tudo bem que era um aveludado de santola, seguido de umas Lady Joseph Black Truffle & Olive Oil Crackers com um Brillat-Savarin Affiné, mas para José Sócrates foi um caldo de marisco (sem pão torrado, ainda por cima!) e bolachas com queijo de barrar.

É preciso não esquecer que Sócrates, apesar do verniz de sofisticação aplicado a trincha na Fashion Clinic pelas mãos da sua namorada semi-cosmopolita – que já fizera o movimento de escape da lezíria para a capital há mais tempo – continuava a ser um beirão rústico, para quem aquele mata-bicho nunca se poderia chamar “jantar”. Aposto que, nessa noite, quando voltou para casa Sócrates mandou o motorista passar no McDrive. Concluindo, Sócrates mentiu? Não. Disse a verdade? Calma, também não é preciso exagerar.

Por falar em pessoas detidas pela polícia à saída de um avião, na passada 2ª feira, o humorista irlandês Graham Lineham foi preso à chegada ao aeroporto de Heathrow, por ter publicado alguns tuítes considerados agressivos e ofensivos pela polícia inglesa. Graham Lineham, conhecido pelas séries Father Ted e Black Books, tem sido, nos últimos anos, um activista vigoroso contra a ideologia transgénero. Os 3 tuítes pelos quais foi interpelado são: uma fotografia aérea de uma manifestação, presumivelmente de activistas trans, com a legenda “a photo you can smell”, um tuíte com “I hate them. Misogynists and homophobes. Fuck em” e outro com “If a trans-identified male is in a female-only space, he is committing a violent, abusive act. Make a scene, call the cops and if all else fails, punch him in the balls.” Este último, por causa do conselho de dar um murro nos tomates de um homem que diz ser do outro sexo e que invade um espaço só de mulheres, foi considerado um apelo à violência.

E é aqui que pode estar a chave da defesa de Linheham. Numa interessante entrevista ao filósofo Peter Boghossian, o cientista Richard Dawkins explica como a tese dos activistas trans de que uma pessoa pode mudar de sexo é semelhante à crença dos católicos segundo a qual, na comunhão, a hóstia é, de facto, o corpo de Jesus Cristo. Segundo o dogma da Igreja, depois de consagrado, o pão ázimo mantém os “acidentes” como a aparência, textura, sabor ou cor, mas altera a sua “substância”, que passa a ser o corpo de Jesus. Dawkins diz que é a mesma fé. Ou seja, quando um homem acredita que, formulando as palavras mágicas “sou uma mulher”, altera-se a sua substância e passa a ser uma mulher. Portanto, quando Graham Lineham diz “um murro nos tomates”, aquilo a que se refere já não são “tomates”, porque, ainda que mantenha a sua aparência, textura, sabor ou cor, a sua substância se alterou e já não se trata de testículos. Agora são apenas umas pendurezas entre as pernas daquela mulher. Um homem pode sentir-se ameaçado, pois um murro nos tomates é uma agressão muito dolorosa e pode ter implicações na sua saúde e na sua masculinidade. Já se for dado a uma mulher, não é tão violento, é um mero tapa numas peles que para ali estão a abanar. Logo, não tem o mesmo grau de ameaça nem deve ser encarado como tal pela Justiça. É isto que Graham Lineham deve alegar em sua defesa, quando for presente ao juiz. De preferência, com melhores modos do que José Sócrates.