Por receio à direita e excitação à esquerda, não se falou de outra coisa nos últimos três anos. Um pouco como a criança que muda de casa pela primeira vez depois do divórcio dos pais, Portugal entusiasmou-se com a novidade da ‘geringonça’. António Costa, com a sua humildade característica, proclamou o «derrubar de um muro» – não deixando de ser irónico que o verdadeiro Muro tenha sido derrubado por óbito daqueles a quem Costa estendeu a mão. Mas não falemos de História, continuemos na situação.

A direita temia – e a desconfiança dos mercados em 2016 justificava-o – uma aliança entre o PS e os partidos populistas. A esquerda regozijava-se com a suposta «maturidade democrática» e com um alegado «fim da austeridade», sendo ambos mitos de duração já prescrita. A «maturidade democrática» acabou na infantilidade parlamentar de quem critica os Orçamentos que aprova. O «fim da austeridade» acabou com Mário Centeno a dirigir a maior carga fiscal e a maior dose de cativações do passado recente do regime. Mas não falemos de História, continuemos na situação.

Por mais simbólica que a criação da ‘geringonça’ possa ser, por mais português que seja o gosto que o eleitorado lhe tomou – porque é tão bom dizermo-nos  de  esquerda sem estarmos em bancarrota –, as suas consequências no sistema político não são tão claras quanto os holofotes que lhe apontam. O PS não deixou de defender a pertença à União Europeia, até porque preside ao Eurogrupo, ou a pertença à NATO. Não se deram nacionalizações, reversões estruturais ou renegociações de dívida. O objetivo financeiro prosseguiu um: o défice. A bandeira económica é a mesma: as exportações.

Mas não falemos de História, continuemos na situação.

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