Maioria de Esquerda

Algo tinha de mudar para tudo ficar na mesma /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho

Por mais simbólica que a criação da 'geringonça' possa ser, por mais português que seja o gosto que o eleitorado lhe tomou, as suas consequências não são tão claras quanto os holofotes que lhe apontam

Por receio à direita e excitação à esquerda, não se falou de outra coisa nos últimos três anos. Um pouco como a criança que muda de casa pela primeira vez depois do divórcio dos pais, Portugal entusiasmou-se com a novidade da ‘geringonça’. António Costa, com a sua humildade característica, proclamou o «derrubar de um muro» – não deixando de ser irónico que o verdadeiro Muro tenha sido derrubado por óbito daqueles a quem Costa estendeu a mão. Mas não falemos de História, continuemos na situação.

A direita temia – e a desconfiança dos mercados em 2016 justificava-o – uma aliança entre o PS e os partidos populistas. A esquerda regozijava-se com a suposta «maturidade democrática» e com um alegado «fim da austeridade», sendo ambos mitos de duração já prescrita. A «maturidade democrática» acabou na infantilidade parlamentar de quem critica os Orçamentos que aprova. O «fim da austeridade» acabou com Mário Centeno a dirigir a maior carga fiscal e a maior dose de cativações do passado recente do regime. Mas não falemos de História, continuemos na situação.

Por mais simbólica que a criação da ‘geringonça’ possa ser, por mais português que seja o gosto que o eleitorado lhe tomou – porque é tão bom dizermo-nos  de  esquerda sem estarmos em bancarrota –, as suas consequências no sistema político não são tão claras quanto os holofotes que lhe apontam. O PS não deixou de defender a pertença à União Europeia, até porque preside ao Eurogrupo, ou a pertença à NATO. Não se deram nacionalizações, reversões estruturais ou renegociações de dívida. O objetivo financeiro prosseguiu um: o défice. A bandeira económica é a mesma: as exportações.

Mas não falemos de História, continuemos na situação.

Nestes últimos três anos, entretivemo-nos a interpretar os significados cósmicos da solução de governo. Foi «um golpe de génio» (de um derrotado eleitoral) e «uma revolução» (de um partido não revolucionário). Eu, lamento, não alinho no fascínio. Hoje, a diferença do Partido Socialista face a 2011 não são as caras, o garrote mediático ou o projeto de poder. Não é sequer a dita ‘geringonça’. O que mudou no PS foi a sua assumpção total da responsabilidade orçamental. Foi António Costa, esta semana, não hesitar em considerar que baixar o IVA na energia «não é comportável». Foi Mário Centeno defender que é preciso «prevenir para futuro», como Passos avisou desde que saiu de São Bento. Foram os deputados do PS que não querem «repetir os erros» de 2010. [Margarida Marques, ex-secretária de Estado, 14/4/18].

Mais do que qualquer arranjinho parlamentar com gente de pouca coerência, esta consciencialização socialista para o rigor nas contas públicas – esta universalização do sonho «défice zero» – é uma mudança significativa no paradigma partidário. E as suas consequências afectam a direita de um modo mais letal do que o folclore ideológico anexo ao Bloco de Esquerda e ao PCP. Afectam a direita porque acabam com a divisão de PS e PSD entre  partido distribuidor  e partido  bom  gestor. Porque exigem à direita que seja mais do que um remendo para asneiras socialistas. E será ela capaz disso? Sem reconhecer os efeitos de um PS aparentemente responsável no sistema político, não creio.

Em 2019, como em 2015, valerá a máxima de Lampedusa: algo tem de mudar para tudo ficar na mesmaCosta, que não terá lido o livro, viu bem o filme. Mas não falemos de História. Continuemos na situação.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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