Semana após semana, vai ficando cada vez mais claro, para quem ainda tivesse quaisquer dúvidas, que o consulado de António Costa em São Bento representou uma oportunidade perdida para o país – numa fase de juros historicamente baixos, de crescimento económico na Europa e no qual a ordem mundial ainda estava, relativamente, estabilizada, mais uma vez, o Partido Socialista esteve no poder e não fez as reformas indispensáveis. Na verdade, estou a mentir. O Partido Socialista fez uma reforma. A dada altura, pressionado por lóbis económicos, que necessitam de força de trabalho em quantidade e barata, António Costa decidiu alterar o regime de entrada de estrangeiros, exigindo apenas a chamada manifestação de interesses. Naturalmente, com a economia Portuguesa a crescer, não tardou até que houvesse um enorme crescimento no número de imigrantes.
Até aqui o problema não seria de maior, se o Estado Português tivesse as estruturas institucionais para lidar com a molde de gente que acudiu ao país e, num período razoável, tratar da sua situação, ora legalizando-os, ora deportando-os conforme fosse o caso. No momento em que precisava de uma agência com capacidade logística, de pessoal e com um conhecimento do terreno para lidar com este grande afluxo, o que decidiu esse génio consumado que agora pastoreia os destinos Europeus? Acabou com o SEF, naturalmente. Cumprindo um velho sonho que vem de uma certa franja socialista, já desde os tempos de Costa na Administração Interna, o SEF foi extinto quando o seu conhecimento acumulado mais era necessário. Foi então criada a AIMA, sem recursos, sem pessoas, a começar do zero, com uma pressão insuportável de centenas de milhares de imigrantes que desejam ver o seu problema resolvido, como é da mais elementar justiça. De resto, o respeito genuíno pelos imigrantes vê-se nestas decisões e não na mera retórica política ou na distribuição de cravos para sinalizar a virtude, a qual, de resto, bem sabemos que, em Portugal, é um exclusivo do lado esquerda do espectro.
Costa foi-se embora e deixou uma verdadeira bomba-relógio para ser resolvida por quem lhe sucedesse. A situação é muito delicada e arrisca-se a ajudar o Chega, o partido que percebeu que a imigração é um filão político por explorar em Portugal. Na última semana, Pedro Nuno Santos tomou, provavelmente, a decisão mais inteligente e, acima de tudo, corajosa do seu mandato, ao reconhecer que a “política de imigração” de Costa tinha sido um erro. Ao mesmo tempo mostrou firmeza ao dizer o óbvio ululante: que os imigrantes necessitam de cumprir as leis da República para viverem em Portugal. Deixem-me dizer que, muito provavelmente, esta mudança de posição é meramente estratégica e nem o próprio líder do PS acredita nela. Há imensos exemplos na ciência política sobre os efeitos eleitorais das mudanças posicionais, dependendo do grau de sinceridade. Simplesmente, Pedro Nuno Santos olhou para a distribuição de preferências dos eleitores, das quais, de resto, falei aqui no meu último artigo, e percebeu que a posição do PS já não era sustentável do ponto de vista estratégico. Ao fazer esta mudança, e ao arriscar a ira da esquerda, Pedro Nuno Santos mostrou coragem.
Em primeiro lugar, para o PS esta mudança de posição é absolutamente fundamental para que as autárquicas sejam bem-sucedidas. Nos últimos meses, temos assistido a autarcas de todo o país a tomarem posições fortemente anti-imigração, incluindo vários do PS. Havia também pressões dentro do próprio PS para que o líder tomasse uma posição neste sentido, para eliminar a disjunção entre o discurso autárquico e da liderança nacional. O motivo é simples: num momento em que a saliência política da imigração é altíssima e em que o eleitor médio tem posições anti-imigração, os candidatos autárquicos do PS partiriam em desvantagem se estivessem presos ao discurso da liderança nacional. Ao dar a entrevista ao Expresso, Pedro Nuno Santos libertou os candidatos do PS para tomarem posições que mais facilmente se adaptem ao contexto onde concorrem.
Em segundo lugar, se é verdade que esta tomada de posição facilitará a vida da esmagadora maioria dos autarcas, tornará, muito possivelmente, a vida bem mais complicada a Alexandra Leitão em Lisboa. Sendo um dos concelhos do país com mais imigração, certamente que Leitão contava em utilizar o tema da imigração para puxar pela esquerda e atacar Moedas, colando-o ao Chega. Com esta tomada de posição de Pedro Nuno Santos, a margem de manobra da candidata Socialista à capital ficou muito mais estreita. Em última análise, a importância da imigração será muito menor na campanha eleitoral ou, eventualmente, abrir-se-á uma clivagem entre Chega e os restantes partidos.
Por último, deixem-me tecer um comentário mais genérico sobre a politização da imigração em Portugal. Muita gente, especialmente à esquerda, faz uma ligação entre o aparecimento do Chega e o seu sucesso eleitoral com o aumento da saliência da imigração no debate político. Ora, a relação é exactamente a inversa. Na verdade, os dados de inquéritos disponíveis mostram que a posição dos eleitores sobre imigração mantem-se razoavelmente estável ao longo dos últimos vinte anos. O sucesso do Chega deve-se a uma inteligente percepção por parte de Ventura de que havia uma falha no mercado político: havia procura por um partido com uma posição mais fortemente anti-imigrante e não havia oferta. Não foi o Chega que trouxe o tema da imigração aos eleitores, foram os eleitores que pediam, e receberam, um partido que falasse desse tema. A esquerda que está preocupada com o tema da imigração, talvez devesse começar por olhar-se ao espelho e perceber como os muitos erros cometidos a gerir esta matéria nos últimos oito anos causaram a tempestade perfeita.