Maternidade

Amamentar em público, ou os púdicos pré-renascentistas

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O que eu não vejo necessidade é de ter políticos a pronunciar-se sobre as políticas comerciais de um hotel ou sobre a forma que as mães escolhem para alimentar os seus filhos.

Estão familiarizados com a polémica da última semana no Reino Unido? Eu conto.

Uma senhora amamentava a sua filha de três meses enquanto almoçava no restaurante do hotel de luxo Claridge´s. Um empregado veio pedir-lhe para se cobrir, e à bebé, com um pano, explicando ser essa a política do hotel para a amamentação. A mãe queixou-se no twitter, as redes sociais ficaram malucas (ou mais malucas do que o costume), o líder do UKIP declarou que as mães não deviam entregar-se à ‘amamentação ostensiva’, o primeiro-ministro Cameron veio discordar (bem como a secretária de Estado com pelouro da igualdade) e lembrar que a amamentação é um processo natural e que as mulheres o devem poder fazer em público. Os teclados já produziram inúmeras notícias e colunas de opinião e no último capítulo (até agora) dezenas de mães amamentaram em frente ao Claridge´s em protesto.

Enquanto Cameron e Farage não fazem o obséquio de nos informar da idade para começar a ler os livros do Harry Potter (comprei a Pedra Filosofal para dar no Natal à criança mais velha e agradecia reforço governamental para esta decisão) ou se aprovam a segmentação de brinquedos entre rapaz e rapariga, teçamos algumas considerações sobre este caso.

É certo que a amamentação nos últimos anos é assunto que eclipsa o bom senso. Há as ‘nazis da amamentação’, que importunam uma mulher que em público dê um biberão com leite artificial ao seu bebé ou que no supermercado compre uma lata de leite. Há as feministas que vêem na amamentação mais uma grilheta a impedir a libertação feminina do jugo da maternidade. Há os homens que querem por as mulheres no lugar (i.e., dentro de casa) e rasgam as vestes com esta mania da amamentação pública. Há os que vislumbram uma intolerável campanha para os emascular em qualquer reivindicação da presença feminina no espaço público. Há birras para todos os gostos.

Para mim é óbvio. Trata-se acima de tudo de alimentar um bebé. Há uma extensa informação sobre os benefícios da amamentação. E tendo em conta que estamos no Ocidente supostamente livre e igualitário – o que dá às doidivanas das mães a ilusão de que podem ir, acompanhadas dos seus bebés, às compras, passear, almoçar com amigos e outras atividades subversivas semelhantes – é uma inevitabilidade vermos uma mãe a amamentar um filho longe do recato da sua casa. Há quem escolha ofender-se com isso? Temos pena.

(Não que a visibilidade da amamentação seja novidade. Se viajarmos até uma galeria renascentista, encontraremos quadros com a Madonna a amamentar.)

Confesso: sou parcial com a amamentação. Amamentei imenso tempo e adorei amamentar. Vem, reconheça-se, com uma das maiores mentiras que se conta às mães: que ajuda a perder os quilos da gravidez. (Desenganem-se: temos fome e só emagrecemos no fim.) Mas não se diz – e é grave a omissão, porque se trata de informação essencial – que um período de amamentação prolongado, com um desmame suave ao longo de meses, é o garante de acabar com o peito igual ao de antes da gravidez.

Percebo o argumento de que a amamentação é um ato íntimo. Nunca amamentei num restaurante ou outro local tão exposto e, de facto, preferia fazê-lo sem gente a interromper aqueles momentos que eram meus e dos meus filhos. Mas as minhas preferências são minhas e, evidentemente, se tivesse necessitado de alimentar um dos meus filhos em público, as necessidades de alimentação do meu bebé obliterariam os escândalos dos sempre propensos a escandalizar-se.

Aqui chegados, há que declarar: o Claridge´s é um local privado e deve poder escolher se permite amamentação em público ou não. Tal como deve poder escolher se aceita crianças ou se exige dress code para os seus hóspedes. E, claro, aceitar as avaliações dos consumidores sobre as suas políticas e resignar-se aos protestos que estas provoquem.

O que eu não vejo necessidade é de ter políticos a pronunciar-se sobre as políticas comerciais de um hotel ou sobre a forma que as mães escolhem para alimentar os seus filhos. Limitem-se a garantir que nos locais públicos as mulheres podem amamentar e que a informação sobre os benefícios da amamentação está acessível a todas, bem como das técnicas e dos truques para solucionar problemas que vão certamente surgir. (Da minha experiência portuguesa, salvou-me a internet, porque ninguém parecia preparado para dizer mais do que meia dúzia de banalidades que nada ajudam.) Afinal as doenças que se evitam com a amamentação poupam muito aos orçamentos dos sistemas de saúde (que é o que os preocupa, se forem como o estimado secretário de estado da Saúde nacional).

Depois disso, ocupem-se se faz favor do crescimento anémico, do desemprego e da pobreza, das ameaças jihadistas, das finanças públicas e por aí adiante. E deixem mães e bebés sossegados.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

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