No final do ano de 2018, Melonee Wise identificou aquelas que seriam as cinco etapas para a aceitação por parte dos trabalhadores da introdução dos robots no seu local de trabalho. Esta abordagem não deixa de ser oportuna, uma vez que durante anos o tema foi completamente ignorado e tratado como ficção científica ou, simplesmente, algo que apenas aconteceria em destinos longínquos como no Japão ou Singapura. Após vários anos de alguma displicência, a nossa sociedade constatou, de forma repentina, que os robots já cá estão e que vieram para ficar no nosso mercado de trabalho.

Como não sou necessariamente um aficionado que acompanha religiosamente todas as novas tecnologias, confesso que também fui vítima do meu preconceito relativamente à temática da robótica. Assumi, portanto, que os seus impactos apenas teriam efetivamente relevância nas gerações dos meus filhos e não nos tempos atuais. Deste modo, ao ler este artigo de Melonee Wise, não pude deixar de ficar curioso para identificar em que etapa poderia encontrar-me na presente data.

Ora, de acordo com esta autora, a primeira etapa consiste no (i) medo. Esta reação de receio quanto à perda do emprego é perfeitamente aceitável quando uma equipa de trabalho é confrontada com a introdução da robótica. Todavia, se tivermos em conta que a Coreia do Sul, Singapura, Alemanha, Japão e Dinamarca são os países com a maior densidade de robots “trabalhadores”, o medo pode claramente não ser justificável.

Depois, temos a etapa da (ii) apreensão. Mantendo-se o posto de trabalho apesar da introdução de robots, é natural que subsista a ideia que o homem não tem capacidade para trabalhar com a máquina ou que, pelo menos, a interação é apenas temporária e uma antecâmara do despedimento. Todavia, o tempo tem demonstrado que existe cooperação por parte dos robots para trabalhar em conjunto com o ser humano.

A terceira etapa é composta pela (iii) curiosidade. Com a perceção de que os robots têm autonomia, apesar de serem devidamente controlados, é natural que os trabalhadores comecem a fazer experiências para testarem as suas reações ou limites.

Como quarta etapa temos a (iv) tolerância. Com efeito, após ter sido ultrapassada a fase de novidade, é natural que a equipa de trabalho assuma uma posição de tolerância, com o inerente crescimento operacional e de produtividade.

Por último, temos a etapa da (v) satisfação. Melonee Wise identifica esta fase como o momento em que os robots deixam de ser instrumentos de trabalho, para passarem a assumir-se como “colegas de trabalho”, que melhoram a experiência laboral dos seus colegas humanos.

Esta visão otimista contrasta bastante com o pessimismo generalizado existente na nossa sociedade quanto à introdução de robots no local de trabalho. Atualmente conseguimos identificar de forma empírica uma perceção global de que estamos inseridos entre a etapa do medo e da apreensão, mesmo que ainda não tenhamos tido qualquer contacto visível com a robótica em contexto laboral. Assim, seria fundamental percebermos em que medida os robots vão poder melhorar a qualidade das condições de trabalho futuras para podermos evoluir para a etapa da curiosidade. Apenas a partir desta fase podemos contribuir para a sua integração nos nossos locais de trabalho.

Nesta medida, vem em boa altura o debate sobre a robótica em contexto laboral que se pretende promover em breve no congresso Labour 2030, no Porto. Estamos numa etapa em que devemos começar a aproveitar as vantagens que os robots nos podem trazer para a nossa atividade profissional e não resistir através do medo e apreensão. Esta deve ser, sem dúvida, a nossa missão para os próximos anos.

Advogado e investigador do CIJE (FDUP)