Num dos seus interessantes ensaios, Jon Elster define as expectativas como “uma crença irracional na omnipotência da razão.” Tendo em conta o recentemente anunciado pacote financeiro da UE, a crença de que o futuro será melhor do que o presente é perfeitamente racional. A realidade, todavia, não raramente falsifica até as mais racionais expectativas.

A ajuda financeira da UE traduzir-se-á rapidamente em crescimento económico e na diminuição do desemprego? É provável que não, mesmo que a alocação e execução das verbas destinadas a Portugal seja criteriosa e frutífera. Naturalmente, o Governo socialista, ciente da discrepância temporal entre os efeitos salutares do investimento público e a mitigação real da crise que se faz sentir, tudo fará para encurtar a duração desta transição problemática da expectativa para a experiência concreta. A história política ensina-nos, que é, precisamente, em períodos de expectativas grandiosas e de realidades recalcitrantes, que as crises de legitimidade sistémica surgem com mais frequência.

O actual Governo poderá, como já fez no passado (o tema da “confiança”), optar por insistir numa mensagem política que maximize continuamente as expectativas. Seria um erro colossal, por várias razões. As expectativas políticas, sobretudo as que são formadas em tempos de crise profunda, podem ser comparadas a um boomerang. Têm o bizarro hábito de regressar sempre à terra, ou seja, à realidade que as consubstancia ou desmente. Um outro problema, igualmente delicado, da tarefa absurdamente megalómana de “gerir expectativas” é a de que induz governos incautos a imporem a si próprios, perante o olhar atento da nação, critérios de performance governativa que muito dificilmente são atingíveis, mas que raramente são esquecidos pelos cidadãos, que continuam a sofrer na pele as agruras de uma recessão económica.

E, para finalizar, nunca devemos subestimar o impacto nefasto que a necessidade imperativa de ganhar eleições pode ter no planeamento estratégico. É possível que os investimentos que geram mais efeitos sociais positivos a curto prazo não sejam os investimentos mais benéficos a longo prazo.

Suspeito que o Governo socialista confrontar-se-á a breve trecho com expectativas deveras austeras. Porquê? Porque os Portugueses sabem que o Governo terá ao seu dispor um fundo colossal para financiar investimentos públicos. As expectativas que são sustentadas por factos inquestionáveis são ainda mais difíceis de “gerir” do que as expectativas que são engendradas pelas utopias políticas. Os que não transformam a utopia em realidade são acusados de serem sonhadores. Os que não transformam o que é tido como possível em factos concretos, tendem a ser severamente punidos. O tempo dirá.