Enquanto passava os olhos pelas notícias acerca de Joe Berardo nos jornais online, deparei-me com áreas de comentários ricas em raiva, alguma dessa raiva dirigida a fundações (outra a coisa nenhuma): ‘As fundações são parasitas de dinheiros públicos; ‘Ainda ficaram muitas por fechar na altura da Troika’; ‘Devia ser tudo corrido a pente fino’.

Estes espaços de comentários online, não obstante a sua toxicidade e falta de representatividade, espelham bem o espírito de alguns Portugueses relativamente ao tema das Fundações. Parte desta desconfiança com o sector social é, infelizmente, justificada por casos isolados (e mediáticos), que prejudicam por atacado a perceção pública sobre o trabalho meritório realizado por centenas de outras Fundações, muitas delas sem qualquer financiamento público. Convém não perdermos de vista as mais-valias das fundações, sobretudo no contexto atual de complexidade e desigualdades em que a sociedade se encontra. Três argumentos em sua defesa:

Primeiro argumento: as fundações são necessárias. Não é realista pensar que tudo pode ser resolvido pelo Estado. Para além disso, comparativamente a instituições públicas, as Fundações podem correr mais riscos e testar novas soluções para resolver os problemas complexos da sociedade. Se essas soluções forem eficazes, podem depois ser replicadas pelo Estado. Cada vez mais os problemas vão precisar de inovação na sua resolução. Como dizia Einstein, não poderemos resolver os nossos problemas com o mesmo tipo de pensamento que usávamos quando criámos esses problemas. Para os resolver, vamos precisar de inovação social e ambiental e as Fundações são o espaço ideal para a sua génese e desenvolvimento.

Segundo argumento: num mundo em que os ricos estão cada vez mais ricos, é incontornável (e desejável), o papel das Fundações na redistribuição de riqueza e criação de oportunidades. Portugal tem margem para ter mais fundações. Segundo o Global Wealth Report do Credit Suisse, existem atualmente 94 mil portugueses com um património avaliado acima de um milhão de dólares. A tradição de deixar parte da fortuna pessoal em testamento para uma causa ainda é reduzida entre os Portugueses. Mas se Portugal seguir a tendência internacional, essa prática irá aumentar, assim como irá aumentar a percentagem de pessoas que irá doar parte da sua fortuna em vida (e cada vez mais cedo). Temos brilhantes exemplos de generosidade Portuguesa, como o mais recente caso da Fundação de José Neves, o CEO da Farfetch, e também de estrangeiros em Portugal, como a Fundação Calouste Gulbenkian. Mas estes exemplos são ainda assim em número reduzido e alimentados pelo gigantesco património dos seus fundadores. Não é preciso ser bilionário para se criar uma fundação. O que nos leva ao…

Terceiro argumento: no futuro, não será preciso criar a sua própria fundação para deixar um legado e mudar o mundo. Da mesma forma que quem não tem experiência a cozinhar mas quer ter um bom restaurante se pode juntar a um chef com experiência, o caminho poderá ser o de que os grandes doadores se juntem também a fundações com experiência, através da criação de fundos seus nessas fundações, como acontece já fortemente nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Poderão então dizer ao chef que tipo de pratos gostariam de servir e como vão avaliar se está a fazer um bom trabalho. Mas não terão de se meter na cozinha. A filantropia tem tanto de paixão como de ciência. E é esse profissionalismo na gestão, e rigor na avaliação de impacto e na prestação de contas que permitirá o sucesso da filantropia. Mais filantropia terá que ser necessariamente acompanhada por maior supervisão. Porque os Portugueses o exigem e porque os Portugueses o merecem. O pente tem de efetivamente ser mais fino.

Dizem que a raiva boicota o bom senso e retira-nos o foco do que é realmente importante. Mas também é verdade que por baixo da raiva estão muitas vezes sentimentos feridos. A raiva evidente nos comentários online esconde a frustração e a mágoa de quem observa este e outros casos com um sentimento de impotência. Neste sentido, todos os comentários enraivecidos se compreendem e devem ser levados a sério. Caberá às Fundações continuar a trabalhar com perseverança e fazer-nos a todos acreditar que um mundo novo é possível. Um mundo com uma nova consciência.

Luis Plácido dos Santos é gestor de projetos na Fundação Calouste Gulbenkian. Mestre em Gestão pela NOVA School of Business and Economics e realizou pós-graduação em Grantmaking, Philanthropy and Social Investment, na escola de gestão da City, University of London, e curso de especialização em Exponential Fundraising, na Harvard Kennedy School.