Ouvi os dois debates atentamente, posso até atrever-me a dizer que me diverti. Mas por feitio e defeito de profissão, porventura, acumulei uma série de perguntas numa lista que decidi aqui partilhar, não vá o diabo tecê-las e algum dos candidatos acabar por me surpreender ainda antes da campanha acabar.

Vou começar por António Costa:

  1. Diz que “a direção do PS não foi capaz de impor um projeto alternativo” e que este não pode ser ligeiramente diferente, mas uma real mudança de rumo. Ao mesmo tempo, explica que não é possível apresentar propostas muito concretas porque ainda há um ano pela frente até às legislativas – e até “a crise da Ucrânia” pode mudar muita coisa. Assim sendo, como é que um projeto alternativo radicalmente diferente do deste Governo podia ser apresentado há três anos, dois anos, um mês? E, já agora, que projeto radicalmente diferente é possível apresentar agora?
  2. A propósito do tal projeto alternativo, Costa fixou uma trajetória, um calendário, mas não um programa de Governo. “Ninguém apresentou, seria bizarro que alguém o fizesse”, acrescentou na SIC. Mas Costa ironiza com as “seis ideias e meia” que, contou ele, Seguro tem de diferente face ao programa de 2009 do PS. E diz ter melhores ideias e até melhores condições para ser primeiro-ministro. Faz lembrar ligeiramente Marcelo Rebelo de Sousa na rábula do referendo ao aborto, ou será demais dizê-lo?
  3. Já agora, se apenas seis ideias (e meia) de Seguro são diferentes, e se o programa passado era bom, o que tem de mal este de Seguro?
  4. Costa diz que Seguro “entendeu assumir a explicação que a direita deu” sobre a crise económica e financeira. Mas acrescenta (noutro passo, mais à frente no debate) que Portugal está “numa camisa-de-forças”, que o Estado deve ser promotor “mas cabe às empresas investir” e que a forma possível de recuperar (leia-se, dinheiro para pôr na economia) vem dos fundos europeus. Mas no que é que isso é diferente do que temos hoje?
  5. Costa faz de princípio basilar da sua moção a ideia geral de que “não podemos ter na Europa uma posição fraca”. E acrescenta, com singular prudência, que é melhor não pedir soluções mutualistas para resolver o problema da dívida pública porque elas “provavelmente vão ser pouco viáveis no horizonte do próximo Governo”. Assim sendo, devemos bater o pé a quê?

Agora sobre António José Seguro:

  1. É preciso “acabar com os sacrifícios”, com “a austeridade”. É preciso também pôr as contas do Estado em ordem, porque o Governo não o conseguiu, diz: “4% era a meta do ano passado, já viu?” – perguntou a Clara de Sousa. Mas não foi Seguro que passou dois anos a pedir uma consolidação mais soft, mais devagarinho?
  2. A Europa “tem uma política monetária única, mas tem 18 políticas orçamentais completamente diferentes”. Assim, “é impossível”, diz. Seguro é europeísta convicto e defende uma coordenação de políticas orçamentais na zona euro. Ela já começou e exige uma troca: os estados em situação orçamental (e de dívida pública) mais frágil têm que resolver os problemas antes de terem margem para politicas expansionistas. Foi isso que vivemos nestes anos, é isso que ainda vivemos hoje.
  3. Ainda a dívida pública: o problema é “gravíssimo”, exige mudanças e ajuda da Europa. E sem ela, faz-se o quê?
  4. Tem um programa de mudança, um Novo Rumo, um projeto muito diferente do que tem o atual Governo. A primeira ideia dele que levou para o debate é um “programa de reindustrialização”. Diferente do de Álvaro Santos Pereira em quê?
  5. A par do crescimento, da criação de riqueza, apresenta duas prioridades perfeitamente razoáveis para o próximo Governo: “Reformar o Estado, sustentabilidade das funções sociais”. No final do debate na SIC, criticou Costa dizendo que um candidato a primeiro-ministro não pode esconder o jogo, “vender gato por lebre”. Passaram três anos de liderança, muitas críticas ao que foi tentado. No projeto eleitoral pouco ou nada se diz sobre estes dois pontos. Virão quando?

Como podem atestar, não falei da herança, nem dos feitios, nem dos ataques pessoais. Não pedi ideias concretas, a não ser sobre aquelas de que cada um falou. A mim, basta que me respondam a isto e fico feliz. Ia pedir, sff, que fosse até dia 28. Ainda vou a tempo?