Na reta final da campanha para as primárias socialistas, a Antena 1 fez duas entrevistas em separado, mas em espelho, aos dois candidatos. Colocando as mesmas perguntas a António José Seguro e a António Costa, ambos comentaram o caso mais quente da atualidade que envolve o primeiro-ministro, e arriscaram um balanço destes quatro meses de campanha intensa. “Aprendi da forma e com quem menos esperava que devemos estar preparados para tudo”, resumiu o presidente da Câmara de Lisboa. Já Seguro, não mudava “nada” do que fez na campanha e garante que as pessoas o conhecem melhor agora.

As respostas não divergem muito, mas surpreendem aqui e ali. Questionados sobre o que aprenderam com esta campanha, que foi inédita tanto no partido socialista como no país, o secretário-geral do PS foi perentório: “Aprendi que compensa falar a verdade aos portugueses”. Para António José Seguro, a campanha foi vantajosa para os portugueses o “conhecerem melhor”: “descobriram que a imagem que os comentadores televisivos faziam de mim não era a verdadeira”. E para isso os debates foram bons, “porque não havia filtro”.

Já António Costa foi mais específico. Garantindo ter aprendido que “devemos estar preparados para tudo“, lembrou que em todas as eleições que disputou para a Câmara Municipal nunca tinha enfrentado “uma campanha assente no ataque pessoal e no insulto”. “Isto nunca me tinha acontecido, e aconteceu agora da forma e com quem menos esperava”, disse. Se pudesse mudar alguma coisa, teria mudado de atitude no primeiro debate da TVI.

“Teria sido menos condescendente relativamente aos ataques que me foram dirigidos. Mas entendi que era meu dever estar à altura daquilo que deve ser a responsabilidade de um dirigente político”, disse.

E Seguro? Não teria mudado “nada”.

Caso Tecnoforma: entendimentos diferentes

Há apenas um ponto em que os dois divergem mais substancialmente: o caso Tecnoforma que está a marcar a atualidade deixando o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho debaixo de fogo. Nenhum fala em demissão nem em alteração precoce do calendário eleitoral, mas se António Costa acha que cabe à Procuradoria-Geral da República (PGR) esclarecer se houve ilícito e, se não tiver havido, repor o “bom nome” do primeiro-ministro, António José Seguro prefere que seja o próprio primeiro-ministro a esclarecer a situação.

Assumindo que não concebe um primeiro-ministro que “não declare rendimentos ao fisco”, António José Seguro quer esclarecimentos. “A lei é igual para todos, políticos ou cidadãos, e o primeiro-ministro deve dar o exemplo. Se violou a lei tem de assumir as responsabilidades”, disse.

“Não podemos ter um primeiro-ministro sob suspeita, é preciso um esclarecimento e considero que aquele que tem a obrigação de prestar esse esclarecimento é o próprio primeiro-ministro”, disse Seguro à jornalista Maria Flor Pedroso.

António Costa, por outro lado, afirma que cabe à PGR esclarecer e agir caso se prove ser verdade. Tratando-se de um primeiro-ministro, “não pode pairar a dúvida”, diz, acrescentando que se se provar não ter havido ilícito há que “repor o bom nome do primeiro-ministro”.

Em jeito mais arriscado, uma pergunta sobre qualidades e defeitos do adversário. Qual o ponto forte de Seguro? “A persistência – acho que essa é uma qualidade que tem sido evidenciada”. E o que diz Seguro sobre Costa? “É um político hábil“, para o bem e para o mal.