Legislativas 2015

Um bocadinho de cinismo a mais, não?

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966

O Presidente da República fez o que tinha de fazer. É a hora de forçar Passos a um consenso interno, de devolver o PS ao discurso do centro. Os próximos dois anos não podem ser deitados à rua.

O país passou os últimos anos a clamar a mesma coisa, em quase unanimidade: que Passos não fazia esforço nenhum para obter consensos; antes dele, que José Sócrates nada fazia para encontrar pontes com alguém. Chegados ao fim das legislativas, eis que o Presidente da República pede consensos aos dois maiores partidos – de maneira clara e cristalina. E o país mediático cai em cima do Presidente, dizendo que ele não tem poder para isso, que não tem força política para isso, que até violou a Constituição ao fazê-lo (porque não ouviu os partidos antes, porque excluiu o PCP e Bloco). Entendamo-nos:

Primeiro: o Presidente da República foi eleito diretamente e tem poder para fazer o statement político que entender necessário. Está acima dos partidos, é chefe de Estado para alguma coisa.

Segundo: o Presidente ainda nem começou a ronda de consultas aos partidos. Isso deixou para a próxima semana, depois de Passos e Costa começarem a falar. Desta vez, isso sim, quis marcar as cartas e dizer-lhes o que entende que eles devem fazer.

Terceiro: o Presidente não só foi eleito explicando, bem alto, que era pró-euro e pró-NATO (e foi eleito à primeira volta por duas vezes), como a esmagadora maioria dos portugueses que votaram no domingo disseram a mesma coisa: são pró-euro e pró-NATO. 70,1%. Daí que Cavaco Silva não tenha sido só intérprete da sua própria posição, foi intérprete da maioria dos votantes (contra os 20% minoritários que votaram Bloco e CDU).

Quarto: quantos se queixaram de Cavaco Silva não ter feito o mesmo em 2009, quando o país estava a entrar em processo de colapso – por culpa própria e de uma crise externa? E quantos desses vão criticar agora o mesmo Presidente por fazer o que antes não fez (e mal)?

Quinto: o país tem uma curtíssima janela de oportunidade para se colocar em território seguro. O BCE está a injetar dinheiro na economia; o euro está em baixa – ajudando as exportações; o petróleo também em mínimos. Nenhum destes fatores favoráveis vai durar muito tempo – e o nosso ponto de partida é tão baixo que nos deixa em perigo logo que eles desapareçam. Será contestável que temos uma só oportunidade para evitar cair (outra vez) no mesmo buraco? E alguém acha possível aproveitarmos a oportunidade se tivermos um Governo sempre à beira de cair? (como todos antecipam, qual profecia do fim do mundo, com hora marcada?)

Sexto: para fazer consensos, não será preciso forçar Passos Coelho e Paulo Portas a ceder mais? A entenderem que desta vez o consenso necessário não é externo, mas interno? A perceberem que vale mais um programa mais ao centro (mas estável e previsível), do que o programa deles (sem estabilidade e sem, portanto, a confiança dos mercados)?

Sétimo: para fazer consensos, não vai ser preciso que o PS de António Costa acabe com esta indefinição estratégica e ponha o PS no lugar onde sempre esteve (menos nesta estranha campanha eleitoral)?

Concluo, para não ser repetitivo: Cavaco Silva fez bem, realmente bem, em assumir o risco e tomar a iniciativa. Está em final de mandato e o que sair deste momento ficará a marcar a sua história presidencial. Passos Coelho fez bem, logo depois, em abrir o seu acordo de coligação aos quatro pontos que Costa enunciou na noite eleitoral – dando espaço a um diálogo profícuo. Falta agora António Costa dar o passo seguinte – e desmontar de vez esta tenaz que o PCP e Bloco lhe montaram, para tentar reduzir o PS ao que não é (um derruba governos, eurocético e anti-NATO). E, não, o PS não corre o risco de “pasokizar” se influenciar a governação. Corre, sim, o risco de ser engolido pelo Bloco e PCP se continuar o discurso que fez nas últimas semanas, como bem mostram os resultados das legislativas.

Faltará, depois disso, que Passos ceda nas negociações programáticas – para quem negociou três anos com a troika, o PS não é seguramente pior. E que Costa perceba uma pequena coisa que não estou certo que já tenha entendido: ele tem, sim, um mandato para negociar com a direita e forçá-la a um consenso ao centro. Mas não tem um mandato para implementar o seu programa, como julgo tê-lo ouvido dizer no domingo passado. Esse programa que levou a votos foi, se bem me lembro, derrotado no dia 4 de outubro.

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