Ao contrário de muitos companheiros meus (em especial dos que me são política e ideologicamente mais próximos) não penso que Rui Rio tenha tido um resultado desastroso nas últimas eleições legislativas. É verdade que a percentagem está na fasquia baixa do histórico eleitoral do partido. Mas é também verdade que não só suplantou as expectativas (mercê de uma campanha briosa onde finalmente fez oposição ao partido socialista) como conseguiu segurar o núcleo duro do eleitorado do PSD (quer este estivesse identificado ou não com a sua liderança). Para mim o problema do resultado conseguido é mais vasto sendo o do PSD apenas uma das suas manifestações. Na verdade, o problema é a queda eleitoral do centro-direita que (não indo demasiado longe no tempo) teve 2,7 milhões de votos em 2002 e em 2019 se ficou pelos 1,7 milhões de votos (isto é, uma perda de 1 milhão de votos em 17 anos).

As razões para essa queda são múltiplas, algumas conjunturais e outras estruturais. As conjunturais são aquelas que se prendem com um período recente da história do país em que as dificuldades vividas provocaram na sociedade um regresso a um clima reivindicativo similar ao dos anos 70. São também as que se prendem com uma deriva para a esquerda do partido principal desta área na busca mirifica de um centro que não existe. As estruturais são as mais importantes: todos os anos o sistema educativo português (que o centro-direita nunca teve a coragem de reformar e libertar) fabrica umas boas dezenas de milhar de eleitores de esquerda e sobretudo o pensamento de esquerda colonizou o espaço político da direita e mais tarde ou mais cedo quem ganha a batalha cultural, acaba por colher os seus frutos políticos.

A benéfica entrada no parlamento de dois novos partidos desta área além de permitir o reequilíbrio do sistema político português (anacronicamente inclinado à esquerda) veio confirmar que terminou o tempo em que a insatisfação política do povo de centro-direita não tinha expressão eleitoral. As sondagens que lhe tem seguido mostram que o fenómeno está para durar e que a erosão dos dois partidos tradicionais desta área pode bem vir a se acentuar.

Como tive ocasião de afirmar num recente Conselho Nacional do PSD, o nervo da perda de alma do centro-direita (e consequentemente de factores diferenciadores em relação á esquerda) está na debandada deste partido e de outros intervenientes políticos desta área, nos debates das chamadas questões fracturantes: a oposição às propostas radicais é débil, as concessões vão-se somando e quando existe a oportunidade não há a coragem (que à esquerda nunca falta) de reverter as decisões anteriores. O que é tanto mais absurdo quanto na ocasião das votações parlamentares, a posição de bancada dos partidos de centro-direita é de rejeição das propostas fracturantes.

Com dificuldade se encontram hoje políticos que não hesitem em afirmar que o aborto, seja qual for a circunstância, consiste na supressão da vida de um inocente; que a procriação artificial é um procedimento violento de todos os pontos de vista; que o chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo não é o instituto jurídico adequado à situação sobre que versa; que às crianças adoptadas já bem basta a situação que originou o recurso a esse instituto; que o divórcio-expresso lança na pobreza as suas vitimas (mulheres, na sua esmagadora maioria); que é um absurdo conceder a “mudança de sexo” a quem nem livre é de conduzir ou comprar álcool e tabaco; que a ideologia do género consubstancia um abuso de menores promovido pelo poder; que a eutanásia é uma desistência e devolve ao Estado um poder que este há muito havia perdido (pelo menos nas sociedades ocidentais): o de decidir da vida dos seus cidadãos; que a liberdade de educação não é uma reivindicação de privilégios, mas sim um dever de justiça com os que podem menos.

Ora, estas posições, ligadas aos valores fundamentais do centro-direita, são os da maior parte do seu eleitorado, que ou as assume parcial ou totalmente, ou, sobretudo, dada a sua identidade moderada e convicções baseadas no bom senso, é oposta ao experimentalismo social. Disso é demonstração as Caminhadas pela Vida que em Aveiro, Braga, Lisboa, Porto e Viseu, trouxeram à rua, milhares de portugueses (na sua maioria jovens) no passado dia 26 de Outubro, com uma expressão politica de dimensão muito superior às manifestações de coletes amarelos ou demonstrações de solidariedade com uma recém-deputada (ou outros eventos similares), mas que inexplicavelmente foi, inocente ou deliberadamente, ignorada pela comunicação social (com as honrosas excepções da SIC-Noticias, Porto Canal e Renascença e alguns meios de comunicação locais ou independentes, como as Noticias Viriato).

O crescimento nos últimos anos destes movimentos sociais, conjugado com múltiplas outras expressões cívicas e de solidariedade social, intensas actividades culturais e editoriais, intervenção na opinião publicada ou nos debates parlamentares a partir da sociedade e uma crescente reivindicação de outras possibilidades de configuração do sistema político e eleitoral, apontam e fazem um caminho, que poderá restituir força e entusiasmo ao centro-direita e reverter a sua queda eleitoral, na medida em que tornam visíveis a razoabilidade, vantagem, bondade e beleza de uma proposta que é distinta e alternativa à esquerda e, sobretudo, benéfica para o país e os seus cidadãos.

Neste momento em que o centro-direita se recompõe e se decidem as lideranças dos seus dois principais partidos, a atenção à reconstrução desta área política, a partir de ideais e convicções, é o grande desafio que hoje se coloca. Saibam os seus protagonistas estar atentos, porque se para os partidos do centro-direita isso é importante, para o futuro do nosso país isso é decisivo.