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Para que não haja equívocos: o autor deste artigo vai votar Marcelo Rebelo de Sousa pelas razões que, entre outros, o José Maria Seabra Duque já expôs no Observador, e não tenho a pretensão de ter coisas mais inteligentes a acrescentar. E, sim, claro que gostaria que o actual PR fosse diferente, nisto ou naquilo, mas como disse um amigo meu, há uns bons anos atrás, e referindo-se a si próprio: “o melhor presidente da república era eu, mas como não me candidato, escolherei entre os que se apresentam”… e, não, não tenho qualquer receio quanto à decisão que o futuro Presidente, assim o espero, tomará na questão da eutanásia. Estou convencido fará aquilo que o país dele espera e a Constituição exige. Quando o parlamento não tem juízo, o povo é que paga, e é também para isso que existe a função presidencial.

Dito isto, escrevo este artigo a propósito do assunto do título e de uns memes que circulam nas redes sociais e nas quais, com a fotografia dos mesmos, três Cardeais portugueses são colocados a dizer sobre o Chega o que Maomé não disse sobre o toucinho. Nenhum dos três proferiu aquelas declarações, e a montagem, nota-se, não deve ter sido feita por ninguém “da casa” (a nossa Santa Madre, como nós os católicos, gostamos de nos referir à Igreja a que pertencemos). Para o mesmo efeito e manipulação não faltam na intervenção dos mesmos Cardeais outras frases e declarações com que estes autores de “fake news” poderiam ter tentado obter o mesmo efeito ou passar a mesma mensagem. Ou, até e inversamente, os apoiantes de qualquer candidato, tentado uma identificação entre o pensamento católico e o seu apelo político. Como dizia o Cervantes “todo depende del cristal por donde se mire”, ou, no caso, das frases em que se pegue… mas aqui, o mafarrico, como ás vezes acontece, deixou a cauda exposta…

É verdade o cristianismo tem a ver com tudo e com a política também. Nas suas experiência e doutrina, nas declarações da hierarquia, não falta onde encontrar ajuda para cada um, católico ou não, encontrar critérios para discernir o seu voto. Mas desista, no seu próprio interesse, para não perder tempo, quem queira usar o catolicismo como arma de arremesso para afirmar uma posição ou contrariar o seu oposto. Nestas eleições haverá católicos a votar em todos os candidatos (mais nuns do que noutros, já se sabe) e, conforme as perspectivas, Deus seja louvado por isso ou o Senhor lhes perdoe… pode-se gostar ou não que tal aconteça, mas é a realidade. Para alguns, entre os quais me incluo, por razões que aqui não cabem, não é sem dor que o constatamos. Para outros, é um grande alívio. Para a grande maioria dos católicos, fruto de uma deseducação de décadas, creio, com pena, isso nem sequer é uma questão.

Assunto diferente, mas conexo, é o reflexo que na decisão de voto terão questões particularmente importantes para os católicos, sobretudo naqueles que diariamente são a sua militância, nas organizações sociais e culturais, na intervenção política e na vida eclesial. Aí sim, preocupem-se os candidatos (na catástrofe abstencionista que se receia ocorra no dia 24, esse factor pode ser decisivo) e em especial a esquerda moderada (uma espécie em vias de extinção) e o centro-direita, cujas margens crescerão tanto mais quanto os seus partidos principais (em especial o PSD, porque o CDS, honra lhe seja feita, e pensando em especial na eutanásia, não tem faltado à chamada) demorem saber responder ao seu eleitorado.

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Mas, pelas almas, poupem-nos aqueles que diariamente nos agridem com as suas políticas de nos vir fazer “homilias” sobre qual deva ser o nosso, dos católicos, sentido de voto e porque é incoerente este ou aquele candidato ou sobre o que deve decorrer do que diz aquele (Papa Francisco) que nos conduz e a quem amamos e que tão treslido é. É verdade que esses “sermões” proporcionam algumas gargalhadas, mas, isso não compensa a incomodidade do sentimento de vergonha alheia…

Claro que, como tudo na vida, a campanha acima, vinda de quem vem, tem o seu lado bom. Tem o seu lado bom que quem nos impôs o aborto e quer enfiar a eutanásia à força, quem quer usar as mulheres como escravas (nas barrigas de aluguer) ou privar os pais da liberdade de educarem os seus filhos, quem agride a liberdade religiosa ou tem um plano deliberado de desmantelamento da instituição familiar, quem pouco se importa de destruir embriões ou nos quer submeter à ditadura da ideologia de género, quem precisa da solidariedade mas não respeita a subsidiaridade, reconheça assim que está isolado no uso da violência do poder e ameaçado no seu domínio cultural. Tão isolado que, agora, precisa dos católicos a cujas aspirações e presença social, tanto persegue. Entre nós, católicos, estes recém-amigos tão preocupados com a autenticidade e coerência do nosso cristianismo, têm um nome. Costumamos chamar-lhes os “lobos com pele de cordeiro”…

Subscrevo-me, António Pinheiro Torres. um, entre tantos, dos católicos portugueses empenhados na política (no caso, no PSD).