Tucker Carlson entrevistou Darryl Cooper. Introduziu-o como “o melhor e mais honesto historiador popular nos Estados Unidos”. Darryl nunca estudou história para além do ensino secundário e o seu único livro publicado chama-se Twitter – Um guia de dicas e truques de como fazer. Trata-se de um currículo invejável. Ou seja, ao nível de formação em história, eu e Darryl Cooper estamos no mesmo patamar: não temos nenhuma. O que me torna perfeitamente qualificado para analisar a sua entrevista.
Nela, Cooper defendeu que a II Guerra Mundial não foi culpa de Hitler, mas de Churchill. Chegou mesmo a dizer que o primeiro-ministro britânico era “o maior vilão da II Guerra”. O episódio chama-se, inclusivamente, “como Churchill arruinou a Europa”. E no Twitter, que, como vimos, Cooper conhece como ninguém, afirmou que embora a sua “intenção não seja dizer que o Terceiro Reich foi pacífico (…) a guerra não era inevitável e quase ninguém, exceto a fação de Churchill, a desejava”.
Ora, a II Guerra começou quando Hitler invadiu a Polónia, em Setembro de 1939. Na altura, Churchill não fazia parte do governo. Aliás, quando sobe ao poder, em Maio de 1940, Hitler já tinha invadido a Holanda e a Bélgica, e a França era o próximo alvo. Ou seja, conclusão inevitável para Darryl: o Winston veio mesmo estragar tudo. Como argumenta Cooper, Hitler até ofereceu a paz à Grã-Bretanha, em julho de 1940, e Churchill recusou, acusando-o de mentira patológica e de ter uma força militar extremamente relativa. Como sabemos, tratou-se só de casmurrice e falta de descaramento do primeiro-ministro inglês. Churchill pode enganar a historiografia de academia, mas ao juízo crítico de Darryl Cooper não escapa. Até quero ver como é que o Andrew Roberts vai sair desta.
Apesar das insistências de Churchill, os Estados Unidos só entraram na guerra depois do Pearl Harbor. Cooper afirma que os EUA foram arrastados para a guerra por “operações de propaganda”. Algo que os 2403 mortos no ataque à base do Pacífico deviam ter preferido. A Marinha Real Britânica era, à época, a maior do mundo e participou decisivamente em inúmeras batalhas. Segundo Cooper, a Grã-Bretanha deixou outros países a lutarem por ela. Por várias vezes, Churchill alertou os seus contemporâneos que o desarmamento não significava diretamente a paz. Fê-lo em 1934, e pediu, em 1936, uma “união de poder e de justiça” para evitar a guerra. Para Darryl Cooper isso não mostra qualquer boa intenção. No entanto, segundo ele, as mortes que os alemães causaram a leste trataram-se de acidentes e acasos, fruto de impreparação militar, embora a “Hungerpolitik” planeasse deliberadamente a fome e a morte de milhões de civis e prisioneiros de guerra soviéticos. Na verdade, os alemães só queriam ir brincar com as matrioskas. Os russos é que não souberam partilhar.
Há figuras que são odiadas pela esquerda. Outras que o são pela direita. Churchill consegue a proeza de fazer o pleno. No fundo, é o familiar de que ninguém gosta, mas que sustenta a família. Como sabemos, ao fim da noite, a história acaba com alguém a esvair sangue.
Da mesma maneira que o wokismo não é simplesmente a tentativa de mostrar que a história não é só feita de reis e princesas, isto também não é só a velha exaltação acrítica do passado. É algo bem diferente.
Antes era fácil perceber quem legendava as estátuas do bulldog inglês com epítetos de vilão e desprezível. Por estes dias isso é um exercício arriscado. Tanto pode ser alguém que o considera um perigoso colonialista, como alguém que o vê como um belicista que destruiu a ordem ocidental. Ambos concordam. Se ele tivesse estado quieto era melhor. Os opostos atraem-se. Nisto o povo e a físico-química concordam. Não temos sabido tirar as devidas consequências disso. Um conselho: em vez da hermenêutica dos gestos, é melhor fazer hermenêutica das palavras.