Nos primeiros vinte anos da minha vida o Papa era São João Paulo II. E se não pertenci à geração João Paulo II, fui educado na fé por ela. A minha infância e adolescência foram marcadas por pessoas para quem o encontro com o Papa polaco tinha sido decisivo para a sua fé. Já só tenho memória de São João Paulo II doente, mas sempre firme. A morte do Papa, depois daquela última aparição à janela da Praça de São Pedro, onde já nada havia de Karol Woytila, e só brilhava Cristo, ainda hoje me comove. A sua morte foi para mim um momento de enorme tristeza, mas sobretudo de orfandade. Amar o Papa era então algo absolutamente normal: como não amar um santo que falava, mas sobretudo, dava testemunho vivo de Cristo?
Passados os dezassete dias entre a morte do Papa (para mim nunca tinha havido outro) e a eleição do novo, dias de ânsia e algum temor, a grande alegria! Os cardeais tinham escolhido um “humilde trabalhador da vinha do Senhor”. O Cardeal Ratzinger, o grande teólogo de João Paulo II, era agora Bento XVI. E o pontificado do novo Papa, a mim que estava a entrar na idade adulta, marcou-me profundamente. E era-me fácil amar o novo Papa. A genialidade com que olhava e falava da Fé, a solidez da sua doutrina, o seu cuidado pela liturgia, a sua visão sobre o mundo, mais do que ir ao meu encontro, abriam um novo horizonte na minha vida. Por isso a resignação de Bento XVI foi um momento de estupefação, mas também de confiança de que o Papa, sendo mais santo e mais inteligente do que eu, saberia o que estava a fazer.
Quando o Papa Francisco foi eleito eu nada sabia do até então Arcebispo de Buenos Aires. Mas ficou claro, desde o primeiro momento, que algumas coisas iriam mudar. E com o tempo dei-me conta de que a minha Fé enfrentava um desafio novo até então. Pela primeira vez acontecia-me não concordar com o Papa.
Evidentemente que o católico não é obrigado a concordar sempre com o Santo Padre. A infalibilidade papal é exclusiva a matérias de fé e moral, quando fala ex cathedra. Esta frase, embora verdadeira, facilmente pode ser usada como subterfúgio. Eu tinha passado boa parte do pontificado de Bento XVI a defender a autoridade do Papa, e refugiar-me atrás de um formalismo, soava-me a hipocrisia. Não me era possível afirmar que seguia o Papa, para depois afinal só o seguir quando concordava com ele.
Por isso o pontificado do Papa Francisco obrigou-me pela primeira vez ao esforço de ser fiel ao Papa, mesmo quando não compreendia ou, até mesmo, não concordava com o sucessor de Pedro. Percebo que isto pareça um seguidismo, ou um abdicar da minha liberdade. Mas pelo contrário, era uma tomada de consciência de que se livremente proclamo a Fé na Igreja, se reduzo essa Fé àquilo de que eu sou capaz de compreender, ou à minha visão da realidade, no fundo, eu não acredito na Igreja, acredito apenas em mim.
Não digo que este caminho de fidelidade ao Papa tenha sido sempre fácil ou sem falhas. Mas a verdade é que foi com o Papa Francisco que aprendi a amar o Papa, e não João Paulo II ou Bento XVI. Ou seja, aprendi a amar e a ser fiel ao sucessor de Pedro, independentemente do meu juízo tacanho sobre quem ou como deve ser o Papa.
E a verdade é que este esforço, de ser mais fiel ao sucessor de Pedro do que à minha ideia sobre a Igreja, me permitiu estar mais atento a tantas coisas belas e grandiosas que aconteceram neste pontificado. Abriu-me o coração a tentar compreender melhor aquilo que o Papa nos dizia, em vez de ficar preso nas minhas objeções.
Por isso neste momento da morte do Papa Francisco, tenho presente tantos acontecimentos comoventes destes últimos anos: a visita do Papa a Lampedusa, a visita do Papa ao Iraque, a relação do Papa com os cristãos da Faixa de Gaza, as proclamações do Papa sobre o aborto e a eutanásia e a extraordinária Declaração Dignitas Infinita. E, sobretudo, a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, onde tive a graça de estar várias vezes próximo do Papa e ver como, apesar do cansaço, se fez próximo de tantas e tantas pessoas.
Muitas mais coisas haveria para dizer sobre o Pontificado do Papa Francisco. E nestes dias, muitas serão ditas, sobretudo porque o espaço público está cheio de especialistas sobre todos os assuntos (sendo que em geral não estudaram nenhum deles). Por mim fico-me por esta simples gratidão, de ter aprendido com o Papa Francisco a amar o Papa.
Jurista