1. Que fazer quando os ouço, como se fossem os primeiros, elogiar a Comporta? Sorrir, disfarçando a ironia? Dizer que fui lá pela primeira vez há quase quarenta anos e conheço tudo aquilo como os dedos da mão? Agradecer-lhes a generosa quantidade de paternalismo que nos atiram para cima por nos terem “descoberto”? Concordar amavelmente que “oui… oui” ? Para não falar em toda a sorte de revistas, “especializadas” ou apenas fúteis,onde se lê ser aquele um “fabuloso destino” ou “paraíso ainda secreto” dos ricos deste pobre mundo… Destino tão sedutor que — suspiro de alívio a soltar-se das manchetes — até dispensa “papparazzi e seguranças”.

2. “Sabe que não ‘se’ fala de outra coisa na Europa senão da Comporta?” Pausa. E onde será este “se” europeu, pergunto muito depressa a mim própria enquanto penso no que hei de dizer ao meu interlocutor, que estava aliás a ser muito mais simpático que snob?

O interlocutor era um loquaz Philippe Stark mas esta minha automática mania de tornar as conversas mais, como dizer?, produtivas, fez o diálogo voar velozmente para outras paragens que não “ce paradis perdu de Comportááá”.

De tal forma que só a preguiça e o apelo do mar impediram o mergulho numa reportagem falada com aquele homem praticante da boa conversa, comunicativo, cabotino qb e corpulento, vestido com um traje riscado até aos pés (sim a Comportáááá “deles” tem dress code), mas em qualquer caso eu já saciara a minha curiosidade: que fazia ele, ali?

Tive sorte: Stark abundou em detalhes. O episódio — ocorrido há dois verões — foi suficientemente esclarecedor para eu antever o que já estava em curso. Para o bem e para o mal, muita coisa iria mudar. Oxalá para o bem, mas… sentimentos divididos.

3. Quando, no início da década de oitenta do outro século, íamos, num bando de amigos & filhos, para a Comporta, o paraíso, não perdido mas achado, era ali. Silencioso e magnífico. Morávamos numa casa branca, envolta de terra alaranjada e pinheiros selvagens e éramos felizes naquele quase deserto. Um jipe ronceiro levava-nos até ao mar, por dunas onde cheirava a esteva e não havia ninguém. E, depois, eram os alegres banhos, pais e filhos, brincadeiras e sanduíches até um tardio almoço mas havia quem se deixasse estar, entre o céu e o mar. Sim, já houvera a revolução de 1974 mas o Talleyrand do “quem não viveu antes da revolução, não conheceu a doçura de viver” era ali uma máxima mínima. Os dias eram amáveis e afáveis e, apesar dos solavancos do país, que não eram amáveis nem afáveis, a vida escorria, o verão também.

Na pequena vila, que me lembre, havia uma boa organização social (a antiga administração sabia o que fazia): habitação, escola, igreja, padaria, GNR, posto médico, cantina, a casa do padre com as filas de casinhas brancas ao seu redor, uma modesta tabacaria e o “sr. Gomes”, abastecedor único daquelas paragens. Vendia frescos e víveres numa semi penumbra acanhada a habitantes e a (escassos) veraneantes que logo debandavam, deixando a pequena vila entregue à sua brancura solitária, após os calores do verão.

É esta harmonia quieta e este tempo suspenso que de súbito me acodem quando, entre o pasmo e a expectativa, me apercebo de tudo o que exorbita de uma paisagem mil vezes abençoada, porque todas as fadas um dia se debruçaram sobre o seu berço.

Sim, a vida anda, as coisas evoluem, o futuro é a mudança que o passado lhe reclama. Seja. Mas…

4. Gostaria de não ser mal interpretada: ainda bem que a Comporta dá brilho e dinheiro à sua região e nome ao país mas esse não é o ponto. Já não é. O ponto é saber se o fará bem. Saber se agora, à beira de um novo concurso para a sua venda, ela será defendida como a jóia que é. Protegida das armadilhas da “exclusividade” e do “luxo”, revistos por desordenamentos e abusos. Se a sua paisagem estiver — pelo menos – a ser tão protegida quanto cobiçada, teremos aprendido qualquer coisa sobre aquilo a que colectivamente nos obriga a honra de um património de excepção. (Embora, não é verdade?, o “cuidar” nunca seja, entre nós, olhado por todos, como tarefa de todos.)

Com a legitimidade de quem frequenta o sítio desde há muito (chegando a ter, várias vezes, casas alugadas no meio dos campos) é quase minha obrigação evocar hoje aqui dois nomes que justamente tudo fazem para salvaguardar a Comporta da desqualificação ou da predação.

Haveria obviamente mais nomes, escolhi estes porque vale a pena falar deles, porque os admiro e ao que fazem. São diferentes na escala, na profissão, na geração e um é de lá, o outro de fora. Iguais, porém, na exigência e na intransigência (nunca me cansarei de louvar esforço e brio numa pátria a eles avessa e quase sempre cansada).

Numa pincelada de palavras, falemos então destes dois cavalheiros, Carlos Gomes e Gonçalo Pessoa.

Começando pelo primeiro: Carlos Gomes, a que acima já aludi, vem hoje nos jornais, é fotografado, falado internacionalmente, requisitado. Quando o conheci, era o proprietário de um humilde “estaminé”, transformado hoje numa morada gastronómica de referência.

“Então, sr. Gomes, qual o segredo, qual o milagre?”, perguntei-lhe eu quando em Junho passei a cumprimentá-lo, meia estonteada face ao seu cada vez mais apetecido poiso de sabores e delícias. Mas… não havia segredo, nem houve milagre. Havia exigência e houve a capacidade de mudar. Ambas geradoras de novas iniciativas, (como foi a abertura da saborosa casa de “petiscos” ali mesmo ao lado, com a mulher aos comandos).

Começou há trinta anos, com os clientes do então nascido Soltróia a pedirem produtos “diferentes”. A seguir, um lote de novos clientes “a baterem à porta da mercearia por coisas um pouco mais alternativas e de maior qualidade”, aceleraram a mudança. Gomes soube acompanhar a passada. E, depois, o gosto pelo risco (“dentro dos limites”) e o “aconselhamento familiar” (“os mais próximos queriam sempre ir mais além”) tiveram um bom suporte: as “viagens”, uma Comporta que “ia crescendo” e “um forte gosto pela cozinha” conduziram naturalmente a família a escolhas mais “refinadas”. Trinta anos depois, o esforço e o trabalho do clã familiar impressionam. O seu êxito também.

Êxito discreto, como Carlos Gomes. Não contem com ele para se abonar com o carrossel de estrelas que sem pré-aviso lhe entra diariamente porta dentro (“Ah, nada de comentários, aqui eles estão em casa”) e ainda menos para o auto-elogio: “Alta qualidade?”, espanta-se ele quando lhe elogio as prateleiras, “mas
podia ser de outra maneira?”

Não podia. Eu conheço este meu amigo.

5. Quem havia de dizer que um dia Gonçalo Pessoa viria a comandar hotéis com a mesma destreza com que comanda aviões? Uma história que começou pela descoberta da Comporta em 2002 (“foi amor a primeira vista, era o oposto do que estávamos habituados no Algarve…”), prosseguiu com a rendição ao “espaço, à natureza, à autenticidade” através da compra de um terreno (“bem arborizado e de fácil acesso”) para morada de férias; e rematou com um notável golpe de intuição: em 2011, no arranque da construção da casa, Gonçalo “alterou-a” para um “pequeno hotel de charme”. Se a intuição é meio caminho andado (“percebi que aquele destino emitia os primeiros sinais de procura de clientela estrangeira com poder de compra”) a desinstalação fez o resto: em 2014, o Sublime abre as portas com 14 quartos e um restaurante, mas o comandante continuava, do outro lado do Tejo, a pilotar aviões. Nem a distância, o trânsito ou os sobressasltos inerentes à aventura da Comporta pareciam demovê-lo ou sequer afligi-lo. Bem pelo contrário, ambos os voos, o hoteleiro e o outro, continuaram as suas rotas: em 2016 o Sublime ampliava-se com um novo edifício, 10 casas (hoje já são em maior número) e dois restaurantes, enquanto em simultâneo os aviões comandados pelo Comandante Pessoa seguiam para os seus respectivos destinos.

6. Graças à generosidade de uns sobrinhos que ali têm uma casa, passei lá uma semana no inicio do verão. No dia seguinte tinha percebido que o Sublime era sublime. Mal passara o largo portão logo me seduzira o paisagismo, a escolha das plantas, o arvoredo, o cheiro da terra quente, o desenho ordenado de casas e coisas. A impoluta beleza. Não é para qualquer um. E ainda menos para alguém tão novo (Gonçalo Pesssoa não tinha 40 anos no início desta empreitada) e, mais, sem tradição hoteleira na família. Quando lá estive, pedi para falar com o “Sr. Comandante”. Cruzara-me com ele um ano antes, num jantar “comportense” mas agora ali, a minha curiosidade era directamente porporcional à surpresa que me suscitava um lugar onde tudo encaixava: exigência e natureza, refinamento e paisagem, fareniente e singularidade, boas maneiras e altíssima qualidade.

Numa das esplanadas, Gonçalo, Coca-Cola na mão, sorri. Com a serenidade paciente que o caracteriza, vai somando respostas às perguntas. As voltas ao mundo, por exemplo, foram uma boa escola: “O gosto pelo atendimento púbico e o viajar muito permitiu-me a mim e à minha mulher aprender com os outros o que fazer de certo e errado…”

Daí à “vontade de oferecerem serviços invulgares para um pequeno hotel” passando por “uma abordagem centrada no personalizado e no autêntico”, foi um passo.

Está dado. E agora? Agora, eis o sr. Comandante Pessoa — que não é aparatoso nem vaidoso — a desejar que o Sublime venha a ser aquilo que muito simplesmente ele talvez esteja já a caminho de ser: “um daqueles hotéis icónicos que preenchem o imaginário dos viajantes”: “Gostava que ele fosse um ‘clássico’ que resistisse ao tempo e às modas, que envelhecesse bem…”.

Subentendido: que “envelhecesse bem” nesta Comporta mágica para o desenvolvimento da qual o aviador/hoteleiro quer colaborar como partner activo e sobre cujo futuro ele tem algumas ideias. (ver a propósito a entrevista com Comandante Gonçalo Pessoa aqui no Observador).

7. Conclusão: sim, há certamente mais mercearias de excelência para além do “sr. Gomes” e o Sublime de Gonçalo Pessoa não será o único hotel português onde queremos voltar.

O que me sucede é achar que são sempre pouquíssimo banais as histórias de portugueses que insistem e persistem em fazer mais do que o possível e eu gosto de as contar.

Estes dois senhores (e certamente alguns outros) trabalham incansavelmente para que daqui a cinco ou cinquenta anos, o seu lugar der estimação continue um paraíso.