Toda a gente sabe que a mania da coerência é mais um mito do que uma realidade e ainda bem. Seria bem pior se as pessoas, em nome de uma coerência ideológica, nunca emendassem os erros. Desde que os reconheçam e, já agora, que expliquem por que razão mudaram de opinião. O que não vale é dar o dito por não dito e pretender esconder que se mudou de ideias. No limite, isso chama-se mentir. Foi o que fizeram o primeiro-ministro e os líderes do CDS e do PSD. O primeiro-ministro fê-lo com óbvias intenções eleitoralistas e os líderes da presumida oposição à «geringonça» não confessaram que mudaram de ideias mas fizeram o mesmo cálculo eleitoral.

Estou a referir-me, como é óbvio, ao falso alarme da demissão do governo caso as proclamadas «esquerda» (PCP+BE) e «direita» (PSD+CDS) se juntassem para aplicar ao PS o golpe da «coligação negativa», muito usado na vida partidária portuguesa. Pelas minhas contas, seria a quarta vez, o que se percebe num sistema partidário fechado a sete chaves em que apenas dois partidos estão autorizados a chefiar o governo. O governo PS seria então indirectamente derrubado por essa «coligação negativa» a pouco mais de duas semanas das eleições europeias e a escassos meses das legislativas. Não gozem connosco!

O que aconteceu foi uma série de tacticismos eleitorais consecutivos da parte dos cinco partidos da cena parlamentar portuguesa a propósito do badalado drama nacional das reivindicações dos professores do primário e do secundário, que estão, segundo os dados internacionais, entre os funcionários mais bens pagos do país. Ao de cimo, acabou por vir, como era expectável, esse «centro» que o PS conseguiu personificar com a ajuda da armadilha em que o PCP+BE tinham conseguiram fazer cair o PSD+CDS ao prometerem em conjunto à CGTP uma recuperação salarial que ninguém tinha tido fora da Madeira (PSD) e dos Açores (PCP), cujos funcionários constituem uma grande parte dos eleitores…

Se a «esquerda» e a «direita» pensavam que iam embaraçar o PS, obrigando-o a assumir perante o eleitorado nacional a recusa de aumentar os professores no presente contexto, António Costa serviu-se da «coligação negativa», com que os extremos do hemiciclo imaginavam arrebanhar votos dos professores, para desarmar ambos os grupos de demagogos e, em contrapartida, recuperar os votos de todos aqueles que nunca estiveram pelos ajustes de mais esse presente pecuniário aos funcionários públicos. Muito haveria a dizer sobre as causas deste comportamento mas hoje limitar-nos-emos a sublinhar, no final, os efeitos de longo prazo da crise do sistema de educação.

Em suma, tratou-se de uma oportunidade oferecida de bandeja ao contra-golpe eleitoral do primeiro-ministro, o qual não hesitou em agitar imediatamente a ameaça de demissão. O Presidente da República, habitualmente tão loquaz, nem piou. Calculou que o «bando dos quatro» não se aguentaria, como não se aguentou, borregando antes de a semana findar. A «direita» ficou eleitoralmente desfeita e a «esquerda» provavelmente também vai pagar caro a demagogia ao responsabilizar-se penosamente pelo seu duplo fracasso, como se queixa o BE.

Com efeito, desdenhando a situação real do país e as medidas adequadas a propor ao eleitorado, a «esquerda» e sobretudo a «direita» não só perderam o pouco crédito eleitoral que pudessem ter ganho nos últimos meses como passaram a permitir que o PS alimentasse a esperança de recuperar as perdas indicadas pelas sondagens e vir, eventualmente, a atingir a maioria absoluta, o que seria um desastre. A situação do país é, efectivamente, muito pior do que o ministro das Finanças tem por ofício anunciar, como demonstra a dívida pública. Esta não parou de aumentar desde que Portugal entrou para a UE devido ao défice sistemático; ultrapassou o PIB em 2011 – ano da bancarrota iminente – e nunca mais baixou, estando hoje 25% acima do PIB.

Há, porém, algo de tão grave e revelador como a dívida, porque estrutural e condicionante do futuro a longo prazo. É a produtividade do trabalho em baixa há cinco anos seguidos. Segundo o Banco de Portugal, “Portugal tem divergido face à área do euro” devido ao crescimento do emprego de baixo valor acrescentado. O aumento do turismo e da construção civil são bem-vindos mas sempre foram actividades de baixa produtividade. A escolarização e a formação profissional, assim como a saúde – em crise sem equivalente desde a criação do SNS – são os factores que definem o chamado «índice de desenvolvimento humano». É disto e não das intrigas eleitorais que os partidos deviam ocupar-se. A última delas arrisca-se a ser mais uma receita para a abstenção, tanto nas eleições europeias como nas legislativas!