“O Observador assume os princípios fundadores da Civilização Ocidental, derivados da antiguidade greco-romana do Cristianismo e do Iluminismo.”
Este excerto do Estatuto Editorial do Observador demonstra que quem o escreveu estava consciente das raízes e dos alicerces dos valores que professa. Que os nossos valores civilizacionais são essenciais para garantir o “princípio da dignidade da pessoa humana e pelos valores da democracia, da liberdade e do pluralismo” e para colocar “liberdade no centro das suas preocupações” e defender “uma sociedade aberta, com instituições respeitadoras da lei e dos direitos individuais”.
Não é certamente um statement religioso ou confessional, mas um reconhecimento da importância que as nossas raízes, também religiosas, têm para a manutenção do regime liberal.
Em “A Arrogância Fatal”, Hayek fala-nos exatamente da importância da religião para a manutenção da ordem liberal. Independentemente das crenças de cada um, é inegável que as religiões ajudaram a moldar e a consolidar um conjunto de normas sociais que são fulcrais para a manutenção do nosso regime liberal. É impossível que cada um de nós perceba exatamente como funciona o mundo, na sua multiplicidade de fatores, fenómenos e relações humanas. A religião ajuda a cimentar as normas que a experiência, ao longo de séculos, demonstrou resultarem.
A “Arrogância Fatal”, de resto, consiste exatamente na crença de que se compreende completamente o mundo e de que se pode intervir na ordem social, mantendo apenas aquilo que nos interessa a descartando o resto, sem que isso tenha consequências.
Num dos seus artigos mais recentes no Observador, Patrícia Fernandes recorre a Chesterton para demonstrar que só podemos eliminar aquilo que percebemos. Tal como ninguém começa a demolir as paredes de uma casa sem saber como ela se sustém.
Este reconhecimento é exatamente o que falta a uma larga fatia da nossa sociedade, desde a esquerda a alguns ditos liberais.
Falta àqueles que se proclamam defensores das mulheres, dos homossexuais e das minorias em geral, mas simultaneamente negam a necessidade de salvaguardar a nossa base cultural face à chegada massiva de imigrantes oriundos de países onde esses direitos são aniquilados. Parecem acreditar que a liberdade e os direitos de que se usufrui por cá são fruto do acaso, que não derivam da nossa herança cultural e civilizacional, da qual podemos abdicar. No fundo, é o mesmo pensamento que leva a querer taxar e castigar os mais bem sucedidos da sociedade, porque o seu sucesso só pode ser fruto do acaso e nunca do mérito.
Falta também àqueles “liberais” que, depois de um silêncio ensurdecedor, começam a falar de Milei, mas sempre ressalvando que só concordam com ele “na economia”.
Mas Milei não é só economia, é sobretudo defesa da cultura que permite que o capitalismo se mantenha. Milei percebe que é impossível manter o telhado, se demolirmos as paredes. É impossível querer manter a liberdade económica abdicando de tudo aquilo que a sustenta.
É por isso que Milei é intransigente na defesa da liberdade, da vida e da propriedade privada. É por isso que Milei insiste na defesa da tradição cristã, é por isso que recusou assinar o “Pacto para o Futuro” da ONU, é por isso que combate o coletivismo do movimento LGBT, é por isso que defende uma coligação das nações livres (com Israel, EUA, Argentina e Itália à cabeça).
Milei compreende que o liberalismo não é apenas um modelo de gestão do Estado, é um projeto de civilização. E por isso a sua revolução começa na cultura.
Negar isto é, mais uma vez, acreditar no acaso, acreditar que o capitalismo e a liberdade económica são mais significativos nos países de cultura judaico-cristã por mero acaso e não porque os aspetos culturais sejam importantes para a sua existência.
Falta a muitos defensores da sociedade liberal aquilo que sobra aos seus detratores. Esses compreendem bem a natureza da sua luta. Ser anticapitalista não é só combater o capitalismo como modelo económico, é defender o islamismo sobre o catolicismo ou o judaísmo (aliás, a religião é coisa tacanha das mentes conservadoras, que deve ser combatida em nome do progresso. À exceção do islamismo, essa deve ser protegida de toda e qualquer questão ou objeção), é defender o wokismo, é atacar a ideia de família. Se os inimigos da liberdade estão bem conscientes da sua luta, seria bom que os seus defensores também estivessem.
Querer manter os alicerces da nossa cultura é muitas vezes confundido com imobilismo e com oposição ao progresso. Mas tal é objetivamente falso. A nossa cultura e princípios civilizacionais vão, felizmente, sendo alterados. Foi por isso que acabou a escravatura, que as mulheres são hoje iguais em direitos, que o voto é universal, que existe liberdade de expressão, etc. A nossa sociedade nem sempre foi de índole liberal. Se hoje o é, deve-o ao progresso. Mas a um progresso orgânico, gradual e feito em liberdade, não a um progresso imposto por utópicos dirigistas.
Querer manter os alicerces também não é ditar como cada um deve viver. A existência de normas sociais requer uma adesão maioritária, mas não compromete individualmente cada pessoa. É por isso que alguns estranham que a líder da AfD seja casada com uma mulher imigrante, sem que percebam que isso não é incompatível com a defesa de controlos à imigração nem com o entendimento de que o padrão da heterossexualidade é essencial à preservação da sociedade. Da mesma forma, reconhecer a importância da tradição judaico-cristã não requer que se professe qualquer religião. Padrões não são prisões, são referenciais que mantêm a ordem.
Tenhamos em mente, o mundo em que vivemos pode não ser perfeito. Mas é um mundo que resulta de um aperfeiçoamento ao longo de séculos, edificado sobre valores, princípios e tradições. Cabe-nos continuar a aperfeiçoá-lo. Mas para o aperfeiçoar é necessário começar por não o destruir. Qualquer edifício, físico ou moral, pode ser melhorado se lhe destruirmos as fundações. Para o podermos melhorar, precisamos de compreender o que o mantém de pé. Porque ninguém vive num telhado sem paredes.