Não tente pensar nos verdadeiros poderes que tem um Presidente da República – tudo lhe pareceria, provavelmente, um pouco ridículo. A forma como começamos a discutir estes assuntos com anos de antecedência, as horas diárias dedicadas na imprensa a acompanhar campanhas e debates ao milímetro da declaração ou potencial erro fatal, as análises científicas, o comentário levado ao nível da autópsia, as sondagens de toda a sorte e a própria vontade com que os candidatos competem pelo lugar. O processo é desproporcional ao resultado. Tudo isto só faz sentido porque não é bem um Presidente que procuramos, mas um pai. O ancião da tribo. A escolha natural, muito mais do que uma disputa eleitoral.
O regime consagrado na nossa Constituição casa-nos com o governo. Todos os dias coabitamos com ele, com as suas decisões, com a sua gestão da casa e das contas, com as suas manias – até ao dia em que nos sobe a mostarda ao nariz e, então, ele pia de novo mais fino e tenta reconquistar com gestos românticos, como uma nova auto-estrada ou uma ligeira descida de impostos. Não poucas vezes, fruto dos tempos, a coisa dá em divórcio. Litigioso. Corremos para os braços da oposição da forma mais descarada possível. Agora, sofre, ex-primeiro-ministro da minha vida… Agora é que me vais dar o valor.
Nada mais diferente da relação que temos com o Presidente. Votamo-lo, desde logo, para uma relação mais longa – cinco anos, sendo que nada, em princípio, a pode derrubar antes disso –; depois, não por acaso, temo-la renovado sempre por mais cinco. E não houvesse um limite constitucional de dois mandatos e veriam: talvez Eanes ainda estivesse em Belém, provavelmente mais venerado do que nunca. Votamos um Presidente não como quem escolhe, mas como quem reconhece: é aquele e não pode ser outro. É chegada a vez dele. E uma vez assumido o lugar, todos, até hoje, o têm ocupado fazendo a mesma interpretação da função: serem o Presidente de todos os Portugueses. Antigo partidário sublimado noutra condição. Pai que trata os filhos todos por igual.
O que torna esta eleição tão incerta e interessante não é, portanto, o poder que nos preparamos para dar a um dos actuais candidatos; é a constatação de que, após 51 anos de democracia, se nos acabaram os pais.
Eanes foi o garante militar da transição para a democracia pluripartidária; Soares o pai civil desse regime democrático; Cavaco o que a levou pela mão a caminho da convergência com a Europa. Sampaio, o menos conhecido à chegada a Belém para a qual contribuíra, essencialmente, o cansaço do cavaquismo, compensaria, ao longo dos mandatos, actuando como o mais institucional dos Presidentes e, para alguns, o melhor de todos eles. Marcelo, por fim, já não era bem um pai, mas na sua figura reconhecida de tantos anos a entrar em casa dos portugueses pela televisão, aos domingos, fez as vezes, pelo menos, de um tio, de um tutor. Agora, pela primeira vez, não temos mais como adiar ou maquilhar a questão: eis-nos enfim confrontados com o desaconchego da orfandade.
Talvez se a geração anterior não tivesse desertado a sensação de desconforto fosse menor. Estava na vez de Guterres ou Durão, mas ambos partiram há muito para prestigiantes cargos internacionais, que, tipicamente, só os deveriam engrandecer perante o proverbial paroquialismo nacional, não fosse aos dois ter-se-lhes colado a imagem de fugitivos, um para evitar o “pântano”, outro por carreirismo pessoal. Justa ou injustamente – não é isso que está em causa. Sócrates foi a calamidade financeira e a sua história ainda segue em tribunal; Passos o feitor da austeridade – e parece cada vez mais evidente que ainda voltaremos a ouvir falar dele. Mas por agora e por mais que se esforcem, os candidatos disponíveis não conseguem evitar a sensação de que quem se apresenta diante de nós em finais de 2025 já não são os pais da democracia, nem os tios, nem sequer os príncipes herdeiros; são os segundos filhos, os deserdados, uns infantes disto ou daquilo, antigos ministros ou figuras passageiras da corte.
Não admira que os candidatos das famílias tradicionais não se apresentem como conseguindo granjear unanimidade sequer em sua própria casa – nunca a tiveram; nunca as lideraram, senão em momentos de transição. E que outros surjam, de partidos novos, aparentemente com mais vigor e vontade de reordenar o equilíbrio de poderes.
Nada de errado – é o processo lógico da História. Mas, aos 51 anos, a democracia portuguesa parece encontrar-se disponível para adopção. Dizia-lhe que tomasse tino e assumisse, duma vez por todas, a responsabilidade e liberdade de tomar conta dela mesma. Mas vai que ainda lhe dá para saltar da orfandade directa para alguma crise da meia-idade.