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Todos os dias o SNS é notícia e todos vamos construindo as nossas perceções sobre este serviço estatal de saúde que continua a ser um dos maiores ativos da viragem política ocorrida em 1974. Se dermos crédito à imagem mediática, o panorama é negro, embora todos saibamos que talvez seja mais acinzentado, mas é sabido que o sistema está subfinanciado e nunca poderá ser diferente enquanto o país for o que é hoje.

Cumulativamente com esta causa maior, há muitos outros fatores que decorrem da evolução dos tempos e que não se compaginam com um figurino que teima em não evoluir e que permanece ancorado a princípios ideológicos que a realidade económica e social desmentem. Desde logo seria mais útil falar em Sistema Nacional de Saúde e encarar o futuro da prestação de cuidados como a resultante do conjunto dos subsistemas estatal, privado e social.

Por razões familiares experimentei muito recentemente a última linha dos serviços de saúde. A chamada para o INEM foi atendida com rapidez, os bombeiros chegaram logo de seguida, fui autorizado a seguir na ambulância, mas fiquei à porta da urgência do Hospital São Francisco Xavier

Não se trata, como logo alguns dirão, de criar cuidados para ricos e pobres, isso já existe e não parece que vá deixar de acontecer nos próximos tempos, mas sim de articular da melhor forma possível a capacidade instalada de cada um, os nichos de especialização e a proximidade aos utentes. O financiamento global haveria de ter uma parcela suportada por todos nós através dos impostos e o financiamento específico pago por cada um em função do seu rendimento e opções.

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Associar sempre alguns défices de qualidade do SNS ao subfinanciamento é uma falácia desculpabilizante pois nem só de dinheiro se faz um bom serviço e no caso de serviços de saúde há três fatores gratuitos que fazem toda a diferença — rapidez, simpatia, humanismo. Vamos por partes.

Rapidez não significa atendimento rápido num centro de saúde ou hospital, significa contacto imediato com o utente, o que pode apenas querer dizer uma chamada telefónica com quem procura o serviço. Mas, atenção, nas basta disponibilizar o serviço Saúde 24, importa que o contacto se estabeleça prioritariamente com “uma voz conhecida e amiga”, o enfermeiro ou o médico de família.

Simpatia é o que mais falta nos serviços públicos portugueses pois muitos carregam para o serviço os seus dramas pessoais e descarregam em quem lhes aparece pela frente as frustrações e dores da alma próprias de quem vive quotidianos difíceis. Quem recorre aos serviços de saúde é porque está fragilizado, logo mais carente e necessitado de compreensão, conforto, empatia, de alguém que ajude a superar momentos quase sempre de ansiedade e preocupação.

Finalmente, humanidade no tratamento, olhar para o outro como se olha para um ente querido ou, como diz uma conhecida oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado”.

Infelizmente, em muitas urgências hospitalares nada disto acontece e é muito grave o que lá se passa. Só quando nos confrontamos com a realidade percebemos a distância a que estamos de uma dimensão humanizada e respeitadora dos mais elementares direitos dos doentes, sejam jurídicos e legais, sejam direitos humanos básicos.

A triagem de Manchester pode ser muito positiva relativamente às antigas opções, mas necessita urgentemente de um upgrade para poder responder à nova realidade demográfica que leva todos os dias às urgências hospitalares uma percentagem avassaladora de doentes idosos e que necessitam de cuidados especiais.

A preocupação de atacar a doença é legítima, mas por detrás da doença está a pessoa e esta não se esgota na circunstância que a traz à urgência. Cada doente é um caso e não se pode proceder como se uma urgência fosse uma linha de montagem em que cada modelo está identificado com uma cor e uma marca e se lhe aplica o algoritmo respetivo.

Pior que tudo foi ver o meu pai completamente alterado, agitadíssimo, com uma máscara para o ajudar a respirar e amarrado à maca “por razões de segurança”.

Acresce que muitos dos que trabalham nas urgências não têm especializações compatíveis com a prestação de cuidados a idosos e pressionados pelas inacreditáveis condições em que exercem as suas funções, dificilmente conseguem compatibilizar a sua formação técnica não especializada em cuidados geriátricos com a atenção, carinho e humanidade dos cuidados a que os idosos doentes têm direito.

Por razões familiares experimentei muito recentemente a última linha dos serviços de saúde. A chamada para o INEM foi atendida com rapidez, os bombeiros chegaram logo de seguida, fui autorizado a seguir na ambulância, mas fiquei à porta da urgência do Hospital São Francisco Xavier e tive de “abandonar” o meu pai porque invocaram uma norma para contrariar o direito legal de acompanhar um familiar idoso (98 anos).

Começou então a mais dura prova de sobrevivência do meu pai de que só me apercebi quando uma funcionária mais sensibilizada para a situação me permitiu entrar. O choque foi imenso, dezenas de pessoas, maioritariamente idosas, em macas “estacionadas” como automóveis num parque de estacionamento, mas pior que tudo foi ver o meu pai completamente alterado, agitadíssimo, com uma máscara para o ajudar a respirar e amarrado à maca “por razões de segurança”.

Ele que estava tranquilo quando entrou e completamente lúcido, estava agora comportamentalmente irreconhecível, revoltado e a esforçar-se para arrancar as amarras. Falei com as enfermeiras que me justificaram o quadro pela agitação em que ele estava. Pedi para falar com a médica responsável; foi uma conversa sóbria em que analisámos a possibilidade de o sedarem, mas que ela rejeitou argumentando com razões terapêuticas.

Não discuto a razoabilidade técnica, mas permito-me opinar se nestes casos o conforto do doente não deveria preferir à eficácia terapêutica e se a família ou o próprio, quando consciente, como era o caso, não deveriam ter uma palavra a dizer.

Um pouco mais tarde, por deferência de uma enfermeira chefe de equipa, consegui permanecer junto dele cerca de uma hora. Pedi para o desamarrarem, o que foi aceite com a minha responsabilização pelo que acontecesse, e ele acalmou-se, relaxou e descansou.

E durante cerca de 24 horas o meu pai ali esteve sozinho, sempre amarrado, agitado e descompensado até o transferirem à noite para o hospital Egas Moniz. A primeira visita era à 1 da tarde, durante toda a manhã telefonámos para o hospital na esperança de obter notícias e o telefone nem sequer tocava. Quando o visitámos estava em coma e aí, finalmente, tudo mudou. Facilitaram a entrada de alguns membros da família e permitiram-nos acompanhá-lo até exalar o último suspiro 6 horas mais tarde.

Não me move a ideia de contribuir para apoucar o SNS nem os seus profissionais, não quero apresentar queixas nem mover processos judiciais a ninguém, quero apenas que o “sacrifício” do meu pai e de todos quantos passem pelo mesmo possa ter um efeito positivo nas políticas de qualidade dos hospitais portugueses

Dir-se-á que ainda bem que pudemos acompanhá-lo nos últimos momentos, é verdade, mas a mágoa com que ficámos de nas horas anteriores o doente ter sido sujeito a uma autêntica tortura nada nem ninguém no-la vai fazer esquecer e a última imagem que tenho do meu pai consciente é de um ser humano profundamente alterado em luta com a doença e, sobretudo, com as condições em que os profissionais de saúde, responsáveis naquela ocasião, o colocaram, sem que os familiares pudessem fazer alguma coisa a não ser deixá-lo entregue a si próprio nos últimos momentos de lucidez.

Mal podia imaginar que ao levar o meu pai à urgência na busca de solução para o mal que o acometera, uma pneumonia diagnosticada na urgência, o estava a arrastar para um verdadeiro inferno terreno e para a morte. Não posso afirmar que houve negligência, falta de profissionalismo ou erros clínicos, admito que a morte seria inevitável, mas tenho a certeza de que o meu pai e todos os outros doentes em circunstâncias idênticas têm direito a que as opções terapêuticas estejam mais em linha com o estado da arte em geriatria e sejam, pelo menos em certos casos, discutidas com os próprios, quando conscientes, ou com as respetivas famílias.

Também lhes assiste o direito, aliás legalmente reconhecido, de serem acompanhados por um familiar e este direito não deve poder ser restringido, exceto em condições muito excecionais, bem como a um tratamento mais humano e mais respeitador da pessoa e do cidadão.

Não me move a ideia de contribuir para apoucar o SNS nem os seus profissionais, não quero apresentar queixas nem mover processos judiciais a ninguém, quero apenas que o “sacrifício” do meu pai e de todos quantos passem pelo mesmo possa ter um efeito positivo nas políticas de qualidade dos hospitais portugueses em prol de cuidados mais adequados e mais humanizados.

Por isso, irei nas instâncias próprias e usando os meios disponíveis, procurar os esclarecimentos e justificações que a memória do meu pai exige e que os direitos de cidadania salvaguardam.

Fundador e Presidente da Caregivers Portugal, Associação Portuguesa de Cuidadores