As esquerdas em Portugal andam desesperadamente à procura de fascistas. Nos últimos anos, descobriram vários: Trump, obviamente; Orban; Salvini; mais recentemente, Bolsonaro; há uns anos, Passos Coelho e Portas e até Merkel (muitos deles já se esqueceram do último nome, o que mostra o pouco respeito que têm pelas suas opiniões). A Europa, e as Américas estão assim cheias de fascistas no poder. O ponto mais estranho é que os “fascistas” de hoje são muito diferentes dos fascistas de ontem, Mussolini e Hitler. Não invadem os países vizinhos, não enchem as prisões de presos políticos, nem sequer os enviam para campos de concentração, e não provocam crises humanitárias com dezenas de milhares de refugiados. Uma das “fascistas”, Merkel, até recebeu um milhão de refugiados na Alemanha. Outro “fascista”, Trump, recusa enviar tropas americanas para países estrangeiros. Pelo contrário, quer fazer regressar essas tropas para os Estados Unidos.

Há, no entanto, quem use a força militar contra os seus vizinhos, como a Rússia. Mas as nossas esquerdas (salvo honrosas excepções como por exemplo Francisco Assis) nada dizem sobre os atropelos militares de Putin. Erdogan, Putin e o governo chinês enchem as prisões com presos políticos, mas as nossas esquerdas guardam as suas indignações para os tweets de Trump e de Bolsonaro. Nicolas Maduro provoca um desastre humanitário, inundando os países vizinhos de refugiados venezuelanos, mas as nossas esquerdas preferem atacar Orban e Salvini. Pelo menos, os húngaros e os italianos, ao contrário dos venezuelanos, ainda conseguem viver nos seus países. Além disso, nunca ouvimos estes novos “fascistas” a proferir qualquer elogio a Hitler. Mas o nosso governo é apoiado por partidos e políticos que nunca esconderam a sua admiração por ditadores sanguinários como Estaline e Mao. Não deixa de ser engraçado e comovente ouvir os filhos e os netos (e as filhas e as netas) dos regimes comunistas soviético e chinês a exprimirem preocupações com a saúde política das democracias.

Quando achamos que já ouvimos de tudo das nossas esquerdas, elas conseguem ainda ir mais longe no ranking dos disparates. Agora ficaram chocadas com o tempo de antena de um tipo chamado Mário Machado, um nacionalista e racista primário, a elogiar Salazar. Foi patético e acabaram a dar uma importância ao senhor Machado, com a qual ele nunca terá sonhado. Fui ver a gravação do programa, o qual nunca teria feito sem as reações a que assisti. Se alguém acha que aquele tipo consegue conquistar um voto com aquele discurso, ou não conhece ou não tem qualquer respeito pelos portugueses.

Vamos, contudo, aceitar que figuras racistas e nacionalistas radicais, como Mário Machado, são um problema que deve ser combatido. Se os políticos querem ir um pouco além das reações histéricas a que assistimos, deixo aqui uma proposta. As claques organizadas dos clubes de futebol, sobretudo o Benfica, o Porto e o Sporting, são as escolas mais eficazes do discurso racista e xenófobo. Estão cheias de “Mários Machados”. Todas as claques são protegidas e apoiadas pelos presidentes dos grandes clubes portugueses. Presidentes com quem os políticos portugueses, que se indignam com o “fascismo”, gostam de partilhar camarotes nos estádios de futebol. Eis a proposta: os líderes políticos não devem aceitar qualquer convite para jogos de futebol de clubes com claques que albergam grupos de “neo-nazis”. Obviamente, nunca aceitarão a minha proposta. É muito mais fácil atacar o Mário Machado. E continuar a partilhar camarotes com os protectores dos “Mários Machados” dos Diabos Vermelhos, da Juve Leo e dos Super Dragões.

Mas há um problema mais sério e mais profundo que explica o histerismo anti-fascista das esquerdas. Já não têm mais nada para oferecer aos portugueses a não ser tentar assusta-los com o “regresso do fascismo.” As esquerdas deixaram de ter um programa politico. Não há dinheiro para grandes investimentos públicos. E as suas clientelas políticas e a base do seu poder politico impedem os governos de esquerda de fazer reformas. Sem capital para distribuir e sem reformas para mobilizar, as esquerdas limitam-se a gerir o declínio, contando com os recursos da integração europeia para tornar o empobrecimento menos doloroso, mesmo que seja à custa do aumento do endividamento. Quem nada tem para oferecer para o futuro, conta com o passado para se salvar. As esquerdas começaram a construir o nosso regime contra o “fascismo de Salazar”. Agora precisam de novos “fascismos” para o salvar. Sabem que nada mais lhes resta para oferecer aos portugueses.