Quando eu era jovem, a esquerda dizia representar o «povo».  A conversa ainda me impressionou quando frequentava o liceu. Era a ingenuidade própria da idade. Mas durou pouco. Logo percebi que a maioria do povo não dava por isso, e que a esquerda vendia gato por lebre. As coisas não batiam certo. Mas a esquerda persistiu, bem vistas as coisas, até hoje.

Mas de que «povo» é que fala? A ideia de povo é muito antiga. Poucas noções são tão ambíguas como esta. Cada um a invoca consoante lhe interessa.

Começou por coincidir com o conjunto dos cidadãos gregos e romanos, um grupo, afinal, muito restrito que se distinguia dos inapresentáveis metecos e bárbaros. Na Idade Média o povo era um «estado» regido por um estatuto próprio que, diga-se em abono da verdade, no nosso país compreendeu sempre direitos de representação política. Basta ler Fernão Lopes, conhecer alguma coisa da história municipal do nosso país e saber interpretar os painéis de S. Vicente.  Tudo isto apesar de uma série de patranhas que os programas oficiais do ensino obrigam os professores a dizer às crianças.

Depostas as monarquias absolutas, que o diminuíram, o povo voltou ao de cima pela mão do abade Sieyés, antes da revolução francesa. Povo passou a ser o «terceiro estado» ou seja, aquela maioritária parte da população que para nada contava politicamente durante a monarquia absoluta. O que era o terceiro estado, perguntava Sieyés? Nada. O que representava? Tudo, asseverava. Depois de revolução francesa – que foi um desastre político, mas um magnífico alfobre de ideias -, o povo universalizou-se, e passou a ser em vez de um bando de sans-cullotes ignorantes e sanguinários, espicaçados pelos oportunistas e revanchistas que nestas alturas sempre aparecem, o conjunto sereno dos citoyens finalmente iguais e livres do preconceito. A razão imperou. Hegel é que sabia, pois que, como previa, a história ia realizando, a pouco e pouco, o destino racional do homem.

Mais tarde – já com o terceiro estado cada vez mais alargado e a votar em cada vez maior número -, garantia Marx, depois de tresler Hegel, que afinal o povo era o conjunto dos proletários, e que não havia hipótese de entendimento com os não-proletários. A vida política era baseada numa luta de vida e de morte com o capital. Não havia diálogo possível. A relação não era de diálogo, era de antagonismo. Marx instituiu a guerra civil arvorada a «filosofia da praxis», ou seja, da transformação radical daquilo que não agradava ao partido dos proletários.

No nosso país as coisas atingiram o paroxismo nos anos de 1974 e 1975. De um lado estava o «povo» acolhido junto às sedes do PC, e, do outro, os malvados, ditos «lacaios do capital», «parasitas», «sabotadores», «açambarcadores» sempre a «morder a nuca do povo», e outros «bandalhos» da «burguesia». Pelo meio ficavam uns tolerados pequenos e médios proprietários, uns pequenos e médios comerciantes, uns pequenos e médios marteleiros, uns pequenos e médios… nem eles sabiam bem o quê, mas que com a avançada para o socialismo sob a direcção do «partidão» acabariam por engrossar o rebanho dos camaradas. Não se lembram? Lembro-me muito bem, embora não tenha sido directamente incomodado por tais inanidades (ainda era muito novo). A esquerda comunista e radical lá conseguira o seu «povo». E voltará a tentar quando puder. É só darem-lhe oportunidade para isso. A razão retrocedera para o grau zero. Como dizia aquele inteligentíssimo militante do PC oriundo, creio eu, do Couço ou lá dos arredores: «Se é mau para os ricos é porque é bom para nós». E outro ainda, poemando em pé quebrado, afirmava que um coelhinho transviado do couto de caça era «da burguesia». Que atrasados mentais!

E hoje, o que é o povo? Ninguém sabe muito bem. Mas uma coisa é certa, parece difícil defini-lo a partir de noções abstractas e, por outro lado, é imperioso reconhecer o especial conflito de interesses próprio de uma sociedade plural, aberta, mais rica, nivelada e instruída. O conflito não é o mesmo que existia em meados do século XIX e que Marx conheceu. É muito menos radical, por um lado e, pelo outro, muito mais complexo.

Cedo se começou a perceber que perante a realidade do conflito a política não se esgota no Estado e transmite-se para as entidades geradas espontaneamente pela sociedade civil. Até cá em Portugal se percebeu isso, e daí a actual relevância política e jurídica das entidades sociais, algumas até com poderes de autoridade como as associações profissionais e comerciais e de vitivinicultores, as universidades públicas e privadas, os sindicatos, os grémios, as federações desportivas, as comissões de trabalhadores, e outras sem aqueles poderes, mas beneficiando de estatutos privilegiados, como as associações culturais e beneméritas, as entidades sociais como as organizações não governamentais, culturais e de defesa do ambiente, p. ex., as fundações, os clubes desportivos, etc…

Estes grupos de interesse são fundamentais para abrir a democracia política à sociedade civil e para aproximar desta os órgãos representativos. Entre estas entidades e o Estado desenvolve-se uma espécie de cadeia de alimentação recíproca como numa máquina cibernética. Na era actual o povo identifica-se com esta sociedade civil viva e dinâmica. A democracia política não começa nem acaba dentro das paredes dos parlamentos. Claro está que os grupos de interesse não estão todos ao mesmo nível, porque a massa associativa não é a mesma, nem os recursos de que dispõem, nem o acesso aos mecanismos de decisão, ou seja, a respectiva influência. Podem até contribuir para acentuar desigualdades e discriminações. Necessitam, portanto, de uma disciplina jurídica muito cuidada mas não intrusiva.

Um pequeno parêntese para lembrar que o poder político no nosso país, velho inimigo da sociedade civil, tentou (e continua a tentar) em diversas épocas históricas e conjunturas, antes e depois do 25 de Abril, eliminar a importância política daquelas entidades civis ou, não o logrando, controlá-las, mas sem nunca o conseguir totalmente. A estratégia do Estado português foi, é e continuará a ser manter fracas as partes que integram a sociedade civil. A democracia portuguesa é, sempre foi e não há vestígios noutra direcção, uma democracia política, mas pouco ou nada liberal. Em Portugal ainda não se percebeu claramente que democracia e liberalismo são inseparáveis. Já no tempo de Herculano era assim. São dele as seguintes palavras: «Ficámo-nos por aquela parte do liberalismo que se chama democracia».

Mas o povo hoje não acaba aí. E cada vez menos. Para o compreender temos de passar do direito para a sociologia, sempre dita mais perto das realidades. Seja como for, perante uma realidade tão fragmentária e complexa não é fácil martelar as cabeças dos incautos para nelas encaixar ideias simples e rotundas do tipo: de um lado estamos nós, o «povo» e do outro os «fascistas», exploradores… e a peganhenta lenga-lenga habitual.

A realidade é que hoje em dia já não há povo nem nada que se pareça com aquilo que a modernidade predicava dele: razão, igualdade, bom-senso, respeito pela causa pública, solidariedade. Nada disso. A democracia de massas dos nossos dias permitiu ao povo dividir-se em grupos, grupinhos e grupelhos cada um em bicos de pés a berrar mais alto do que os outros e a atirar com a sua «liberdade» à cabeça do próximo. É isto a «pós-modernidade», ao que dizem. E que grupos são esses? Também ninguém sabe muito bem. Alguns já alcançaram um estatuto de cidadania, aliás, mais que merecido, como os deficientes das forças armadas, os invisuais e outros carenciados do nosso apoio, os antigos combatentes e os LGBT. Mas o pior é que surgem novo grupos como cogumelos todos os dias sem nada a ver com qualquer ideia de interesse colectivo e de bem comum a quererem tratamento privilegiado: imigrantes ilegais, utentes das scuds, motards de escapes abertos a quererem fazer ainda mais barulho, adeptos do tuning automobilístico, nudistas, ciclistas disfarçados de extra-terrestres e trotineteiros a circularem impunemente nas ruas mais movimentadas, donos dos animais mais inconvenientes, esquizoides, toxicodependentes, marginais de toda a ordem, «artistas» falhados a reivindicar subsídios, proletários «intelectuais» a quererem atenções, refractários do ensino, delinquentes, energúmenos de toda a espécie e feitio, eu sei lá… É este o novo «povo». A razão desapareceu e a cultura é sua inimiga.

O que tem este «povo» em comum com o antigo povo? Nada. Servirá a ideia de uma maioria estável e racional? Serve precisamente o contrário. O «povo» é agora uma colecção de minorias voláteis, sem interesses estáveis e bem definidos, oscilando ao sabor das marés e consequentemente permeável a toda a corja de aldrabões e vigaristas que lhe aparecer. Já não há povo. Já quase só há plebe. E esta vive das emoções baratas e do irracionalismo.

Como se reage a isto nos dias de hoje? Como os partidos têm de ganhar as eleições e as diferenças nos resultados eleitorais entre os partidos principais não são avassaladoras, toca a sorrir a esta nova malta prometendo-lhe mais do que promete o partido concorrente. É por isso que há por vezes claras oscilações nos resultados eleitorais. Traduzem qualquer mudança esclarecida e consistente de opinião? Nada disso. Significam simplesmente que o partido concorrente lhes prometeu mais. Os partidos transformam-se numa espécie de «albergue espanhol» ou de partidos «topa a tudo», figura em que se especializou o conspícuo dr. Costa.

E assim vamos. A plebe está no poder. É, portanto, indispensável que as pessoas deixem de pensar e de fazer perguntas. E como é que os partidos vencedores das eleições agradam à plebe? É fácil, é barato e dá milhões: facilitam o ensino, destroem solidariedades e companheirismos em nome de um hedonismo sem limites, fornecem-lhe lixo televisivo e futebol de manhã à noite e, sobretudo, habituam o novo plebeu à ideia de que ele não é responsável por nada, nem tem de responder perante ninguém. Tem direito a tudo e tudo é fácil, tudo lhe é permitido e qualquer extravagância sua entra logo a fazer parte da próxima estratégia eleitoral de aproximação ao eleitor. Só tem de pôr lá o voto e logo as rendas baixam, os salários e pensões aumentam, a habitação passa a ser boa e barata, junto ao mar, a filha vai ser «actriz» e «famosa» e há de tudo para todos. Como já aqui disse (ou talvez noutro sítio), a estratégia para a plebe é infantilizá-la e tratar o eleitor como uma criança mal-criada a quem se prometem rebuçados. Não se trata de promover a despolitização como no tempo do Salazar de modo a alienar o povo em favor de uma dúzia de cromos «em boa hora chamados à governação», mas, mais simplesmente, de imbecilizar os eleitores ou seja, de retirar qualidade racional à democracia.

Parafraseando o nosso Camões de Os Lusíadas (ainda falam dele nos liceus ou será só para dizer que Camões era um macho branco, de uma família aristocrática, imagine-se, homofóbico, esclavagista e racista?) «o fraco rei faz fraca a forte gente».