A semana passada, durante a primeira reunião formal da comissão política da candidatura de Marques Mendes, Francisco Pinto Balsemão, militante número 1 do PSD, fundador do Expresso e antigo primeiro-ministro lançou um grito lancinante. Balsemão disse que era necessário cerrar fileiras para apoiar Marques Mendes e garantir a sua vitória na corrida a Belém.

Balsemão representa a velha elite portuguesa que dominou o país desde antes da democratização, garantindo a continuidade de um conjunto de centros formais e informais de poder, independentemente do governo de turno. Pela primeira vez na vida, esta elite está verdadeiramente assustada. Perdeu o controlo da situação. Os artigos de jornal e as intervenções públicas sucedem-se. É preciso garantir, clamam, que Ventura não rompe na totalidade com alguns dos pressupostos fundamentais do sistema.

Houve um momento em que Ventura teria sido fácil – e barato – de cooptar. Ele próprio, como bom arrivista, teria ficado imensamente contente se tivesse obtido uma sinecura na esfera do PSD. Diferentemente, hoje, com o grande prémio tão próximo – a possibilidade de exercer o poder sem as rédeas da velha elite – é evidente que Ventura tem todos os incentivos para continuar a correr em pista própria, incluindo concorrer a Belém. Já se tornou evidente, inclusive para o próprio, que é apenas uma questão de tempo até ao Chega conseguir ganhar as eleições legislativas e estar em condições de formar governo.

A ironia do apelo de Balsemão consiste em este não ter percebido, pelo menos nas suas declarações públicas, que as fileiras às quais se dirige já não existem, e que, para além disso, aquelas que resistem representam uma parte muito menor do eleitorado do que há 10 ou 15 anos. No fundo, a sua mensagem dirige-se a um mundo que acabou. As suas fileiras, mesmo estando completamente cerradas e mobilizadas, já não são suficientes para garantir que Marques Mendes vá avançar tranquilamente para a segunda volta.

As vitórias de PS e PSD ao longo dos últimos anos foram ajudando a mascarar a perda constante de apoio dos candidatos do centro no eleitorado. A análise dos números absolutos ajuda-nos a ter uma noção muito mais fina da erosão do centro – ao qual Gouveia e Melo se dirige na sua mensagem – na estrutura de competição política. Muito antes do aparecimento do Chega, este centro já estava em decomposição, com uma bela parte do eleitorado desmobilizado para a abstenção.

Em 2011, por exemplo, um momento de viragem indiscutível na política portuguesa, PSD e CDS somavam, juntos, um total de 2.8 milhões de votos. Em 2025, os mesmo partidos foram a votos juntos e conseguiram apenas 1.9 milhões de votos. Perderam 900 mil votos. É evidente que a estrutura de competição política é, neste momento, muito diferente. No entanto, mesmo uma mobilização total do centro-direita, o espaço natural da candidatura de Marques Mendes, mostra que o potencial eleitoral é, hoje, muito menor do que era em 2011, momento em que começou uma era político-social em Portugal que representou o fim definitivo do modelo de economia política estabelecido desde o 25 de Abril.

Muita gente clama que ainda é tempo de travar o Chega. António Barreto escreveu no Público que um governo competente, em que os vícios clássicos dos partidos estivessem ausentes e que aumentasse de forma inequívoca o bem-estar dos portugueses teria ainda capacidade de fazer ressuscitar o centro. Tal como Balsemão, também creio que Barreto está equivocado. Em primeiro lugar, aquilo que pede parece-me ser impossível. Quando Montenegro ganhou as eleições em 2024, era já bem patente a força do Chega. Todavia, seja por incompetência, seja por falta de vontade, ou por estar exangue e sem ideias, o actual governo está meramente a gerir o país, sem qualquer ideia concreta do que possa ou deva ser feito no longo prazo. Sabendo já do perigo que o Chega representa, o PSD, para utilizar a metáfora de Balsemão, não cerrou fileiras. Muito provavelmente, queimou a última oportunidade de fazer reformas e aumentar o bem-estar nos moldes do ‘mundo de ontem’. Em segundo lugar, Ventura está, neste momento, do lado certo da História. O momento actual que vivemos em 2025, em que estão conjugadas a alienação das massas com uma revolução tecnológica de consequências ainda imprevisíveis, o declínio moral e económico do Ocidente, está a alimentar uma corrente de extrema-direita em todo o mundo. A existência simultânea de tantos partidos do molde de Ventura em tantas democracias avançadas pressupõe que existe um conjunto de condições que vão muito para além das pequenas causas do caso português.

Ventura fundou o Chega no sítio certo e na hora certa. As mesmas ideias, a mesma elite partidária, o mesmo empreendedor político (Ventura) e o mesmo povo poderiam ter dado resultados muito diferentes num momento diferente. O passado é um país estrangeiro.