1.     O caso de Mohamed Bouazizi e a ditadura no mundo árabe.

“Como esperam que eu ganhe a vida” ?

Esta frase foi proferida por Mohamed Bouazizi, antes de se regar com gasolina e pegar fogo a si próprio, depois ter sido humilhado e ignorado pelas autoridades tunisinas em 2010.

Bouazizi era um vendedor ambulante tunisino a quem foi confiscado um carrinho de legumes porque não tinha licença. Para além de ter sido esbofeteado publicamente por uma mulher policia, foi-lhe também confiscada a balança e cuspido na cara pela agente de autoridade. Isto, numa sociedade marcadamente machista. Humilhado, o vendedor ainda deslocou-se ao Governador local a fim de lhe ser restituído o material confiscado. Nem sequer foi recebido.

A imolação de Bouazizi foi o ponto de partida para a Primavera Árabe, movimento que mais tarde viria a eclodir com a queda de diversos ditadores naquela região. Bouazizi não era caso único. Para milhões de pessoas no mundo árabe o acto de Bouazizi foi o grito de revolta contra o sentimento de injustiças que tinham para com os seus governantes.

Ben Ali, ditador há décadas na Tunísia, foi o primeiro a cair. Hosni Mubarak no Egipto foi o senhor que se lhe seguiu. O movimento eclodiu em outros países árabes como Líbia, Bahrein e Síria. Se Kadaffi foi morto em outubro de 2011, outros líderes resistiram como Bashar – Al Assad que lançou uma guerra contra a própria população síria, contabilizando-se em mais de 400 mil mortos e milhões de deslocados, muitos deles hoje às portas da Europa.

Sendo evidente que estamos a falar de realidades sociais, culturais e políticas distintas – a política na região assenta num Islamismo intolerante – existe um denominador comum na tragédia de Bouazizi em demais zonas no mundo – a forma como muitas vezes os cidadãos se sentem destratados, ou mesmos humilhados pelos seus governantes.

O facto, é que os últimos 40 anos têm sido pródigos em reações espontâneas contra governos autoritários que levaram à queda de regimes comunista na Europa do Leste, Apartheid na África do Sul, ou as revoluções coloridas na Geórgia e Ucrânia. Em todos estes movimentos reacionários o cerne da questão não se fixa apenas na luta pela dignidade individual mas também pelo bem-estar coletivo, contra uma ditadura vigente a um pensamento único que retarda a emancipação e o bem-estar desses povos.

2.     O caso de Inhor Homenyuk  com o Governo Português.

Em Portugal, Estado de Direito Democrático, Ihor Homenyuk, cidadão ucraniano de 40 anos foi brutalmente agredido até à morte por inspetores do SEF, nas suas instalações, no Aeroporto de Lisboa.

O que faz o Governo Português? Para além de tentarem esconder o caso, 9 Meses após o sucedido, com a complacência do Primeiro-ministro e, de não apoiarem de imediato a família da vitima, com eventual direito de regresso – caso a Justiça viesse a apurar outros factos – o Ministro da Administração Interna prepara-se para promover a Diretora do SEF para um cargo criado à medida, onde irá ganhar mais do que ganhava antes, mais do que o próprio ministro, o Primeiro-ministro ou mesmo o Presidente da República…

Quais as semelhanças entre Mohamed Bouazizi e Ihor Homenyuik ? A indiferença do Estado. A pouca consideração pela dignidade humana. Com a agravante de Portugal ser um Estado de Direito Democrático.

3.     Um governo déspota

A pedra angular que vinca nas democracias liberais é a salvaguarda dos direitos, liberdades e garantais a qualquer cidadão num Estado de Direito Democrático, independentemente da sua etnia, credo ou confissão religiosa. É o garante dos direitos das minorias contra a maioria dentro de uma comunidade. O garante da liberdade individual dentro do coletivo.

Assim, se num primeiro momento seria intelectualmente desonesto culpar o governo português pelos actos cometidos por funcionários do Estado não podemos deixar de condenar veementemente, à posteriori, a promoção da Directora do SEF – pelas mãos do Ministro da Administração Interna – enquanto responsável máxima pelos funcionários que cometeram o crime. Tudo isto, com a complacência do chefe do Governo.

É o governo a premiar não apenas a incompetência mas também a atentar quer contra a dignidade humana junto da família da vítima, quer contra os princípios basilares que regem um Estado de Direito Democrático. Este episódio revela não apenas a falta de sensibilidade do Governo de Portugal para com a dignidade humana do cidadão comum. Revela também a total degradação moral vigente na República portuguesa.

4.     O caminho para a servidão

O facto é este: Portugal caminha a passos largos para a condição de país mais pobre da União Europeia. Os nossos filhos e netos viverão em condições piores do que as atuais. Ou sujeitam-se a trabalhos com baixos salários ou, indiscutivelmente, seguirão o caminho de mais de 800 mil nas últimas décadas, a emigração.

Os últimos anos 5 anos são disso um bom exemplo. Portugal viveu muito à conta do Turismo. Grande parte da economia assentou neste sector. Não é por acaso que as empresas mais afetadas pela pandemia são a Hotelaria e Restauração. O PS não soube ou não quis diversificar o tecido económico português durante quatro anos, num quadro de excelente conjuntura financeira internacional. A situação foi tão propícia que as vacas não só eram gordas como também voadoras. Palavras de António Costa.

Um governo que não cria riqueza, que apenas se preocupa na sua distribuição. Distribuição para os boys e girls do partido e empresas que há décadas vivem na sombra do Estado. Para o povo, as migalhas.

O Serviço Nacional de Saúde, já antes da pandemia, encontrava-se pela hora da morte. A Educação, ao invés de promover as igualdades e a mobilidade social, encontra-se pervertida por uma política segregacionista. A Habitação é apenas para quem tem dinheiro. Transportes públicos, salve-se quem puder. Proteção Civil – os fogos de 2017 e incidente em Borba, com a agravantes de toda a equipa da Proteção Civil em 2017 ter sido substituída meses antes da época dos fogos. Justiça – a não recondução de Joana Marques Vidal e a presente polémica entre a actual PGR e os Magistrados do Ministério Público são indicadores que não existe vontade em combater a corrupção.

O legado desta geringonça é a de uma maioria de esquerda que não soube melhorar a qualidade de vida dos portugueses. De um país que não cria oportunidades para os seus cidadãos. Que não soube criar esperança. Antes pelo contrário, deixa uma sociedade mais divida e descrente. Sem esperança no futuro.

5.     A ditadura do pensamento único e Guerra Junqueiro

Por último, os últimos 25 anos de Governo Socialista em Portugal – que apenas se ausentou do poder pós pântano político de Guterres ou da bancarrota de Sócrates – deixam indelevelmente, quer no espaço político português, nas suas instituições e nos media uma ditadura de pensamento único que determinaram a estagnação de um país que não cresce, que não cria riqueza, emprego e consequentemente oportunidade de vida para as gerações vindouras.

Se a questão do crescimento económico é um problema de raiz e estrutural para o futuro de Portugal a problemática de um certo pensamento único que domina a sociedade é outra, não menos grave.

Sendo já problemática a ausência de uma discussão séria sobre que modelo de desenvolvimento económico o país deve seguir, o legado da geringonça, a reboque das políticas identitárias do Bloco Esquerda, com suporte da ala radical do Partido Socialista é a de um país profundamente dividido, alicerçado num pensamento único, com base em temas como o racismo, a ideologia do género ou mesmo o modelo de distribuição da riqueza.

É dividir para reinar. Discutir o acessório para não discutir o essencial. Colocar pretos e ciganos contra brancos, ricos contra pobres, conservadores contra progressistas. Não há, nem nunca houve uma discussão série estes temas. São sempre os mesmos a defender a narrativa vigente nos diversos órgãos de comunicação social.

O pensamento crítico é pedra angular no desenvolvimento de qualquer comunidade. É sobre ele que pende a razão secular. Que tirou o homem das trevas para a luz. Que libertou o homem da Igreja, na sua relação com DEUS. É o advento da modernidade.

O espaço de discussão pública em Portugal está fortemente ocupado por pensadores de esquerda. Tentar chamar à razão é como atirar água de colónia para um chiqueiro com a falsa ilusão que o local tornar-se-á melhor frequentado. Um país que não debata abertamente estes temas é um país que não se liberta de si mesmo.

Esta maioria parlamentar, que para muitos iria mudar o país, é a mesma que está a conduzir o país, já não apenas para a condição de pais mais pobre da União Europeia como também para uma miséria económica moral e intelectual, enquanto entidade coletiva.

A mesma decadência nacional referenciada por Guerra Junqueiro há mais de cem anos:

“”Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas (… ) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter (…)  A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. (…)  Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”