No país governado por Vladimir Putin tornam-se cada vez mais frequentes actos de perseguição da oposição que conduzem a situações dramáticas. Os jornalistas continuam a ser um dos alvos a abater.

Irina Slavina, editora-chefe da página de notícias Koza Press na cidade de Nijni-Novgorod, imolou-se pelo fogo em frente da esquadra local da polícia em sinal de protesto contra as perseguições de que era alvo por parte das autoridades judiciais.

Professora de língua e literatura russa, tricotava também cachecóis para ganhar mais uns rublos. Mas ainda lhe sobrava tempo para se dedicar ao jornal electrónico por ela criado e onde escrevia sobre assuntos locais.

Uma hora antes de se suicidar, escreveu na sua página do Facebook: “Da minha morte culpem a Federação da Rússia”.

Os familiares, amigos e conhecidos não têm dúvidas de que esse acto de desespero foi provocado pelas perseguições das autoridades policiais e judiciais.

Na véspera da tragédia, a polícia invadiu o apartamento onde ela vivia com o marido e a filha para realizar uma busca com vista a encontrar documentos ou panfletos que a ligasse à organização “Rússia Aberta”, financiada pelo oligarca russo Mikhail Khodorkovsky, que vive exilado. Segundo Irina, os agentes vasculharam tudo, mas não encontraram nada. No entanto, levaram os computadores e telemóveis dela, do marido e da filha.

“Eles levaram tudo o que puderam encontrar. Eles deixaram-me sem meios para trabalhar” – escreveu ela no Facebook.

No país de Vladimir Putin, a “Rússia Aberta” é uma organização legal, mas os seus membros são alvos das mais diversas repressões: desde o pagamento de pesadas multas até penas de prisão. Parafraseando o ditador soviético José Estaline, o principal é que haja uma pessoa, pois é sempre possível arranjar artigo do código penal para o castigar.

Por falar em Estaline, é de recordar que uma das penas a que ela foi anteriormente sujeita estava ligada ao ditador soviético. Em Setembro do ano passado, ela foi condenada ao pagamento de uma multa de 70 mil rublos (cerca de mil euros) por “desrespeito às autoridades”. Num post publicado no Facebook, ela manifestou-se de uma forma muito original contra a inauguração de uma placa comemorativa dedicada a Estaline numa cidade perto de Nizhni-Novgorod. O nome russo da cidade é Chakhunia, mas ela fez um curto jogo de palavras e essa localidade passou a chamar-se Chakhuinha, termo que no calão russo faz lembrar o órgão genital masculino.

Não fossem os amigos e apoiantes a ajudarem a pagar a multa e ela teria de cumprir pena de prisão.

Uns meses antes, em Março, ela já tinha sido castigada com uma multa de 20 mil rublos (cerca de 280 euros) por ter organizado um piquete em memória de Boris Nemtzov, político da oposição que foi assassinado a tiro às portas do Kremlin.

A reacção do Ministério Público da Rússia ao suicídio prima pelo ridículo. Além de afirmar que a emulação pelo fogo nada tem a ver com as buscas e perseguições policiais, a sua direcção ordenou um “exame psiquiátrico e psicológico” à falecida! O objectivo deste acto macabro é claro: provar que a jornalista não estava no seu juízo quando se matou.

Apenas algumas centenas de pessoas se dirigiram ao local onde a jornalista se imolou para depositarem velas e flores, o que levou a sua filha a fazer um piquete com um cartaz na mão. Aí podia-se ler: “Enquanto a minha mãe ardia, vós ficastes calados”.

As organizações de defesa dos direitos humanos exigem uma investigação transparente e independente de mais este crime contra os jornalistas, mas, na Rússia, a culpa costuma morrer solteira ou viúva.

Isto porque o Kremlin, nestes e noutros casos, “sacode a água do capote”. O envenenamento de Aleksey Navalny, um dos líderes da oposição russa, é um exemplo claro disso. Putin, numa conversa com o seu homólogo francês Emanuel Macron, insinuou que tenha sido Navalny a envenenar-se; deputados e comentadores políticos ligados ao Kremlin acusam o opositor russo de colaborar com a CIA norte-americana, nomeadamente na “encenação” do envenenamento.

Laboratórios independentes da Alemanha, França e Suécia já vieram confirmar que Navalny foi envenenado com “Novitchok”, substância utilizada anteriormente pelos serviços secretos russos para liquidar Serguei Skrypal, antigo agente secreto russo, e a sua filha em Inglaterra. Porém o Kremlin acusa tudo e todos de “provocação”.

A chanceler alemã Angela Merkel teve a boa ideia de transferir a investigação para a Organização para a Proibição de Armas Químicas a fim de dar maior credibilidade à acusação, mas Moscovo também já veio pôr em causa a imparcialidade dessa organização receando que ela apoiará a conclusão a que chegaram os peritos alemães, franceses e suecos.

Vladimir Putin continua a mostrar que, tanto no plano externo como interno, para o seu país é admissível o emprego da força, enquanto que os outros devem só e apenas aceitar as acções do Kremlin.

No plano internacional, a ameaça de invasão da Bielorrússia é um exemplo dessa política agressiva e expansionista, mas a vitória poderá ser de Pirro. O poder do ditador bielorrusso Alexandre Lukachenko não é eterno e Putin conseguiu colocar contra a Rússia uma parte significativa do povo bielorrusso.

Outro exemplo de irresponsabilidade da diplomacia russa está bem patente no reacendimento do conflito entre azeris e arménios em Nagorno-Karabach. Moscovo vendeu a ambos os lados armamentos com fartura, mas se não conseguir congelar esse velho conflito rapidamente, poderá ter de enfrentar a Turquia, a quem também forneceu armamentos modernos, como, por exemplo, as baterias de defesa anti-aérea S 400. Ancara apoia militarmente o Azerbaijão, enquanto que a Rússia terá de ir em ajuda da Arménia caso as coisas de compliquem na Transcaucásia.

A corte de Vladimir Putin continua a considerar-se segura e até mesmo eterna, mas a História já mostrou que a vida dá muitas voltas.

P.S. Num dos comentários a um post sobre a imolação da jornalista, um médico que se orgulha de ser militante do Partido Comunista Português escreveu: “Eu acho que foi envenenada! O Putin não imola, envenena com venenos baratos que não matam ninguém. Portanto não foi o Putin, ou então esta professora não foi salva pelo Ocidente. Portanto foi o Ocidente que a imolou. Mas desta vai falar-se pouco. De facto com o veneno-soviético-que-não-mata-mas-dá-notícias ainda estaria viva. E a merda dos amigos pagam a multa e não lhe salvam a vida?”