O que é que passou pela cabeça da nossa direita? A sério: o que é que lhe passou pela cabeça? A fotografia-ícone da crise política, tirada quinta-feira no Parlamento durante as negociações da agora célebre “coligação negativa”, consegue ser, ao mesmo tempo, perturbadora, reveladora e fatal. Perturbadora, porque vemos em alegre cumplicidade personagens políticas que têm na cabeça dois países que se combatem e se anulam. Reveladora, porque mostra que os princípios cedem a cálculos de oportunidade. Fatal, porque deixa a direita sem argumentos nem discurso.

Nas quatro figuras centrais vemos, à esquerda, Ana Rita Bessa, do CDS, que está sentada a olhar com inocência expectante para uma deputada em pé, debruçada sobre a mesa, que segura um papel na mão esquerda e uma caneta na mão direita. Do outro lado está Margarida Mano, do PSD, a folhear um documento para ajudar as suas colegas de fotografia. No meio das duas, tomando notas das decisões, aparece Ana Mesquita, do PCP. E pairando sobre as três, como um anjo vigilante, está Joana Mortágua, do Bloco. (Um último detalhe para completar o pesadelo da direita: Mário Nogueira não está na foto, mas estava na sala)

E assim, com uma simples fotografia, ficou consumada a transformação política de António Costa, que nem precisou de aparecer na imagem: o político que se aliou à extrema-esquerda para fazer a geringonça e acabar com a austeridade é agora o político que trata a direita como um desprezível bando de irresponsáveis que quer “virar a página da austeridade” à custa das “contas certas”. Aqui fica, mais uma vez, a lição: o cemitério político português está a abarrotar com líderes da direita que subestimaram a capacidade de António Costa para dar cambalhotas.

A culpa, obviamente, é toda do CDS e do PSD. Assunção Cristas passou os últimos dias preocupada com um assunto de Estado: duas passadeiras LGBT em Arroios. Estava tão distraída a tentar fazer equilibrismo com os membros do seu partido que acham que os homossexuais não deviam sair à rua que nem percebeu que estava a ir direta contra uma parede. Já Rui Rio, passou os últimos dias preocupado não sabemos com o quê, num sítio que não sabemos onde é, falando com pessoas que não sabemos quem são. Na sua inimitável discrição, também não percebeu que estava a ir direto contra um objeto sólido de grandes dimensões.

Depois de serem apanhados pelo eleitorado de direita numa fotografia com o PCP e com o BE a negociar a mãe de todas as devoluções de rendimentos, CDS e PSD refugiaram-se no argumento clássico de todo o traidor descoberto em flagrante. Com um olhar de pânico semelhante ao de um bambi encadeado por faróis, juraram: “Queridos, isto não é o que parece”. Claro que é.