Sim, são 14. Se já havia quem achasse oito candidatos a Presidente candidatos a mais, imagine agora que vamos ter mais três sem direito a maratona de debates televisivos e ainda outros três que a Comissão Nacional de Eleições diz já não ir a tempo de tirar do boletim. Afinal, vivemos num país que continua a apresentar excedentes orçamentais e a bater recordes de receita fiscal, enquanto se pode esperar oito horas à chegada ao aeroporto – o tempo de um voo transatlântico – para alguém lhe olhar para o passaporte e dizer que, sim, senhor, pode passar. Um país onde um doente urgente pode ter de aguentar 19 horas para ser atendido num Serviço Nacional de Saúde onde um dermatologista pode ficar rico a trabalhar só aos sábados. Um país em que, mesmo assim, a Autoridade Tributária ainda não está satisfeita e quer agora acabar com os benefícios fiscais concedidos aos doentes oncológicos que possam apresentar – só – 50% de incapacidade. Por que razão é que esse país disfuncional havia de conseguir imprimir um boletim de voto em menos de um mês? Seus optimistas inveterados.

Claro que o primeiro impulso é culpar a CNE. A mesma CNE tão ciosa do seu “dia de reflexão” e de correr a multar quem nos Media se atreva a falar de política em véspera de eleições, sob esse risco terrível de, imagina-se, ainda influenciar a escolha de algum cidadão incauto – e isto enquanto nas redes sociais é o salve-se quem puder. Essa CNE que, afinal, já não parece incomodada com o risco de mandar imprimir boletins de voto antes de o Tribunal Constitucional ter validado as candidaturas e com o que isso pode implicar em: a) risco de equívocos para os eleitores; b) convite ao voto de protesto; c) a maior e mais extraordinária campanha publicitária com que nem o mais sonhador dos candidatos a celebridade poderia sonhar – e de graça. Prepare-se, caso ninguém se lembre de alterar a lei entretanto, para a quantidade de candidatos falsos que vão aparecer daqui a cinco anos.

A verdade, porém, é que há mais responsabilidades a distribuir. Não foi a CNE que determinou que todo o primo afastado de alguém que, um dia, trincou um pastel de nata possa votar em eleições nacionais. Nem que também esses tenham direito a voto antecipado e que o boletim tenha de lá chegar, onde quer que estejam a respirar a sua apaixonada lusitanidade. Na prática, sucede que vamos ter eleitores a votar já a 5 de Janeiro e que, por isso, era preciso haver boletins nos respectivos municípios até dia 1. Isto enquanto o Tribunal Constitucional decidia que só apreciava reclamações de candidaturas recusadas a 29 de Dezembro porque, como se já não bastasse, entretanto meteu-se o Natal (é muito azar. Quem podia imaginar uma coisa dessas quando marcou eleições para Janeiro?). Ora, como o TC assim fez, decidindo por manter os chumbos sobre os dois candidatos que entenderam reclamar, mas estes ainda podiam recorrer até ao dia seguinte, tendo o tribunal até 2 de Janeiro para apreciar os hipotéticos recursos (sim, porque este é o país onde, graças ao nacional-porreirismo, também se pode sempre apresentar mais um recurso), na prática, a CNE já vai atrasada na mesma, pelo menos em 24 ou 48 horas, e mesmo com um boletim de voto onde mais de um quinto das opções apresentadas são um logro.

É muito bonito – e, provavelmente, muito português – querer que todos os que assim o desejem possam ter direito à nacionalidade e ao voto (que, de resto, são duas coisas bem diferentes que não têm, de todo, de coincidir), mas, na prática, é isso, mais do que as idiossincrasias da CNE, que explica que tenhamos chegado aqui. 14 candidatos, em que três não existem, impressos em 13 milhões de boletins de voto, num país que terá pouco mais de nove milhões de eleitores residentes (uma população de 10,7 milhões, à qual é preciso subtrair 1,3 milhões de população escolar, os menores que já abandonaram a escola e os que ainda nem têm idade para lá andar, falecidos e recém-emigrados). Candidatos-fantasma para eleitores-fantasma. Tudo pelo direito a Roman Abramovich poder votar António Filipe já esta quarta-feira, se lhe apetecer.

Como fará a CNE para ter boletins prontos a tempo da segunda volta, só os deuses da burocracia saberão. Quem sabe uma solução à la primárias do Livre: cada um pega num papelinho e escreve lá o nome que quiser? Entretanto, não se admire se, cada vez mais, o país lhe parecer uma coisa e os resultados das eleições outra: é que, dum lado, estão fantasmas; do outro, a realidade. Mais cedo ou mais tarde, ela cai-nos em cima.