A apatia perante a vitória da extrema esquerda em Berlim revela e releva uma entranhada e profunda ignorância da história. Especialmente, à história que não tem importância para o pensamento do bem.
Os mais conhecidos e vocais utilizadores deste tipo de pensamento parcialmente condescendente são, naturalmente, a esquerda e as suas inúmeras metástases nos media.
Para aqueles a quem este tipo de perspectiva não toldou a memória e a racional noção do certo e do errado, gostava de elaborar uma resenha dos autores das maldades na sua maioria atribuídas à extrema (não existe outra) direita.
A extremidade do terrorismo
Sabemos que a análise dos factos não é o maior dom dos que se apressam a fazer interpretações. Há um erro recorrente no debate contemporâneo: discutir o terrorismo (ou qualquer outro fenómeno) a partir de convicções e só depois procurar os factos que as sustentem. Se quisermos inverter o método, começando pelos dados e só depois passando à sua interpretação, o ponto de partida deve ser o mais recente relatório da Europol, o EU Terrorism Situation and Trend Report (TE-SAT) 2025, relativo a 2024.
Os números são objectivos: 58 ataques terroristas (consumados, falhados ou frustrados) na União Europeia e 449 detenções por crimes relacionados com terrorismo. A distribuição por tipologias é elucidativa: cerca de 24 ataques jihadistas, 21 ataques de extrema-esquerda, 4 ataques separatistas e 1 ataque de extrema-direita.
Duas conclusões imediatas impõem-se quanto ao número de incidentes. A actividade terrorista associada à extrema-esquerda supera claramente a da extrema-direita no contexto europeu recente; em termos de letalidade e risco estratégico, o jihadismo mantém-se como a principal ameaça. A realidade, portanto, não confirma narrativas simplistas. Nem as que ignoram a esquerda, nem as que ignoram o jihadismo.
A memória longa da violência política
A leitura contemporânea tende a esquecer que o terrorismo de extrema-esquerda não é um fenómeno residual nem recente. Pelo contrário, marcou profundamente a Europa durante décadas. As Brigadas Vermelhas assassinaram o primeiro-ministro italiano Aldo Moro em 1978; a RAF conduziu uma campanha de assassinatos e sequestros até aos anos 90; o grupo grego 17 de Novembro foi responsável por 23 mortes; a ETA matou cerca de 850 pessoas ao longo de décadas. Não se trata de episódios marginais, mas de uma tradição de violência política organizada, ideologicamente estruturada.
O plano mais profundo: a violência de Estado
Se o terrorismo é a expressão fragmentada da violência política, o século XX revelou algo mais abrangente: a capacidade de o próprio Estado se tornar o principal agente de repressão. Os regimes que mais profundamente concentraram poder, controlaram sociedades e reprimiram populações surgem, em larga medida, associados a projectos de matriz comunista: A União Soviética sob Joseph Stalin, com milhões de mortos em purgas, Gulag e fomes induzidas (incluindo o Holodomor); a República Popular da China sob Mao Zedong, com dezenas de milhões de mortos no Grande Salto em Frente e na Revolução Cultural; o Camboja sob Pol Pot, cerca de um quarto da população eliminada em quatro anos; a Coreia do Norte, com um sistema de campos de trabalho e repressão contínua; Cuba sob Fidel Castro, com execuções políticas e campos de trabalho; e, em versão mais recente, a Venezuela sob Hugo Chávez e sucessores, com erosão institucional e repressão crescente.
A União Soviética não se limitou ao seu território: construiu um sistema de dominação sobre a Europa de Leste, reprimindo revoltas como a Hungria (1956) e a Primavera de Praga (1968). A conclusão é empiricamente sustentada: o maior volume de violência estatal organizada do século XX concentrou-se em regimes de matriz comunista.
Aqueles que votam com os pés
Há um outro indicador frequentemente ausente nas discussões ideológicas (e abordado apenas fora da bolha, nessas deploráveis conversas de café): de onde fogem as pessoas? Cerca de 3,5 milhões de alemães fugiram da zona soviética e da Alemanha de Leste entre 1945 e 1961, dos quais cerca de 2,7 milhões já sob a RDA formalmente constituída, antes da construção do Muro de Berlim; cerca de 3 milhões de cubanos emigraram desde 1959, quase metade só nos últimos anos, com o país a perder mais de 15% da sua população residente entre 2022 e 2023; mais de 7,7 milhões de venezuelanos abandonaram o país na última década; milhares continuam a fugir da Coreia do Norte, apesar do risco de morte.
O padrão é consistente. As populações fogem, de forma esmagadora e sistemática, de regimes fechados para sociedades abertas, o sentido inverso é a excepção residual, não a regra. Não é um dado teórico, percepcionado ou uma sensação – é profundamente humano.
A lente selectiva: o problema do anti-imperialismo
Um dos factores que ajuda a explicar a forma como estes fenómenos são interpretados é o uso de uma chamada “lente anti-imperialista”: uma leitura que tende a explicar os conflitos sobretudo como reacção a potências dominantes, geralmente o Ocidente. Enquanto ferramenta analítica, essa lente tem utilidade. O problema surge quando é aplicada de forma desigual.
Se o conceito de imperialismo for levado a sério, então não pode ignorar o domínio da União Soviética sobre a Europa de Leste ou a projecção de poder da República Popular da China em regiões como o Tibete ou Xinjiang. Quando o anti-imperialismo se torna selectivo, severo com uns, indulgente com outros, deixa de ser análise e passa a ser posicionamento ideológico.
Essa assimetria reflecte-se também na leitura da violência. Movimentos armados são, por vezes, enquadrados como “resistência”; regimes autoritários são interpretados como “respostas a pressões externas”. Ou seja, a responsabilidade dos agentes tende a diluir-se no contexto. Não se trata de apoio directo, mas de uma diferença na forma de julgar a violência consoante a sua origem.
Conclusão
Os dados mostram que a extrema-esquerda mantém expressão relevante em número de ataques terroristas; o jihadismo permanece o principal vector letal; a extrema-direita tem expressão operacional mais reduzida no contexto europeu recente.
A história mostra que regimes comunistas produziram níveis massivos de repressão e controlo social; milhões de pessoas fugiram desses sistemas.
E o presente sugere que continuamos a olhar para a violência de forma selectiva. Não pelo que é, mas por quem a pratica. A extremidade do terrorismo não reside apenas nos actos. Reside também naquilo que estamos dispostos a relativizar. Porque, no fim, o maior risco não é o extremismo em si. É a incapacidade de o reconhecer quando não confirma a narrativa que preferimos.