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É muito sensato uma pessoa andar com medo. Desde que António Costa, com o auxílio dos “simpatizantes”, mandou Seguro pela borda fora, anda por aí um arzinho de felicidade a vir que não augura nada de bom. Essa felicidade tem um nome: dinheirinho. Vamos todos ter mais dinheirinho.

Confesso que a coisa a mim também me dava jeito. Ao ponto de por vezes me perguntar porque carga de água ando para aqui a compreender a austeridade e a reconhecer algumas virtudes razoáveis em Passos Coelho. Não ganho nada com isso e ainda por cima a conversa com alguns amigos torna-se delicada. Tive que apurar a sensibilidade para detectar certos rumos que as discussões ameaçam tomar e, em nome das boas regras do são convívio, aprender mil artes para as desviar daí. É cansativo e muitas vezes a imaginação falha.

Verdade seja dita que não é a primeira vez que isto me acontece. Não sou pessimista nem optimista, mas o optimismo manifestamente deslocado irrita um pouco. Há matérias em que é relativamente fácil lidar com ele. Não se ofendia excessivamente ninguém manifestando, por exemplo, uma boa dose de cepticismo em relação ao glorioso destino da “primavera árabe”. Quando muito, ouvia-se uma palavra ou duas sobre supostos traços de carácter pouco recomendáveis, o que está na ordem normal das coisas. Noutros assuntos a coisa piava mais fino, como foi o caso com o nosso fatal Sócrates. Aí a acusação mais vulgar era a de “obsessão”, algo claramente mais forte. Há, apesar de tudo, uma certa diferença entre não ser um ser humano exemplar, dotado de uma confiança absoluta no progresso para o melhor da humanidade toda entre os dois pólos, e ser uma criatura cuja patologia se encontra detalhadamente analisada num compêndio de doenças mentais.

Por causa disso, uma dose normal de prudência mundana aconselharia tentativas de reconciliação com os espíritos mais dados à confiança nas virtudes salvíficas de António Costa. Com mais dinheiro ou sem ele, a vida social melhoraria sem dúvida. No entanto, não consigo. E não consigo porque, mesmo levando ao extremo o ecumenismo e o princípio de caridade, aquela confiança não parece, com franqueza, racionalmente sustentada. Não é uma questão de estados de alma, é mesmo uma questão de racionalidade.

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Um exemplo. Qual é a mezinha mais geralmente apresentada pelo PS com o fim de acabar com a “austeridade” aqui neste nosso cantinho? Há versões mais plebeias e versões mais eruditas. As versões plebeias dizem-nos que devemos fazer tremer as pernas dos banqueiros alemães ou, em alternativa, dar um grande e sonoro murro na mesa e dizer “Basta!”. As mais eruditas recorrem ao sofisticado conceito de “vontade política”. Com uma grande dose de “vontade política”, Portugal, com a ajuda de outros Estados inspirados pelo fulgor de António Costa,  poria civilizadamente na ordem o imperialismo alemão da Sra. Merkel (a propósito: houve o que se chama um upgrade da Alemanha; nos anos setenta do século passado, era um “subimperialismo”, do qual Mário Soares, entre outros, era um “lacaio”).

A mim parece-me que há problemas muito evidentes com estes dois tipos de atitude. A atitude plebeia e muito viril releva, pura e simplesmente, da farronca. Não quero insinuar que uma qualquer estrela do novo PS não seja capaz de dar murros na mesa potentíssimos e atordoadores. Acontece que esperar que isso assuste toda a gente, da Sra. Merkel aos mais sinistros grupos de neoliberais conspirando em vis covis por esse mundo fora, é pouco razoável. Contrariamente aos passados votos do deputado socialista Pedro Nuno Santos, nem umas só perninhas tremeriam. E a nova estrela arriscava-se a magoar a mão. O que seria pena, até porque se encontraria impedida de actualizar à sua maneira, com “hercúlea voz” e “coração fremente”, o Finis Patriae de Guerra Junqueiro, substituindo a Inglaterra pela Alemanha. Afinal, não custa imaginar o “bandulho infecto” do “Deus Milhão” a “rolar em postas” no Reno em vez do Tamisa. (Espero não estar a dar ideias a Manuel Alegre.)

Em contrapartida, o problema da versão sofisticada de António Costa é o carácter vago e difuso da tal “vontade política” que ele afiança representar. E, mais ainda, a possibilidade de essa vontade, a ser concebível, influir no que quer que seja nos destinos da União Europeia. Quando, a pouco e pouco, os principais líderes socialistas europeus, depois das hesitações da praxe, se andam a converter à famigerada “austeridade”, não se vê como poderá António Costa, por muitos méritos que tenha, inverter a situação. Ele, de resto, tirando algumas proclamações convenientemente vazias, não tem avançado com muitas precisões no assunto. Esse prudente silêncio, que por muitos é apresentado como a prova mais patente da sua sabedoria política, cheira, visto de fora, a cinismo. Um cinismo tolerado pelos tempos e carinhosamente apadrinhado pelos aficionados das delícias da política partidária, mas cinismo à mesma.

Por estas razões não me consigo transformar num simpatizante socialista. A minha vida social melhoraria e o dinheirinho a vir dava jeito. O problema é que o dinheirinho, tirando um breve período inicial destinado à prova ritual da existência do socialismo, em breve desapareceria, e o resultado dessa póstuma homenagem à teórica entidade seria, a curto prazo, um agravamento ainda maior das nossas condições de vida. Não parece uma opção saudável. Quanto à vida social, uma pessoa habitua-se. E já tenho um certo treino. Como dizia um personagem de um livro célebre de Guimarães Rosa, “a gente vive mesmo é para se desmisturar”.

O pior é mesmo o medo. Porque a aliança da farronca e da vagueza conduzirá certamente a algo que devemos temer. Cada uma por si já é má. As duas juntas são péssimas. E o PS parece estar disposto a misturá-las.