Disseram-nos que ia ser tudo melhor. Que cada ano novo criaria mais riqueza do que o ano velho e que ela seria melhor distribuída, de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades (mas isso depressa foi desmentido, quando os amanhãs que cantam se calaram para sempre).

Disseram-nos que os nossos filhos viveriam melhor do que os nossos pais, como nós vivemos melhor do que os nossos avós.

Disseram-nos que as mulheres seriam respeitadas, portadoras de direitos iguais aos dos homens, e que não mais seria possível das distinções de género, raça, ou deficiências, erguer bandeiras vis de desigualdade.

Disseram-nos que o progresso ia ser constante. Que num mundo em paz, o reino do infinitamente pequeno, dos transístores e das redes mundiais, nos tornaria irmãos uns dos outros, mais tolerantes, mais compreensivos, mais humanos. Disseram que seríamos felizes.

Disseram-nos que não mais veríamos jorrar dos locais miseráveis do globo torrentes de miseráveis a fugir da guerra, a fugir da fome, a fugir de medo.

Disseram-nos que os pobres seriam menos pobres e que os ricos continuariam a ser ricos. Que a fome era uma doença em vias de extinção.

Disseram-nos que em breve a atmosfera voltaria a ser clara, os mares livres de plásticos e porcaria, os campos verdes como nos tempos de antanho, que fontes inesgotáveis de energia limpa abasteceriam as nossas casas, os nossos carros, as nossas empresas.

Disseram-nos que não haveria mais doenças incuráveis, apenas doenças crónicas. Que o sofrimento seria controlado. Que ninguém morreria sozinho num futuro decente.

Disseram-nos que nunca mais um credo teria o poder de nos manipular; de nos assustar; de nos aterrorizar.

Disseram-nos que os jornais são bens preciosos com vida e é nobre a profissão de fazer notícias.

E disseram-nos para confiar nas instituições: que o nosso dinheiro estaria seguro nos bancos. Que os nossos governantes governariam com equanimidade, que os nossos juízes julgariam com justiça, que os reguladores regulariam com sabedoria e que as nossas polícias nos defenderiam dos males. Disseram-nos que podíamos confiar nas instituições. Que os banqueiros são pagos a peso de ouro para que o ouro que lhes é pago os não leve a cobiçar o ouro alheio. Que não há maior segurança do que nos cofres de um banco.

Disseram-nos que a democracia é o pior de todos os regimes, à excepção de todos os outros. Que em breve todos os países do Mundo serão democracias.

Disseram-nos que a Europa – a construção europeia – era o cimento contra o qual se quebrariam de vez as veleidades totalitárias no pequeno e velho continente, e que sobre ela seria erigido um edifício de fraternidade, prosperidade e felicidade para todos.

Disseram-nos tudo isso e muito mais. O que falhou?

PS. Como no ano passado, pretendi escrever um conjunto de crónicas de Natal. Esperançosas, luminosas. Escrevi a primeira, saiu-me um lamento triste: os solitários, os desempregados, os sem-abrigo, os pobres. Esbocei a segunda, forcei-me a ver o lado bom da vida, não a consegui terminar – não publiquei a crónica semanal pela primeira vez desde que escrevo neste jornal.

Esperança? Claro. Mas que luz brilha no Mundo em que vivemos? No país que habitamos? Esperança? Sempre. Mas qual? Mas como? O que falhou? A minha é a geração que promete menos aos seus filhos do que os nossos pais nos legaram. Já não há ideologias, o dinheiro é quase sempre, é quase só, o único objectivo.

Por todo o Mundo mulheres são violadas em autocarros, desrespeitadas nas ruas, lapidadas por amarem, proscritas por ousarem expressar-se.

A ACNUR, agência da ONU para os refugiados, diz-nos que pode já haver mais de 60 milhões de refugiados no Mundo: de lugares perigosos como a Síria, o Norte de África, o Afeganistão, mas também a Colômbia, o Darfur, o Congo, um pouco por toda a Ásia, na América latina, até na Oceânia, milhões vivem longe das suas casas, expulsas do seu país ou região, a que a maior parte não chegará a voltar. Um Mundo de humana desumanidade.

Resumir 2015? Uma palavra: Daesh. Duas palavras: jihadismo. Três palavras: terrorismo. E a crise na Europa e a crise da democracia, e a crise em Angola, e a crise no Brasil, e a crise e a crise e a crise…

Um ano, em Portugal, em que fecharam jornais, foram despedidos jornalistas. Os projectos não são viáveis economicamente, parece. O que quer isso dizer? E o que dizer de uma sociedade que não é capaz de gerar projectos viáveis de comunicação social? Um país precisa de jornalistas livres, de um jornalismo forte, de notícias independentes, de meios de comunicação saudáveis e libertos do abraço de urso dos interesses económicos ou corporativos. Fecharam jornais em Portugal em 2015. Parece que vão fechar mais em 2016.

Um país sem cirurgiões de especialidade disponíveis ao fim de semana nos seus principais hospitais, não é bem um país, é um rascunho rasurado. Um país em que as instituições mais sólidas, os bancos do regime – disseram-nos que eram sólidos – ruem como prédios sem alicerces e em que os responsáveis são inexistentes ou apenas os convenientes, não é bem um país, é um lugar mal frequentado. Um país em que os políticos governam para o umbigo, para o curto prazo e para as eleições, tem urgentemente de se civilizar. Disseram-nos que podíamos confiar nas instituições. Sobram poucas dignas de confiança.

O que falhou? Falhámos nós, todos nós. Iludidos, auto-iludidos quase sempre, deixámos a outros a responsabilidade de agir em nosso nome, sem o escrutínio suficiente, sem a exigência necessária, como se algo de sobre humano lhes desse sobre nós um poder que não têm, nunca tiveram, não podem ter.

Não podemos falhar mais.