Para começar, apresento ao Camões e demais vultos que, ao longo de séculos, narraram épicas odes marítimas, as minhas desculpas pelo lead desta crónica. Será este destaque uma afronta a tudo o que de mais grandioso foi escrito nas epopeias oceânicas? Será. E será isso culpa minha? De forma alguma. Alego falta de qualidade dos protagonistas desta trama, efectivamente inenarrável. Afinal…

As patranhas e os marxistas assinalados,
Que da oriental praia Catalã,
Por mares constantemente navegados,
Não passaram além da rebentação

… não permitem milagres, convenhamos.

Entretanto, no exacto momento em que navegamos por este texto, a flotilha avança, de novo afoita, rumo a Gaza. Se querem a minha opinião, acho precipitado. Aquela matula devia esperar mais um bocadinho. Só até as alterações climáticas subirem as temperaturas o suficiente para o Mediterrâneo secar e dar para ir a pé, que é muito mais seguro. Além de que, pelas contas da Greta Thunberg, isso está para acontecer quando? Para a semana, para aí, não?

Por mim, esperavam até estarem reunidas as condições ideais. Até porque observadores atentos assinalaram que, ao contrário do habitual nos eventos desta maralha, desta vez não é visível, em qualquer barco da flotilha, uma única bandeira da LGBTlândia. Portanto, com a mesma paciência com que arriaram certas bandeiras que lhes podiam garantir uma recepção num sítio como, digamos, o Egipto, idêntica às recepções com que os habitantes da Ilha Sentinela do Norte (pesquisem que é interessante) brindam intrusos, os flotilheiros deviam aguardar pelo içar da bandeira verde no Mar Mediterrâneo e depois, sim, avançar. Mas sempre com as braçadeiras, claro.

Até porque, convém lembrar, o governo português, apesar da exigência de Mariana Mortágua e numa clara demonstração de flotilhofobia, avisou não ter a “responsabilidade jurídica” de proteger o barco em que a deputada única do BE vai passear até às imediações de Gaza. Esteve mal, Mortágua, ao nível da tramitação institucional. Se tem solicitado ajuda, não ao governo, mas a Belém, a esta hora já estavam, ela e a Greta, no lombo de Marcelo, ao largo de Tripoli, graças ao potente crawl do Presidente da Atlântida. Sim, ainda em acumulação de funções com Presidente da República das Bananas.

Isto partindo do princípio que os navios de guerra do “activo russo”, presentes no Mar Mediterrâneo com o intuito de garantirem a estabilidade das democracias ocidentais, deixariam passar, incólume, um trio de ruidosos inimigos da única democracia ocidental do Médio Oriente. Se eu mandasse alguma coisa na marinha norte-americana, de uma boa amona não estavam safos.

Aconteça o que acontecer, Mariana Mortágua já juntou o seu nome ao de outros protagonistas de façanhas navais históricas, como Camilo Mortágua, ao descobrir o caminho marítimo de Barcelona para Barcelona, sem nunca deixar de avistar Barcelona. Odisseia durante a qual contemplou cenários sem precedentes, como a vista de Barcelona a partir da zona da praia de Barcelona em que se fica quase sem pé, e enfrentou criaturas míticas — matéria-prima dos pesadelos — como duas ou três alforrecas, daquelas que provocam irritações cutâneas um bocadinho aborrecidas.

Enquanto isto, e uma vez que a hipotética ode da flotilha vai durar para aí quinze dias, lá fica a população de Gaza à mercê do “genocídio” até que a esta corja seja conveniente, do ponto de vista da gestão de redes sociais, “salvar” a Palestina. Palestina que, segundo Mariana Mortágua, “está a salvar a humanidade”. Então não está. Está a salvar e de que maneira. Com destaque para aqueles israelitas que continuam raptados em Gaza, completamente a salvo do destino cruel de voltarem às suas “genocidas” famílias no “genocida” Israel. O amor da extrema-esquerda pela Humanidade, expresso no amor por cada ser humano — e sendo o ser humano judeu então, ui, a paixão! — nunca deixará de comover qualquer pessoa sensível. Sensível e, numa proporção não inferior, idiota.