Há viagens que entram na História e há viagens que entram para as redes sociais. A de Mariana Mortágua e dos seus camaradas de convés está claramente na segunda categoria. Anunciada com pompa revolucionária e descrita como uma missão quase bíblica, acabou por ser a versão militante de um cruzeiro interrompido.
Tudo começou com aquela aura épica das causas nobres. A ideia de “romper o bloqueio de Gaza” parecia saída de um panfleto estudantil dos anos 70. O pequeno barco, carregado não só com mantimentos mas também com intenções, partiu como quem vai corrigir os rumos da História. E lá estavam os tripulantes, de punho erguido e olhar carregado de determinação, prontos para enfrentar a Marinha israelita, a Mossad e, quiçá, o próprio Netanyhau de tronco nu à proa.
Mas eis que o enredo sofre uma reviravolta digna de comédia pastelão. Depois de umas milhas, depois de muito comunicado inflamado e de muita selfie revolucionária, o barco decide regressar. E não regressa a Lisboa, que seria ao menos um regresso com algum sabor doméstico. Não: regressa a Barcelona. O caminho para Gaza transformou-se num cruzeiro low-cost até à Catalunha.
A cena é tão absurda que quase dá pena. Imagino os discursos preparados para a chegada triunfal a Gaza, as frases ensaiadas para os jornalistas, os abraços a crianças palestinianas e as lágrimas militantes calibradas para as câmaras. No entanto, o destino final foi a marina de Barcelona, ao lado de catamarãs de turistas alemães. Gaza ficou longe, mas a paella ficou mais perto.
A ironia maior é pensar na Palestina propriamente dita. Enquanto em Gaza se vive cercado, sem eletricidade, sem água e sob bombardeamentos, a grande façanha da solidariedade foi… voltar para trás. Gaza não recebeu ajuda nenhuma e Israel não cedeu a nada. Mas em Portugal há quem ache que estivemos “na linha da frente”. Só se for na linha da frente de um quiosque de tapas.
Tudo isto seria apenas risível, se não fosse profundamente revelador da forma como se fazem hoje as causas políticas. Não interessa tanto o resultado, interessa mais o espetáculo. Não interessa chegar a Gaza, interessa é que se fale de Gaza. A viagem não é medida em milhas náuticas, mas em minutos nos noticiários. É o activismo convertido em entretenimento.
A verdade, porém, é “um bocadinho” mais dura: quem vive em Gaza não precisa de barcos turísticos com bandeiras de esquerda europeia, precisa de corredores humanitários reais, de pressão diplomática e de mudanças efectivas.
Gaza não viu o barco, mas Barcelona ganhou mais uma trupe de turistas indignados. Quem sabe se, da próxima vez, a missão não ruma a Ibiza, sempre é mais animado…