1 Rui Rio explicou melhor do que qualquer outra pessoa por que razão Rui Rio se deveria ter demitido da liderança do PSD. O facto de Rui Rio não fazer o que diz, não retira qualquer validade aos seus argumentos. No início de 2018, durante a campanha para a liderança do PSD, Rui disse mais ou menos isto a Santana Lopes: “Pedro já tiveste a tua oportunidade em 2005 e falhaste. A tua derrota contra o PS mostra que não és a pessoa indicada para liderar o PSD.” Em 2019, Rio recebeu menos votos do que Santana Lopes em 2005. Mas, ao contrário do que dizia em Janeiro de 2018, Rio não concluiu que não é a pessoa indicada para liderar o PSD.

É óbvio do que, ao contrário do que mostrou Santana Lopes em 2005, Rio coloca as suas ambições pessoais à frente dos interesses do PSD. Quase todos os portugueses, incluindo seguramente muitos que terão votado nos socias democratas, já concluíram que Rio nunca levará o PSD a uma vitória eleitoral. Mas Rio não quer largar o poder que lhe resta no partido. Em segundo lugar, Rio sabe que tem muitas hipóteses de vencer uma nova eleição para a liderança do PSD porque controla grande parte do aparelho do partido. Ganhou em 2018 porque controlava o aparelho. E agora passou grande parte da sua liderança a reduzir o PSD ao ‘partido do Rio’.

Rio mostrou que é incapaz de fazer o que compete a um líder do PSD se quiser chegar a São Bento: liderar todo o espaço político do centro direita, e construir uma alternativa ao PS. Veja-se o seu calculismo desde as eleições. Esteve à espera de saber se o PS faria uma aliança com o Bloco para decidir se seria candidato à liderança do PSD. Ou seja, Rio continua a olhar para o PSD como um pequeno aliado do PS, e não como o seu principal adversário. A recusa do PS à renovação da geringonça e a uma aliança com o Bloco transformou, mais uma vez, Rio no candidato de Costa nas próximas eleições do PSD. Por isso, se os militantes socias democratas elegerem de novo Rio para a liderança, não merecem que o PSD continue a ser um dos dois maiores partidos portugueses.

A estratégia de Rio apoia-se no velho cálculo da política portuguesa. Um dia, o governo socialista falha, Costa vai-se embora e o líder do PSD será então PM. Mas não basta esperar que o governo socialista falhe. Na política portuguesa pós-2015, o líder do PSD só será PM se o centro-direita alcançar uma maioria absoluta. Se numas eleições no ‘pós-Costa’, o centro-direita não conseguir uma maioria, o futuro líder do PS fará uma nova geringonça. Ora, depois do resultado de domingo passado, será necessário reconstruir o centro-direita quase a partir do zero. Rio não é a pessoa certa para liderar esse trabalho. Pelo contrário, com Rio, o PSD continuará o caminho para se transformar num partido regional, cuja principal ambição é transformar o norte de Portugal numa grande Madeira. Triste destino para um partido que foi um dia o maior de Portugal.

2 Assunção Cristas fracassou como líder do CDS, mas mostrou sempre um comportamento digno. Assumiu, em 2015, a sua candidatura à liderança do partido sem hesitações e sem calculismos. Demitiu-se quando percebeu que tinha falhado. Nas pessoas com princípios, a dignidade é o que resta quando tudo corre mal. Foi exemplar.

Como eleitor de direita, gostava de ver Adolfo Mesquita Nunes na liderança do CDS. Aparentemente, não está disponível. Mas, na minha opinião, seria o mais capaz, o que mostra as melhores capacidades e ideias políticas.

3 A eleição de um deputado da Iniciativa Liberal foi uma boa notícia. Gostaria que tivesse eleito um segundo deputado pelo Porto. Mas é muito importante que uma força política defenda os valores e os princípios liberais em Portugal.

A culpa será certamente minha, mas (ainda) não consigo levar o Chega a sério. A mistura entre o benfiquismo e o populismo é um verdadeiro horror. A exploração dos instintos racistas e xenófobos é uma desgraça. Mas como poderá crescer o Chega? Convencendo abstencionistas a votar ou conquistando eleitorado ao PCP. Se isso acontecer, a culpa será dos partidos tradicionais, e sobretudo das esquerdas. O PS e o Bloco deixaram de saber falar para a classe operária que se sente crescentemente alienada da vida política. Foi entre esse eleitorado que em grande medida Farage, Le Pen e Salvini cresceram politicamente.

4 Por fim, a última palavra para Santana Lopes. A saída do PSD foi um erro, como se viu. Desconfio que a Aliança não resistirá à derrota eleitoral. Santana Lopes foi muitas vezes um politico incompreendido e tratado com injustiça. A sua maioria parlamentar foi dissolvida por casos bem menos graves do que, por exemplo, o episódio Tancos. Apesar de tudo isso, Santana Lopes mostrou quase sempre um comportamento digno e um fair play exemplares. As democracias, sobretudo em tempos de radicalismo e de extremismo, precisam de políticos com o comportamento de Santana Lopes.