Desde cedo, somos ensinados a acreditar que vivemos numa sociedade onde podemos ter opinião e expressar-nos sem amarras. Tudo graças aos heróis democráticos que lutaram pela liberdade, invenção dos gregos que, entre quedas e ressurgimentos, chegou até nós através dos regimes políticos modernos.

Porém, nunca somos verdadeiramente livres. Condicionantes invisíveis moldam o que pensamos e dizemos, como mãos que manobram a nossa vontade. Quem é que, no fundo, fala sempre o que acredita ser justo? Todos acabamos por seguir uma cartilha: para agradar à família, encaixar na comunidade, adaptar o discurso ao que os professores querem ouvir. Caso contrário, não entramos em Farmácia. Não fazemos as delícias da tia Gertrudes, essa senhora que rega plantas numa marquise fria da Rinchoa. Nem sequer conquistamos a simpatia dos grandes vultos do conhecimento: Freud, Shakespeare, Einstein ou Padre António Vieira.

Por vezes, o silêncio parece a melhor solução. Ao ler o livro “Olhar o Sol de Frente”, de Irvin D. Yalom, compreendemos que o medo da morte nasce também da imaginação de um silêncio perpétuo. Um silêncio que nos impede de comunicar com aqueles com quem partilhámos a vida. Um silêncio eterno, fechado num caixão. Uma imagem claustrofóbica.

Segundo Yalom, o medo da morte é uma das principais causas de ansiedade e de problemas de saúde mental na atualidade, quer de forma consciente, quer inconsciente. O autor defende que mesmo aqueles que aparentam grandes ambições e certezas o fazem, em parte, como fuga à ideia da morte perpétua, construindo um legado que ultrapasse as barreiras da vida terrestre e perdure para além dela.

Afinal, tudo o que fazemos — o trabalho, os estudos, as saídas com amigos — é uma tentativa de adiar a inevitabilidade da morte. Até a própria liberdade de expressão, essa urgência em dizer quem somos, não será senão uma prova concreta da nossa existência. Um eco dos suspiros que partem dos recantos mais íntimos do nosso espírito.

Mas não se confunda liberdade de expressão com manipulação e discurso de ódio. Hoje, multiplicam-se barricadas políticas erguidas na violência verbal. E quando essa agressividade faz ricochete, muitos apregoam-se como bons samaritanos que apenas promovem uma discussão democrática e elevada.

As palavras não são armas de metal, mas usadas em ouvidos pouco preparados podem ser devastadoras. Muitos tiranos da História foram também reconhecidos oradores. Por isso, nunca subestimemos o poder das palavras: nelas cabe tanto o verso que liberta como o embrião da destruição.

Nos dias que correm, onde tudo parece passageiro e rapidamente descartável, pode dar a impressão de que as palavras também funcionam dessa maneira. Contudo, elas perduram, algumas bem além da morte dos seus autores. Ecoam nas ideologias modernas e nos pensamentos mais comuns de todos.

Não pensemos que as palavras não marcam ou que contam para pouco. Talvez tudo o resto — bens materiais, tecnologia, consumo — esteja a ser sobrevalorizado. A palavra, esse incómodo que tantos querem desvalorizar, terá sempre mais importância e um papel mais definitivo no rumo da história das nossas sociedades do que aquele que ousamos imaginar. A tia Gertrudes rega plantas. O eco das suas palavras rega o mundo.