O CHEGA submeteu recentemente um Projecto de Resolução que, se aprovado, recomendará ao Governo o reconhecimento formal do Saara Ocidental como território soberano do Reino de Marrocos. É a segunda vez que o faz; a primeira, ainda na legislatura passada, foi em Outubro de 2024. É certo que, fora da bolha de São Bento, a controvérsia com o Saara tirará o sono a poucos portugueses. O tema tem, todavia, duas virtudes essenciais. Uma, a de oferecer espaço real de melhoramento de uma relação bilateral que ninguém devia menosprezar ou relativizar. E outra: com precisão de bisturi, o tema saariano separa quem entre nós confunde a política externa com palco de ideologia e moralismo, e aqueles que a vêem como instrumento sério, de fria racionalidade, para a realização do interesse de Portugal no mundo.

É tragédia dos nossos tempos a paulatina transformação do PS—outrora, com Soares ou Amado, praticante destacado do realismo nas relações internacionais—em paladino do mais abstruso cruzadismo diplomático. Viu-se isso há uns meses, por altura da discussão do primeiro projecto do CH. Um PS de outros tempos teria louvado, enquanto valiosa iniciativa de modernização da nossa diplomacia, aquela pertinente iniciativa. Em vez disso, vimo-lo argumentar que talvez nem a sua discussão fosse possível, tal o dano que com isso poderia causar ao direito das gentes a nossa modestíssima Assembleia da República. Não é de somenos que esta enormidade—que ignora como, nos últimos anos, que o Saara foi reconhecido como marroquino pelos EUA, a Espanha, a França, Israel e, há dias, pelo Reino Unido—tenha partido de Pedro Delgado Alves. De PDA muito haverá a dizer, mas ninguém pode negar tratar-se de parlamentar brilhante, homem culto e sólido jurista. Tão descabida teimosia não incomodaria tanto em deputado de menores prendas intelectuais. Em Delgado Alves, é espectáculo que fere verdadeiramente.

Para nós, Marrocos não é um estranho. É um amigo antigo e fundamental. Rabat é, descontada Madrid, a capital mundial geograficamente mais próxima de Lisboa. A monarquia alauíta nossa vizinha é uma potência em franca ascensão, potentado demográfico e militar, economia em rápido crescimento e, sobretudo, aliado estável em região sempre imprevisível. A nossa segurança a sul depende de Marrocos. O controlo dos fluxos migratórios transsaarianos depende de Marrocos. Nestes dias de transformação geopolítica em que a soberania volta a contar, a parceria com Rabat oferece-nos, face à Espanha e à Europa, aquilo a que Adriano Moreira chamava a diversificação de dependências—e, nela, a maximização da nossa própria liberdade de acção. Para quem sabe de História—e, mais ainda, para quem quer saber de Portugal—, a relação Lisboa-Rabat deve aparecer como um dos eixos cruciais da política externa portuguesa.

Ora, que argumentos de interesse nacional haverá a apresentar contra o reconhecimento do Saara marroquino? Há-os de lirismos orientalistas, com guerrilheiros da Frente Polisário—a organização que reclama a independência saaráui—combatendo no deserto? Há. Há-os legais, de recitação de resoluções da ONU desligadas da impossibilidade prática de erguer um Estado soberano viável e próspero nas areias do Saara? Há também. Ambos ignoram que a relação luso-marroquina se sobrepõe largamente a um tema que, do ponto de vista português, é de limitada importância. E, se a discussão é de legitimidade—e porque a ONU também se engana—, conviria lembrar que o Saara está mais ou menos continuamente ligado a Marrocos desde os dias dos Almorávidas, já lá vão mil anos. O projecto de separá-lo da Coroa marroquina, usando como motivo o breve período de presença colonial espanhola, foi sempre disparatado. Agora que o vento da política se realinha com o da História, mau seria se acabássemos nós isolados na Europa Ocidental, insistindo, à custa da relação com Rabat, em devaneios de que o mundo inteiro se fartou. Não percamos mais tempo.