O número de acidentes em Portugal aumentou em 2018. Foram registados mais de 132 mil desastres nas estradas portuguesas, mais 2.170 do que em 2017. 2.093 feridos graves, muitos com sequelas para toda a vida. Estes acidentes resultaram em 513 mortos, registando-se uma subida pelo segundo ano consecutivo deste número. Só nos primeiros 3 meses do ano de 2019 já morreram 116 pessoas.

Como irá contribuir a engenharia para mudar estes dados?

Em todo o mundo, milhares de engenheiros e engenheiras estão a trabalhar em soluções para este problema: uma delas passa por desenvolver sistemas de assistência ao condutor e condução autónoma. Estes sistemas são testados ao milímetro, ao milissegundo, ao pormenor para garantir que o sistema não falhe em nenhuma situação. O carro vai conseguir se localizar com alta precisão no planeta, lidar com vários elementos na estrada como cruzamentos, sinais de trânsito, peões que atravessam a estrada, outros carros e animais. Como na maioria dos sistemas construídos hoje em dia, a melhor estratégia é seguir passo a passo.

Os diferentes níveis de automação de carros autónomos são representados em 6 níveis, indo do nível 0 ao nível 5. Os níveis em destaque são o 3, 4, e 5 em que efetivamente o condutor começa a ter a capacidade de realizar outras tarefas enquanto o carro conduz em cenários de engarrafamento, em auto-estradas, ou no nível mais avançado, em que a intervenção humana não será necessária.

Como podemos confiar nestes sistemas?

No último trimestre de 2018, um relatório descreveu para a marca automóvel Tesla, um acidente por cada 4,68 milhões de quilómetros percorridos com o sistema de piloto automático (equivalente ao nível 2 de automação), com funcionalidades como centrar na faixa de rodagem, cruise control adaptativo, estacionamento automático e chamar o carro onde estiver estacionado. Este registo equivale a 117 voltas ao mundo sem acidentes. Se temos estes resultados com nível de automação 2, podemos esperar muito mais dos seguintes.

Na indústria automóvel, a segurança do condutor e dos peões e a segurança na perspectiva de manipulação indevida do sistema são duas das principais preocupações, portanto muito investimento é feito para que estes sistemas estejam perto da falha zero. “I would rather lose money than trust” (“Preferia perder dinheiro do que confiança”), já dizia Robert Bosch, porque todos os fornecedores e marcas automóveis sabem o quanto é fundamental garantir que as pessoas confiem nestes sistemas para uma grande aceitação, com todas as potencialidades que a condução autónoma irá trazer.

Visão zero: zero stress, zero acidentes, zero emissões

Veículos autónomos, eletrificação e conectividade são pontos chave para a chamada visão zero: zero stress, zero acidentes, zero emissões. O primeiro zero está intimamente ligados aos outros dois. Com certeza, os nossos níveis de stress aumentarão se estivermos envolvidos num acidente, ou se estivermos num ambiente poluído.

E com carros partilhados, que se carregam automaticamente, estacionam sozinhos, como vemos os nossos grandes centros urbanos? Com certeza, menos entupidos, menos barulhentos, mais abertos e livres de stress.

Ouvimos constantemente o velho ditado “Tempo é dinheiro”. Vivemos numa era em que “Tempo é investimento” e consoante os objetivos de cada um, este investimento é certamente diferente. O tempo que não será passado 100% focado na condução, poderá ser utilizado para desenvolvimento pessoal, meditação, ou para descansar.

Não podemos também deixar de fora os acidentes e mortes que podem ser evitados por distração, má condução e decisão errada. E se os pudéssemos evitar em grande parte?

Quantos de nós já teve um parente ou amigo que faleceu num acidente rodoviário, que poderia ter sido evitado? Quantos de nós, se arrepia de cada vez que ouve as estatísticas em cada Natal, em cada Páscoa ou Verão?

A mudança está a acontecer… E mais cedo do que estamos à espera teremos carros a circular nas nossas vias que não terão um condutor. Os desenvolvimentos mais recentes vão nos fazer confiar nestes veículos.

Haverão certamente mais alguns desafios a desenvolver: compensar os empregos da indústria dos transportes e serviços automóveis que vão deixar de existir, garantir a privacidade e que a partilha dos nossos dados não está comprometida e que o desenvolvimento dos algoritmos de inteligência artificial serão sofisticados o suficiente para serem utilizados em ambientes caóticos como, por exemplo, na Índia.

Já ninguém deveria morrer num acidente de carro com o nível de tecnologia a que temos acesso neste momento, e estes milhares de engenheiros e engenheiras querem garantir que os carros autónomos do futuro irão funcionar corretamente em qualquer condição meteorológica, condição das estradas, de dia e de noite, desenhando sistemas que dão ao condutor a quantidade certa de informação, na altura correta. Só assim poderemos confiar em algo que vai mudar as nossas vidas.

Sandra Costa é Senior Manager de VMPS SW Dev na Bosch CC Braga, liderando duas equipas de desenvolvimento de software e tem também um Ph.D. em Engenharia Eletrónica.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.