Gostava de ter inventado eu o título desta crónica mas foi Marshall McLuhan. Numa entrevista feita por Pierre Babin (incluída em Era Electrónica – Um novo homem, um cristão diferente, editada pela Multinova em 1978), dizia assim: “esta pode ser também a hora do anti-Cristo. Quando a electricidade permite a simultaneidade de toda a informação para todo o ser humano, é o momento de Lúcifer, o grande engenheiro eletrónico!” Portanto, a tese é: há ocasiões em que o Inferno é tudo estar incluído.
Há uns Domingos explicava lá na Igreja, na Lapa, que o símbolo é o que Deus faz, unindo. Satanás separa, fazendo o contrário do símbolo: o diabolo. No entanto, há nas Escrituras um respeito sagrado pela diferença. Todo o Universo é criado no divertimento que Deus tem em separar coisas através da sua palavra: isto agora é luz, isto agora é escuro; isto agora é terra, isto agora é mar; isto agora é homem, isto agora é mulher. Depois, o próprio homem é chamado a imitar este bom padrão de separação através da palavra, dando nomes aos animais, que é a modalidade certa de brincar a Deus: “isto agora é um cão, isto agora é um gato”. Logo, apesar de Deus unir e o Diabo separar, quando Deus separa, separa muito bem.
Deus quando separa, separa através da sua palavra e a diversidade que daí nasce é uma maravilha. As coisas serem diferentes não é um problema que Deus tem de resolver, é uma festa a celebrar. Acontece que, naquela imitação farsola típica do Diabo, surge a cópia barata. Satanás vai enganar-nos dando-nos a ideia de que está a fazer o mesmo que Deus faz, cuidando dos nossos interesses. Na tentação do Éden, em Génesis 3, a serpente apresentou-se como a maior defensora da qualidade de vida humana. A tese era mais ou menos esta: “ainda mais do que Deus, eu quero o vosso bem. Logo, comer do fruto proibido é melhor do que não comê-lo, como o Criador vos disse, enganando-vos.”
Ou seja, Deus, que nunca engana, passou por enganador para que o enganador passasse por cuidador. Deus tinha distinguido a árvore do conhecimento do bem e do mal das outras árvores para que, nessa diferença, houvesse vida. O Diabo diz que, afinal de contas, a árvore do conhecimento do bem e do mal é que é a árvore da vida e, nessa mesmidade mentirosa, nasce a morte. Deus diz: “esta árvore não é igual às outras: mantém-te vivo não comendo dela”. O Diabo diz: “morte é não tratares esta árvore como as outras, privando-te de comeres dela”. Para Deus, as diferenças caracterizam os limites da nossa liberdade; para o Diabo, os limites tornam a nossa liberdade tão diferente que já não pode ser encarada como liberdade. Ainda hoje andamos ao mesmo.
O nosso mundo é cada vez mais diabólico porque cada vez menos aceita a diferença como um limite. Nada pode ser diferente porque a diferença parece assim estragar-nos a liberdade (uma das vantagens de ser calvinista no século XXI é também a de estar mais vacinado contra a epidemia infantil da liberdade – isto de nos acharmos talhados naturalmente para a liberdade tem muito, muito que se lhe diga mesmo). “Não há limite, não há diferença” são pequenas acções de formação em bruxaria que já frequentámos. Nesse sentido, todos exibimos as pequenas mas eficazes credenciais satânicas do nosso tempo. Está na água que bebemos a expectativa de que nada nos impeça de juntarmos este momento ao nosso querer.
Regressemos, por isso, à afirmação de McLuhan: a tecnologia do “everything now” (olá Arcade Fire!) é a tentação diabólica na aparência simbólica. Se posso unir o meu querer ao meu tempo, julgo-me no paraíso. Mas cuidado. É do Diabo esse disfarce de unidade. É de Deus o paradoxo de na diferença encontrarmos a verdadeira comunhão. Não é, por isso, por acaso que a maior inteireza vai pedir de nós sempre uma razoável separação das grandes multidões – a pessoa que melhor as serviu na história do mundo foi quem fazia também questão de ter limites para elas. A pior engenharia electrónica de hoje combate-se também separando-nos dos outros, cultivando a diferença sagrada que existe em toda a criação. Ouve-se depois uma voz no final do dia, vinda do céu, dizendo: “é bom”.