Estamos a assistir, nas Américas, a duas das maiores tragédias políticas do nosso tempo: a agonia do radicalismo brasileiro, e a crise do conservadorismo norte-americano.

Convém lembrar o que esses movimentos representaram historicamente. Há cinco décadas, à esquerda e à direita, só parecia haver espaço em democracia para a gestão mais ou menos tímida do status quo. Suspeitava-se que tudo o que tivesse alguma ideologia, radical ou conservadora, implicasse alguma forma de ditadura. O radicalismo estava condenado a desembocar em Fidel Castro, e o conservadorismo levava fatalmente ao general Franco.

Nos Estados Unidos, as coisas começaram a mudar com a campanha presidencial de Barry Goldwater, em 1964. A nova maré conservadora conjugou correntes diversas — libertários (“neo-liberais”), a esquerda internacionalista anti-soviética (os “neo-conservadores”), e seitas evangélicas (a “direita religiosa”) – e deu ao Partido Republicano as mais vastas maiorias desde a década de 1920. No Brasil, foi o Partido dos Trabalhadores, com Lula, que criou a impressão, a partir da década de 1990, de que o radicalismo podia governar sem destruir imediatamente a liberdade e a economia. O PT dirigiu coligações que incluíram até o antigo ministro da ditadura militar Delfim Netto (“com tempo suficiente, até o PT aprende”). Afinal, o radicalismo podia não ser totalitário, e o conservadorismo não precisava de ser reaccionário.

Tudo isto parece comprometido neste momento. O PT está refém do seu próprio fundador, o ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, aparentemente determinado, como qualquer cacique rico, em usar o governo como um meio para escapar à justiça (“só os pobres vão para a prisão”, como ele lembrou uma vez). O Partido Republicano vê-se assombrado por Donald Trump, um intruso desbocado, antigo apoiante dos Clinton, apostado em desviar o republicanismo para a via estreita do proteccionismo alfandegário e da “supremacia branca”. Como é que o fundador do PT, o campeão da “ética”, o popular Lula, se transformou num suspeito de corrupção? Como é que um usurpador indiferente aos grandes princípios do moderno conservadorismo ameaça capturar a candidatura republicana? Tudo pode ser estranho, mas não é inexplicável.

O radicalismo brasileiro deu toda a prioridade ao poder, segundo a análise descarnada da política em voga na academia radical, sempre pronta a tratar o Estado de direito como a mera decoração de um domínio. O PT empenhou-se em dominar, e por isso cultivou por todos os meios redes de barões e clientelas eleitorais, à custa da legalidade e dos equilíbrios financeiros (como aqui explicou Martim Vasques da Cunha). Tornou-se uma máquina cínica e sem escrúpulos. E eis Lula suspeito da justiça, depois de José Dirceu.

O conservadorismo americano investiu muito na reconquista da “hegemonia” ideológica. Para abalar o “politicamente correcto”, promoveu a audácia e encantou-se com a provocação, em que se tornaram exímios radialistas como Rush Limbaugh. Acabou por gerar uma atitude de oposição sem limites, facilmente populista e frequentemente anti-intelectual. O bom senso passou a ser desprezado como uma fraqueza. E eis Trump a falar pelos conservadores, como aliás já tinha falado Sarah Palin.

Lula tenta convencer os seus seguidores de que é vítima de uma conspiração da direita ultra e dos grandes interesses, embora tenha estado aliado no poder aos maiores interesses e à direita mais ultra. Trump declara-se vítima do “politicamente correcto”, quando tem contra ele aqueles que mais lutaram contra a correcção política, como a National Review. Veremos se os movimentos têm força para se defenderem contra os seus coveiros.