Nos idos de Março de 44 a.C., Júlio César morreu. Um general lendário, um soldado entre os soldados (a quem tratava de “camaradas de armas”), um patrício, um democrata, que “cruzou o Rubicão”, por volta de 49 a.C., para por fim às profundas desigualdades entre a classe senatorial e os plebeus. Então ele desfez-se do que restava do primeiro triunvirato, o acordo secreto celebrado com Crasso e Pompeu, para estabelecer uma ditadura.
Crasso, um banqueiro, que colocou a sua imensa riqueza ao serviço de César para que fosse eleito cônsul, foi sequestrado pelos tribunos da plebe e morto de forma atroz. Pompeu, que colocou a sua enorme influência ao dispor de César, e se tornou seu genro para consolidar ainda mais a tríplice aliança, acabou depois de ter sido derrotado e perseguido pelo general lendário, decapitado no Egipto, onde foi procurar refúgio.
Livre de todos os inimigos internos e externos que pudessem tentar frustrar as suas ambições, César dedicou-se ao que Plutarco e Suetónio narraram nas suas obras “Vida de César”: à busca incessante de glória e da conquista do apoio popular a si mesmo a qualquer custo, com políticas subversivas de facto, mascaradas por uma aparente filantropia”.
Para tal, convenceu a República da necessidade urgente de reformas radicais, que, para serem realizadas, exigiam uma forte autoridade pública no comando – “um homem novo” – capaz de “libertar a si mesmo e ao povo romano” (observe a ordem de sucessão) da opressão exercida pelos ricos patrícios e políticos gananciosos. Reformas radicais, que, como relata Plutarco, visavam, apenas, garantir o apoio popular contra os patrícios que controlavam o Senado, independentemente da sua eficácia real.
Foi o caso da Lex Julia de bonis cendis, que estabeleceu o direito de vender bens aos credores para pagar dívidas; da Lex Julia de mercedibus habitationum annuis, que estabelecia o arrendamento justo, devido à onda de refugiados em Roma; da Lex Iulia de modo credendi possidendique intra Italiam, que obrigava os ricos a reter 60% do seu capital em Itália; da Lex frumentaria, que previa a distribuição de pão gratuitamente pelos pobres, entre outras leis populistas, como a da distribuição de terras pelos plebeus (que foram concedidas apenas aos veteranos das suas legiões).
Conquistado o povo, César logo transformou a ditadura de dez anos, que lhe havia sido conferida pelo Senado, numa ditadura vitalícia. Passando, assim, de libertador aclamado pelos pobres a ditador com o seu apoio, semelhante a satisfação de ver os patrícios ricos em situação igual ou pior do que eles.
E à medida que a sua popularidade crescia entre a plebe, mais difícil se tornou para os patrícios derrubá-lo. A luta de classes romana entre “patrícios” e “plebeus” culminou com os primeiros a acusar Júlio César de querer matá-los de fome, sentado numa poltrona feita de ouro. Então nos Idos de Março ele foi cercado e assassinado por um grupo de conspiradores, incluindo o seu filho bastardo Bruto, a quem César dirigiu a famosa frase ” anche tu, figlio mio”.
Estes eventos da Roma pré-imperial levam-nos directamente para o aconteceu entre 4 e 5 de novembro de 2025, quando o primeiro “mayor” “muçulmano e socialista” (observe a ordem) da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, foi eleito, com 50% dos votos num contexto em que qualquer candidato democrata teria vencido: Nova York é estruturalmente democrata, fortemente hostil a Trump e polarizada a favor de qualquer um que se oponha a ele.
Mamdani, que é descrito como um militante do Partido Democrata, mais do que pulverizar o Partido Republicano, dividiu o seu próprio partido com a sua retórica socialista e antissemita. Tanto que uma parte dele chegou a apoiar Andrew Cuomo, que concorreu como independente. Ele também se apresentou como anticapitalista, representante dos migrantes e das classes menos favorecidas, mas descende de uma família rica e foi eleito com o apoio de um segmento do establishment que deveria ser irreconciliável com as ideias socialistas de inspiração marxista que defende (vide a foto dele com Alex Soros).
O programa com o qual foi eleito é uma poderosa mistura de inveja e ilusões sociais, que inclui “autocarros rápidos e gratuitos”, “cuidados infantis universais”, “congelamento de rendas”, “subsidiar supermercados”, entre outras. E para levar adiante esta espécie de comunismo 2.0, Mamdami espera que sejam os ricos nova-iorquinos a pagá-lo, taxando-os. “Vamos acabar com os ricos”, prometeu um Mamdani confiante. Nada de novo. Os supostos defensores dos pobres e dos oprimidos, desempoeiram sempre este clássico do repertório ideológico socialista. Eles não querem combater a pobreza, mas sim a riqueza. Pena que quem tem dinheiro também tem um plano de fuga, um exílio fiscal ou uma casa ensolarada na Flórida. E quando uma boa parte dos malvados ricos tiverem feito as malas, quem pagará pelas promessas populistas de Mamdani, o novo Messias da esquerda portuguesa e arredores?
A jugar pelas experiências passadas, pagarão aqueles que são usados por uma elite radical chique em nome dos seus próprios interesses. No século 49 a.C., a inveja social fomentada por Júlio César serviu para por fim à constituição romana, relegar o Senado a uma impotência quase total, cujo resultado foi o conceito moderno de ditadura: a personificação de todos os maiores sonhos de poder — religiosamente perseguido, no século XXI, por Lenine, Estaline, Mao, Fidel Castro, Chávez, Maduro, entre outros. É provável que Mamdani não aspire a tanto. É possível que vise apenas a islamização do Ocidente. Veremos.