Greve

Manifesto contra a greve do Metro

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Estas greves no Metro só me fazem ter mais vontade de ver a empresa privatizada: nesse dia acabaria o poder da CGTP e haveria realismo nas reivindicações e nos protestos. E os utentes sairiam a ganhar

Greve no Metro. Outra vez? Sim: todas as vezes que a direcção da CGTP entender e conseguir. Os utentes sofrem sempre mas isso pouco incomoda os sindicalistas, apesar das piedosas palavras em contrário. Mais: estas greves, por afectarem uma empresa onde muitos passageiros utilizam passes mensais, afectam sempre mais os utentes do que os contribuintes – pois, não esqueçamos, são os contribuintes os seus accionistas.

Lêem-se as declarações públicas, procura-se no site do sindicato, e nada de substancial se sabe sobre os motivos da greve, a não ser os de sempre – os de há dez anos e os dos próximos dez anos se, até lá, o Metro continuar a ser uma empresa pública. A greve, diz Arménio Carlos, repete o sindicato do sector, é feita em nome daqueles que prejudica, os utentes, e também em nome de um mítico “serviço público”. As reivindicações dos trabalhadores quase nunca são explanadas – até porque cairiam mal junto de muitos outros trabalhadores.

Na verdade há uma relação muito pequena, se é que existe alguma relação, entre greves como a do Metro e qualquer movimentação genuinamente sindical. Basta pensar no seguinte dado: até há um ano atrás, altura em que o balanço foi feito, tinha havido uma qualquer greve dos transportes em metade dos dias de vigência do actual governo. Greves de zelo, graves às horas extraordinárias, greves totais, greves no Metro mas também na CP, na REFER e na Carris, ou nos STCP e Soflusa. Greves atrás de greves, tantas que na grande Lisboa até já há um site chamado “Hoje há greve? Veja se consegue chegar ao trabalho.”

Podemos tentar iludir-nos e fingir que a CGTP é uma central sindical preocupada com os trabalhadores que representa, herdeira de um sindicalismo capaz de conduzir negociações e promover o bem-estar dos trabalhadores. Há muito que isso não sucede. A CGTP, por regra, não negoceia, reivindica; não chega a acordo, protesta. As suas motivações são cada vez mais políticas, os seus calendários sobrepõem-se de forma quase indistinguível com os calendários do Partido Comunista e a única linguagem que conhece é a da propaganda (há mesmo uma subsecção no site da CGTP chamado “Propaganda”).

A CGTP tem todo o direito de ser assim, e até faço parte dos que acham que esta submissão à estratégia do PCP, se enquista uma parte do movimento sindical em posições que nunca permitem acordos construtivos, ao mesmo tempo tem a vantagem de o enquadrar em estruturas que limitam os radicalismos violentos. Mas nós também temos todo o direito de dizer que ela é assim, e de interpretar as greves que organiza à luz das suas prioridades políticas.

E o que vemos, ao olhar para a CGTP, é um movimento sindical que quase só é efectivo no sector público. Isso vê-se muito bem sempre que convoca uma greve geral, onde quase só as empresas públicas e a administração do Estado são afectados, mas também se vê com clareza quando olhamos para o calendário de greves consultável no mesmo site de CGTP: são quase exclusivamente no sector público. Quando as empresas são privadas, os sindicalistas não fazem greves, convocam “tribunas públicas”, uma forma de luta que desconhecia antes de consultar esta lista e que depreendo serem aquelas micro-concentrações de sindicalistas à porta das empresas para consumo das televisões.

Mas há mais, e porventura mais importante: a futilidade das razões invocadas para estas greves, que vai a par com a condição de relativo privilégio dos trabalhadores abrangidos. Neste domínio o caso do Metropolitano de Lisboa não deixa de ser exemplar.

Comecemos pela condição de relativo privilégio. Ela está bem retratada no último relatório do Tribunal de Contas sobre a empresa, infelizmente já com alguns anos mas que era muito revelador sobre o que se passava lá dentro. Na altura em que esse relatório foi feito (admito que tenha havido alguma evolução), pagavam-se no Metro os mais extraordinários subsídios e prémios. Havia subsídios de “agente único”, de “salubridade”, de “limpezas técnicas”, de “ajuramentação”, até de “quilometragem”, todos por regra pagos 14 meses por ano. Havia até um chamado “vencimento carreira aberta” que se destinava a assegurar que quem chegava ao topo da sua categoria continua a ter garantida a sua evolução “vertical ou horizontal”. Como se escrevia nesse relatório do Tribunal de Contas, ao todo, o Metropolitano, só em 2007, gastou com todos esses subsídios 8,8 milhões de euros, “valor muito significativo tendo em conta que alguns deles não contribuem para estimular a produtividade, nem decorrem sequer do exercício de algumas tarefas especiais que actualmente os justificassem”.

Quero crer que muitas dessas regalias entretanto desapareceram ou diminuíram, e acredito que isso também motive as greves, mesmo não sendo abertamente assumido. Mas o ponto é que sem alguma racionalização não teria sido possível aquilo que, apesar de tudo, aconteceu nos últimos anos: de um empresa que dava gigantescos prejuízos operacionais, o Metropolitano de Lisboa passou a ter um resultado positivo. De facto, consultando o último relatório e contas da empresa (2013), verifica-se que os resultados operacionais passaram de um saldo negativo de 65 milhões em 2010 para um saldo positivo de 22 milhões o ano passado. Claro que nenhuma das medidas de gestão que permitiram esta evolução positiva escapou à condenação liminar da CGTP, que falou sempre de destruição do serviço público mesmo quando apenas se tentava tornar esse serviço público minimamente sustentável.

Foi assim que, em 2012, só no Metro, foram convocadas 11 greves. E em 2014 foram mais 14 as greves convocadas. Ou seja, a um ritmo superior a uma por mês.

Chegamos assim ao tema derradeiro, à verdadeira motivação da CGTP e de Arménio Carlos: a possível concessão do Metropolitano de Lisboa a uma empresa privada. No dia em que isso sucedesse, e o Metro passasse a ser uma empresa de transportes públicos mais semelhante a tantas empresas privadas de transportes públicos, o poder dos sindicalistas dissolver-se-ia num ápice. Haveria mais realismo nas reivindicações e nos protestos. E o serviço público, a satisfação dos utentes, até poderia aumentar. Melhor: aumentaria de certeza, pois não veriam os seus dias de trabalho gravemente perturbados com a regularidade sádica dos calendários sindicais de Arménio Carlos.

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