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Parece haver muita gente convencida de que só mudando o mundo será possível derrotar o jihadismo. Se fosse assim, é preciso reconhecer desde já que os jihadistas estão destinados a vencer, porque é claro que ninguém vai mudar o mundo, isto é, eliminar todas as dificuldades e preconceitos nos países de acolhimento da diáspora muçulmana, como desejam os nossos progressistas, ou então, numa variante conservadora do mesmo raciocínio, devolver às sociedades ocidentais as certezas heróicas de um oficial britânico na Índia em 1880. Não: para combater o jihadismo, há que confiar na polícia e nas forças armadas, apoiadas no interesse que as sociedades ocidentais, mas também as sociedades muçulmanas têm em se livrar da coacção sangrenta dos jihadistas.

Porque é que isto não é claro? Porque, muito curiosamente, naquilo que é fundamental, nós parecemos acreditar nos jihadistas. Eles dizem que nós somos decadentes, e nós, em geral, sentimo-nos decadentes. Eles dizem que representam o Islão, e demasiada gente aceita que, no fundo, representam o Islão. Eles dizem que querem morrer como mártires, e nós pensamos que eles podem morrer como mártires, o que faz com que haja sempre quem venha recomendar muito cuidado no uso da violência, ou até descrer da sua eficácia: se os prendermos ou matarmos, estamos apenas a fazer deles uma inspiração para outros. Ora, nada disto é verdade.

Há uma parte da nossa mitologia que ajuda os jihadistas. Nós aprendemos que o cristianismo se projectou através do exemplo dos seus mártires, e acreditamos que qualquer ideologia que tenha militantes prontos a morrer está destinada a expandir-se. Acontece que os mártires cristãos não se destacaram por matar gente indefesa, incluindo crianças em escolas, como os jihadistas, e que a morte dos seus militantes nem sempre é vantajosa para uma causa. Para nos ficarmos pelos movimentos de guerrilha: o fim de Guevara na Bolívia, em 1967, inspirou muitos posters estudantis, mas arruinou a sublevação que ele procurava atear. O grupo Baader Meinhof nunca recuperou da prisão e desaparecimento dos seus líderes. A repressão não é necessariamente ineficaz.

As forças de segurança não precisam de ser cruéis e desumanas, mas precisam de estar atentas a quem comprovadamente opte pelo jihadismo. No caso do Charlie Hebdo, os assassinos eram conhecidos pela polícia. Isso é reconfortante e preocupante ao mesmo tempo. É reconfortante, porque sugere que a malha de segurança ocidental é suficientemente fina para não deixar escapar qualquer organização ou propaganda; é preocupante, porque é óbvio que as autoridades nem sempre levam a sério o que detectam. A esse respeito, o “7 de Janeiro” em Paris faz lembrar o “11 de Setembro” em Nova Iorque, em relação ao qual o relatório do Congresso americano notou como os órgãos de segurança tinham acumulado indícios a que não deram importância.

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Aqui, porém, talvez haja quem argumente: sim, mas ao contrário do Guevara boliviano, os jihadistas têm uma enorme organização e uma devoção religiosa milenar por detrás deles, e a simpatia potencial das comunidades que partilham essa devoção. Ora, também Guevara no seu tempo foi dotado pela imprensa ocidental de poderes e de apoios transbordantes. Não era assim no caso de Guevara, e não é assim no caso dos jihadistas.

Há dias, escrevi que não devemos subestimar o projecto jihadista; agora, vou argumentar que também não devemos sobrestimar a sua força. Não há qualquer contradicção: o projecto de terror faz sentido, mas isso não quer dizer que os jihadistas tenham os meios para o realizar, sobretudo se as autoridades ocidentais estiverem prontas para lhes fazer frente.
Os jihadistas não são a encarnação de correntes históricas imparáveis e avassaladoras, ao contrário do que o sensacionalismo jornalístico e o fascínio da barbárie fazem acreditar a demasiada gente. No Ocidente, só conseguem actuar esporadicamente e em grupos microscópicos; no Médio Oriente e na Ásia, os seus pés de barro ainda são mais evidentes: por exemplo, a al-Qaeda acabou isolada e foi totalmente derrotada no Iraque em 2007-2008.

Jihadistas como os de Paris não representam nem as comunidades donde saem, nem o Islão. A sua suposta devoção não foi herdada, mas adquirida na juventude, como qualquer moda suburbana. Aliás, os mais perplexos com as suas opções são geralmente os seus familiares. A “religião” dos jihadistas não é a dos seus antepassados, mas uma ideologia nova, em ruptura, não apenas com as sociedades ocidentais, mas também com as tradições islâmicas que dizem defender (para os jihadistas, aliás, quase todos os outros muçulmanos são “hereges”). Aprende-se mais sobre os jihadistas a ler os Possessos de Dostoievsky do que o Corão.

Mas, dir-me-ão agora, não tem o Islão textos violentos, ao contrário do cristianismo? Tem, mas interpretar a religião muçulmana a partir daí é adoptar o ponto de vista dos jihadistas e aceitar que uns quantos clérigos controversos e alguns jovens semi-letrados são a maior autoridade sobre culturas e civilizações milenares. O Islão tem muitos textos violentos, porque, tal como o antigo judaísmo, não se desenvolveu por meio da conversão de um grande poder militar estabelecido, como o cristianismo no império romano, mas através dos esforços de uma pequena comunidade de crentes em confronto armado com outras comunidades. Por isso, a sua tradição fala muito de guerras, como aliás o Velho Testamento. Por outro lado, o Islão, tal como cristianismo, existe em muitas formas locais, e nem sempre é fácil distinguir entre o que é muçulmano e o que, por exemplo, é sudanês, turco, árabe ou indonésio. Não é assim impossível que a diáspora muçulmana na Europa acabe um dia por desenvolver também um islamismo específico a partir das fontes tradicionais.

É crucial recusar a “narrativa” jihadista. Não, os jihadistas não representam o Islão, nem as populações muçulmanas na Europa e também não são invencíveis, e portanto não é preciso mudar o mundo para os derrotar, tal como não foi preciso mudar o mundo para derrotar o terrorismo marxista-leninista da década de 1970. Não, os bárbaros não estão a chegar e, como no poema de Cafavy, continuam a não ser a solução.