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Quando, em 2002, o jornal norte-americano The Boston Globe revelou um extenso e horripilante padrão de abusos sexuais de crianças e adolescentes praticados pelo clero católico e com o compadrio das mais altas instâncias hierárquicas nos EUA, o mundo acordou para uma dura realidade: a instituição religiosa, que aparentava ser um bastião da moral e dos bons costumes, estava infestada de perigosos predadores sexuais.

Numa investigação levada a cabo apenas dois anos depois do escândalo revelado pelo jornal, ficou a saber-se que durante mais de 50 anos, milhares de crianças foram abusadas nos EUA por clérigos católicos, mais concretamente 10 667 pessoas. Inúmeros acordos extra-judiciais se seguiram, onde a hierarquia católica pagou muitos milhões de dólares às vítimas, comprando deste modo o seu silêncio e evitando que tais casos fossem, na sua maioria, julgados em tribunal.

Os casos de abuso sexual dentro da Igreja Católica têm sido uma constante e por todo o mundo, sabendo-se hoje em dia que o próprio Vaticano fechou os olhos a muitos destes crimes por décadas, acabando por permitir que os predadores sexuais não fossem levados à justiça. Como é óbvio, as regras internas do Vaticano impuseram um clima de silêncio às vítimas, promovendo um ambiente de impunidade.

O mais recente escândalo, desta vez em França, trouxe a público a informação de que mais de 300 mil crianças e adolescentes foram vítimas de abuso sexual em instituições da Igreja Católica entre 1950 e 2020. É possível que o número possa ser bem maior, pois nestes casos sabe-se que muitas das vítimas não têm a coragem de revelar que sofreram abusos. Fica apenas o trauma e o silêncio preso na garganta e a vida marcada pela infância destruída.

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Segundo o relatório francês da Comissão Independente sobre os Abusos da Igreja, foram cerca de 3000 os abusadores – sendo dois terços deles clérigos que trabalharam na igreja de França ao longo de 70 anos – que cometeram tais crimes.

Ficou bem patente no relatório que a Igreja Católica foi indiferente perante o sofrimento das vítimas durante dezenas e dezenas de anos.

Parece que para as religiões a sua imagem e prestígio está acima do sofrimento humano. Os fins parecem justificar os meios, nem que para isso se ignorem comportamentos abusivos, violentos e até mesmo perversos do ponto de vista da moral defendido por tais religiões.

Cresci num grupo religioso minoritário em Portugal, como são as Testemunhas de Jeová, e sempre fui constantemente bombardeado com publicações da religião que expunham o clero católico, tanto do ponto de vista doutrinal quanto moral. Nestas publicações a mensagem constante era de que a Igreja Católica estava corrompida por vícios imorais e inúmeras parafilias, onde os padres mantinham relações homossexuais e adúlteras e onde crianças eram abusadas, física e mentalmente, com relativa facilidade e impunidade.

Para quem não sabe, durante décadas as Testemunhas de Jeová apontaram as suas baterias contra o Catolicismo, sabendo que a exposição de erros doutrinais e morais seria a via rápida para encontrar novos conversos para o grupo. Afinal, quem deseja pertencer a um grupo religioso que permite e oculta crimes sexuais e/ou tem ensinos conflitantes com a “verdade bíblica”?

Em Portugal, milhares de pessoas saíram do catolicismo para as Testemunhas de Jeová exactamente porque esta mensagem de exposição teve impacto. Foi o caso da minha mãe.

Por isso, podem imaginar a minha surpresa quando, décadas mais tarde, vim a perceber que os mesmos vícios e erros de moral apontados à Igreja Católica também faziam parte do ‘código genético’ do grupo religioso a que eu pertencia.

Pensava eu que qualquer abuso sexual de crianças dentro das Testemunhas de Jeová seria tratado com a maior severidade possível, com o abusador sendo expulso da comunidade e o caso entregue às “autoridades superiores”, seguindo o espírito da carta do apóstolo Paulo aos Romanos 13:1-5.

Quão enganado estava!

Após ser designado ancião na congregação a que pertencia, passei a ter acesso a cartas da organização religiosa e ao manual secreto dos anciãos, que detalhavam em pormenor como lidar com tais casos de abuso, onde em última instância seria criado um tribunal eclesiástico para julgar o caso – na prática um tribunal paralelo e à margem da lei.

Passei também a ser ensinado de como actuar, caso surgisse uma denúncia de abuso sexual, o que na prática seria da seguinte forma:

  • Contatar o departamento jurídico da filial em Portugal (Betel), assim que fosse relatado um caso de abuso e esperar que esse departamento desse instruções de como agir;
  • Criar uma comissão interna de investigação, onde os anciãos ouviriam a vítima menor e o acusado, tentando saber a versão de ambos. De referir que infelizmente, em muitos casos, anciãos confrontaram a vítima e o abusador no mesmo espaço físico numa espécie de frente-a-frente;
  • Os anciãos encarregados do caso eram, na esmagadora maioria dos casos, instruídos a não contatar as autoridades e até mesmo ocultar delas quaisquer informações que pudessem ajudá-las na investigação, usando para isso o chamado ‘privilégio eclesiástico’ atribuído ao clero, onde a confissão é considerada sagrada e inviolável. Tem sido repetida, vez após vez, a tentativa de usar esta alegação, de modo a evitar colaborar com as autoridades em todo o mundo.
  • Nos casos em que o alegado abusador negou os factos e onde apenas a vítima alegava o abuso, os anciãos eram instruídos a “deixar o assunto nas mãos de Jeová”, usando aqui a chamada regra das “duas testemunhas”, que ainda se mantém em vigor atualmente.
  • Estes procedimentos e o esforço de encobrir casos de abuso sexual de crianças nas congregações das Testemunhas de Jeová ao redor do mundo foram apresentados ao mundo numa grande reportagem da BBC em 2002, no programa Panorama, com o título “Suffer the little Children” (Sofrem as Criancinhas) e que passou num canal de notícias português.

Imaginem a onda de choque que esta reportagem causou dentro da comunidade religiosa em Portugal e no mundo. Foi a primeira vez que os media investigavam alegados casos de abuso sexual além do universo religioso católico. A imagem retratada nesse programa não era melhor do que aquela que já se tinha vindo a descobrir na Igreja Católica. As Testemunhas de Jeová agiam em tudo de forma semelhante à hierarquia católica na forma de lidar com os casos de abuso e faziam todo o esforço para silenciar as vítimas, pressionando-as a não reportarem os crimes às autoridades, sob pena de expulsão do grupo e ao mesmo desacreditando-as. Afinal não havia duas testemunhas do abuso, conforme supostamente a Bíblia indica quando é preciso julgar alguém.

Desde essa reportagem da BBC várias denúncias foram sendo reveladas, sendo a mais polémica o caso da jovem Candace Conti, em que a organização religiosa nos EUA foi condenada a pagar 22 milhões de euros de indemnização. Este caso acabou por arrastar-se por alguns anos em tribunal, tendo a organização chegado a entendimento com a vítima num acordo extra-judicial, tão comum nestes casos de litígio com grandes corporações ou instituições religiosas.

Chegados a 2013, o governo australiano criou uma Comissão especial de investigação, chamada de Comissão Real Australiana, com o objectivo de investigar as políticas internas de instituições seculares e religiosas, devido a inúmeras denúncias de casos de abuso sexual de crianças no seu meio.

As Testemunhas de Jeová foram um dos grupos religiosos visados e que mais polémica causou, a par do catolicismo. Com base nestas descobertas da Comissão, um alto membro do clero católico australiano, o cardeal Pell, foi considerado culpado de abuso sexual de menores, chegando a estar preso. Foi mais tarde ilibado pelo Supremo Tribunal.

No inquérito feito aos líderes religiosos das Testemunhas de Jeová na Austrália, onde um membro do Corpo Governante foi intimado a depor, ficou bem patente a negligência, apatia e falta de preocupação para com as vítimas de abuso no seio desta organização religiosa.

O próprio juiz que presidiu a esta Comissão disse que ainda não tinha visto uma organização com tantos problemas na abordagem às alegações de abuso sexual como as Testemunhas de Jeová e tornou-se óbvio, a partir do depoimento das vítimas, dos anciãos, e até do membro do Corpo Governante Geoffrey Jackson, que estas vítimas foram deixadas traumatizadas, abandonadas, silenciadas e sentindo-se ainda mais maltratadas após relatarem o abuso sexual do que antes.

Logo no relatório preliminar a respeito das políticas da Organização Torre de Vigia quanto a lidar com casos de abuso, foram apresentadas 77 recomendações adversas às práticas organizacionais das Testemunhas de Jeová na Austrália.

Neste relatório, ficou claro que, por cerca de 60 anos, milhares de crianças e adolescentes foram abusados por 1006 indivíduos, sendo que a maioria exercia cargos de responsabilidade nas congregações (anciãos e servos ministeriais). Um resumo desse relatório pode ser lido aqui.

Mais recentemente, uma comissão de investigação na Inglaterra e País de Gales chegou a conclusões similares. Ao todo, 38 grupos religiosos foram investigados desde 2014 e as Testemunhas de Jeová foram um dos grupos visados.

A comissão, com o nome Inquérito Independente sobre Abuso Sexual de Crianças (IICSA), concluiu que as Testemunhas de Jeová e outros grupos religiosos falharam em proteger as crianças, no esforço de proteger a sua reputação. O relatório completo pode ser lido aqui.

A pergunta que se pode levantar é: caso fosse criada uma comissão portuguesa similar a que conclusões chegaria?

Duvido de que as conclusões fossem muito diferentes em relação aos grupos religiosos mencionados, segundo os relatórios já existentes.

É claro que existe um sentimento de impunidade e secretismo dentro da Igreja Católica portuguesa, assim como dentro da organização religiosa das Testemunhas de Jeová, representada em Portugal pela Associação das Testemunhas de Jeová.

Pelo que já disseram representantes da Igreja Católica portuguesa, não existe objecção por parte da Igreja a que exista uma investigação de casos de abuso sexual de menores, desde que não se limite à Igreja Católica.

A este respeito, tenho que concordar. O crime de abuso sexual de crianças é realmente transversal e ultrapassa credos e grupos religiosos. Na verdade, muitos acabaram por encontrar dentro dos grupos religiosos o ambiente de confiança e ingenuidade necessários para levar a cabo os seus intentos. O acesso a menores é fácil e muitas das vezes os pais baixam a guarda, permitindo que seus filhos convivam intimamente com adultos em posição de autoridade e confiança na comunidade religiosa.

Isso pode ajudar a explicar o elevado número de abusadores e vítimas dentro do contexto religioso: confiança em excesso, em virtude de os ministros religiosos serem considerados como “homens de Deus” e com um cargo divinamente consagrado.

Mas como diz o Salmo 146:3: “Não confieis em príncipes nem em filhos de homens, em quem não há salvação”. Pessoas perversas usam muitas das vezes a sua posição de autoridade para o mal. Acontece isso na política, na religião e em muitas outras esferas da sociedade humana.

O que se torna revoltante e inadmissível é quando o sistema religioso ou político não actua concordemente quando crimes são praticados e existe um esforço concertado de abafar e esconder tais crimes, como aconteceu no processo da Casa Pia.

Sinceramente, não acredito que uma comissão de inquérito independente sobre abuso de crianças em Portugal conseguisse chegar a bom porto, olhando para a pouca moral que existe até mesmo no sistema político português. E como temos um povo que pouco se bate pelos seus direitos e pelo cumprimento da lei, conforme se viu durante a pandemia, nenhum poder, seja ele religioso ou político se sente pressionado a expor os podres que tem varrido para debaixo do tapete durante décadas.

Graças a isso, os abusos continuarão em segredo e os predadores resguardados e protegidos da luz do dia. Afinal, não existe um certificado digital obrigatório para estas pessoas!

Cabe então aos pais salvaguardarem as suas crianças, não confiando em excesso naqueles que possuem poder e autoridade, seja ele político ou religioso. Invertendo as palavras de Jesus em Mateus 19:14 pode-se dizer:
“Não deixai ir a eles as criancinhas.”