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Em 2022, a família Mesquita Guimarães vai ser convidada a ir à Web Summit? Só pode. Não nos disseram durante não sei quantos dias que a Web Summit quer ser palco de “discussões difíceis”? Que devemos ser quem somos? Não ter medo?… Ou será que a expressão “discussões difíceis” se deve traduzir por “discussões com guião pré-definido sobre assuntos mediaticamente obrigatórios”?

(Último dia da Web Summit, Marcelo sobe ao palco e faz uma performance de orador motivacional. Vê-se que está feliz. Nada do que afirma o compromete. É só esperança e boa vontade. O apresentador-motivador imaginário vai ser o novo boneco de Marcelo.)

Antes de passarmos à hipocrisia das “discussões difíceis” devo fazer uma declaração de interesse: embirro com unicórnios. Ao contrário dos carrinhos, dos legos e das bonecas que me faziam sorrir quando surgiam nos mais inesperados recantos do espaço doméstico, os unicórnios, talvez por causa daqueles olhos de carneiro mal morto, nunca despertaram em mim outro interesse que não fosse enfiá-los numa caixa qualquer à espera que a mania passasse. Ora não só a mania não passou como extravasou das caixas dos brinquedos para o país, que parece cada vez mais uma ficção de homens infantilizados que ora andam à procura da bazuka ora anunciam o sonho de uma Fábrica de Unicórnios.

(Tivemos o Marcelo das selfies. Era no tempo em que ao país anunciava que se virara a página da austeridade. O Marcelo das selfies nunca quis saber que página outra era essa por onde agora corria a nossa vida: dívida pública? Cativações?… Marcelo sorria para os telemóveis. Vieram depois os mergulhos e os calções de banho. O país ardeu. Morreram dezenas de pessoas. A degradação instala-se nos serviços públicos. Desaparecem armas dos paióis. E Marcelo? Marcelo mudava de calções de banho.)

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Explicada a minha embirração com os unicórnios, vamos às “discussões difíceis” que Paddy Cosgrave, organizador da Web Summit, declara desejar. Já referi uma que me parece crucial e, tenho a certeza, propiciaria um óptimo painel na Web Summit, com ou sem unicórnios: como é possível que, 50 anos depois de em Portugal se ter tornado facultativa a frequência das aulas de Religião e Moral e de a Mocidade Portuguesa ter deixado de ser obrigatória, como é possível, pergunto, que em 2021 dois alunos, por sinal excelentes alunos, arrisquem reprovar porque não frequentam as aulas da nova doutrina, vulgo Educação para a Cidadania? Dirão que a Educação para a Cidadania não está ao nível da Religião e Moral ou da Mocidade Portuguesa. Estão enganados. A Educação para a Cidadania está transformada numa arenga doutrinária. Para mais os seus conteúdos não se esgotam na disciplina propriamente dita e tornaram-se tópicos obrigatórios das outras disciplinas! Ao mesmo tempo que aprendem cada vez menos matemática, ciências, português ou geografia, os alunos das escolas portuguesas são cada vez mais doutrinados.

(O recurso cénico  aos calções foi interrompido pela pandemia e consequentemente pela irrupção do terraço nas performances presidenciais: os portugueses, a quem tinha sido dito que “não havia grande probabilidade de o vírus cá chegar” ou que até teria consequências positivas para o país, que as máscaras davam uma falsa sensação de segurança ou que pelo contrário deviam ser obrigatórias, confrontaram-se com mais um insólito presidencial: Marcelo a comentar a sua própria quarentena, a partir do terraço da sua casa.)

Como é que 50 anos depois isto nos está a acontecer? E sobretudo como é que nunca se avalia o resultado de tudo aquilo que nas escolas tem sido apresentado como um avanço, uma libertação, um progresso e que algum tempo depois acaba num desastre de que não se fala e que se ataca com medidas muito mais gravosas que aquelas que se aboliram? Por exemplo, durante anos e anos desautorizaram-se professores e funcionários. Porque eram autoritários. Porque representavam um modelo de escola ultrapassado. Os meninos deixaram de ser mal educados e passaram a ser vítimas ou autores de bullying. Professores e funcionários espancados ou na melhor das hipóteses desautorizados foi o resultado mais visível dessas celebradas mudanças. Mas há outros resultados, tão terríveis que nem se discutem. Por exemplo, a transformação em matéria criminal a ser tratada pelo Ministério Público do que outrora era uma questão de disciplina resolvida dentro da escola, entre alunos, pais e professores. Esta criminalização do que se chamava mau comportamento agora já não acontece apenas para os alunos com mais de 16 anos mas também para as crianças e adolescentes. Vamos falar sobre isto ou esta é uma discussão difícil que não cabe no âmbito das discussões difíceis que se devem ter? A facilidade com que auto-denominados libertadores impõem a tirania em nome da libertação seria uma discussão bem difícil. Porque não agendá-la para 2022? A actualidade não pode ser maior: foi precisamente a contestação a este tipo de doutrinação nas escolas que, já neste mês de Novembro, alavancou a vitória republicana no estado da Virgínia. O mesmo em que Biden vencera. Ou será que esta não é uma discussão como deve ser?

Por exemplo, uma discussão difícil, como deve ser, é aquela que propôs Ayọ Tometi, uma das fundadoras do Black Lives Matter e oradora nesta Web Summit. Ayọ Tometi sobre as redes sociais disse uma coisa e o seu contrário – por um lado as ferramentas são estruturalmente racistas (racismo branco, evidentemente) e, por outro, o BLM cresce graças às redes sociais. De fora desta discussão difícil, quiçá por ser fácil, ficou a discussão sobre o apoio militante da senhora Ayọ Tometi ao regime da Venezuela e muito particularmente ao ditador Maduro.

(Sendo para ele a política um palco, Marcelo precisa de objectos para contracenar, para se mostrar. A caixa do multibanco a que se dirigiu sem necessidade alguma na noite em que o orçamento foi chumbado foi o adereço perfeito para esse momento de stand up presidencial.)

Outra discussão difícil mas que alguma vez teremos de ter, queira ou não Paddy Cosgrave mantê-la, passa pelo financiamento da Web Summit. Sim, já se sabe que Paddy Cosgrave acha que nós portugueses nos bastamos com o sol: “Quem precisa de 5G, quando tem o sol? – perguntou com aquela manha de quem já nos topou a lusa fraqueza. Qualquer estrangeiro que nos exalte o clima, a comida ou garanta a singularidade da palavra saudade tem o seu viver praticamente assegurado neste país. Ora não só nós portugueses não nos alimentamos do sol como tal não daria jeito algum ao senhor Paddy Cosgrave, pois se fossemos respiracionistas (assim se chamam os defensores da alegada  alimentação a partir do sol) não lhe poderíamos pagar os 11 milhões de euros anuais a que nos comprometemos para que ele mantenha a Web Summit em Lisboa. Paddy, que definitivamente também não vive do sol, não só não faz borlas – veja-se o que aconteceu no ano passado em que a Web Summit foi virtual mas o financiamento se manteve real – como vai expandir para outras cidades a Web Summit. Quem sabe nessas novas paragens confidenciará, como fez em Lisboa em 2018: “A minha mulher disse-me ontem à noite que vamos mudar-nos para Lisboa.” É só substituir Lisboa por Tóquio, Kuala Lumpur ou Brasil e provavelmente antecipamos a próxima confidência de Paddy Cosgrave.

A outra discussão difícil em torno da Web Summit é mesmo aquilo em que ela se está a transformar: uma feira cada vez menos tecnológica e mais de desfile do politicamente correcto, em que se chama discussões difíceis ao que simplesmente não passa de um discurso padronizado e previsível.

(Não sei que mais artefactos Marcelo trará a palco até ao fim do seu mandato mas sei que aquele que Marcelo teme é o espelho. O espelho onde, quando estiver para deixar Belém, se olhe e pergunte: o que é que eu fiz?)